Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Porto e FC Porto não merecem isto!

Estamos a ser todos vítimas do fanatismo destes loucos tempos. O fanatismo religioso. O fundamentalismo político e económico, tudo em cima das reformas que não foram sido feitas ao longo dos tempos, mais a ausência de mecanismos reais e eficazes de regulação, causas próximas da crise sistémica e de regime em que nos achamos mergulhados, com os sinais de fractura a serem sentidos com crescente visibilidade na Europa. Consequência: várias formas de violência a crescerem profusa e perigosamente, um pouco por todo o lado. As sociedades estão a ficar cada vez mais intolerantes, a insatisfação social cresce a um ritmo galopante, também porque a política e os políticos não têm sabido corrigir as deformações do sistema, muito injusto, principalmente, para os contribuintes que pagam a crise e sobre os quais muita gente anda pendurada.

A política e os políticos acham que precisam do futebol, por um lado para lhes dar visibilidade e, por outro, porque fazem do futebol ou querem fazer dele uma espécie de recreio das suas azáfamas, mais ou menos parlamentares. Não o levam a sério, porque sempre o olharam como ‘coisa menor’, mas precisam dele e têm medo dele. O futebol não é, portanto, pior do que aquilo que vemos noutras indústrias; é uma extensão das perturbações, das assimetrias, das injustiças e da falta de respeito que os seres humanos nutrem pelos seus (des)iguais.

Com o Mundo cada vez mais exposto e mais violento, muito por força das agressões que se estão a tornar bilaterais, não espanta que o terrorismo se tenha servido do futebol, como desporto muito popular à escala universal, agora em Dortmund, para tornar ainda mais visível e impactante o nível da ameaça. E quando olhamos para as desgraças que se passam no Mundo, e para as inquietações e o nervosismo que se vivem nos Estados Unidos, Coreia do Norte, China e Rússia, não há forma de olhar para as desgraças que minam o futebol como uma pulga na tromba de um elefante.

Há uma vida em Portugal antes de um futebol em Portugal, mas o que se passa hoje, muito por força deste novo fenómeno de futebolização das televisões portuguesas, é que o futebol em Portugal se tornou num superlativo — parece ser mais importante do que tudo o resto —, com um gravíssimo problema: o tempo e o espaço são ocupados por doses massivas de intolerância, ódio, mentira e propaganda.

Tudo isto para diferenciar, em primeiro lugar, o que é e não é responsabilidade do futebol. Em segundo lugar, para acentuar algo que, dentro daquilo que é a realidade do futebol em Portugal, há muito deveria ter sido travado. Por exemplo, as claques.

As claques, que nunca foram solução para nada, tornaram-se num ENORMÍSSIMO problema. É extremamente redutor como ninguém as consegue dominar. Nem o poder político, nem as polícias (por muito que façam, no terreno), nem os clubes. Ninguém. São aliás os próprios clubes que lhes dão ânimo, alimento e suporte. Estamos a falar, nalguns casos, de marginais. Que, por estarem protegidos pelos clubes, pertencem à nova classe dos marginais inimputáveis. Está assim tão doente a democracia que não consegue concertar posições para acabar com esta vergonha para todos nós?

O que aconteceu no recente FC Porto-Benfica, em andebol, com a claque portista dos Superdragões a entoar o cântico "ai quem me dera… que o avião da Chapecoense fosse do Benfica", não apaga o que, no passado, as claques de uma maneira geral já fizeram no universo do desporto português, é a prova de que a estupidez humana não tem limites. Uma claque destas que protagoniza uma situação deste jaez não poderia nunca mais entrar num recinto desportivo. A passividade e a cumplicidade levaram-nos a este ponto de irracionalidade. Os principais culpados não são, todavia, os membros das claques. São todos aqueles que as apoiam. As ‘dívidas de gratidão’ nunca podem ser superiores à dimensão da estupidez e da barbárie. A demarcação, neste caso, é insuficiente. Não se salva a face assim. Fez bem Pinto da Costa em lamentar os ‘tristes acontecimentos’ junto da Chapecoense. E… junto do Benfica?! Seria demasiado, não é verdade? Uma sátira?! O FC Porto merece mais. O FC Porto merece melhor. E também importa perceber por que razão, em 2015, a PSP considerou – no âmbito dos dois subgrupos do NN, no Benfica – que a resolução pacífica do diferendo não será possível. E muito menos em tempo de eleições, digo eu. Que tristeza!

* Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS (1 ESTRELA)

Cartilha e 'cartilheiros'

Depois de denunciada a ‘cartilha’ e os ‘cartilheiros’ tem sido um regabofe o desfile de indignidades na televisão portuguesa. Dos que confirmam a origem da cartilha aos que não confirmam e se contradizem, tudo em nome ou de ‘amizades’ ou de ‘corporações’ ou de ‘confidencialidades’ que é preciso preservar, para o efeito da deflagração não ser ainda mais devastador. Em nome da ‘normalidade’, têm-se dito coisas absurdas e mentirosas: NUNCA esteve em causa um conjunto de informações inócuas, na procura da verdade e do rigor. O que ESTÁ EM CAUSA é o nível da linguagem, a propaganda, a insídia, a quantidade de sentenças, no sentido de desacreditar pessoas e instituições. O que ESTÁ EM CAUSA é a natureza da mensagem e o objectivo do(s) mensageiro(s). E eles aí estão, meio envergonhados, mas ainda assim, teatralmente, orgulhosos, ‘socráticos’ e ufanos…

O CACTO

'Fogo amigo'

Samaris (Benfica) e Edson Farias (Feirense) não foram castigados, sumariamente, por inacção da Comissão de Instrutores da Liga. Como é que querem celeridade e agilização da justiça desportiva se são os seus actores os principais fautores de paralisia no futebol? Neste mandato, a FPF impôs mudanças na Disciplina, muito por força do escândalo que foi o caso Slimani, na época passada. O CD age nesse sentido mas a CI cruza os braços. O que significa que há muito a fazer para a ‘justiça desportiva’ funcionar. E fico contente por saber que já há quem advogue o funcionamento da Arbitragem e da Disciplina fora da FPF/Liga, algo que patrocinamos há muitos anos, quando percebemos o logro em que assenta o sistema. Os clubes aprovam os regulamentos e depois fazem fogo sobre si próprios. Será ‘fogo amigo’?…


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