Presidente da APAF caiu na armadilha

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O terreno do futebol português está todo minado. As minas e armadilhas estão um pouco por todo o lado e, infelizmente, os métodos utilizados para se tentar comprometer os adversários são mais ou menos similares.

São os próprios protagonistas, essencialmente — como se tem observado — dos três maiores clubes do futebol nacional a denunciar o estado em que o nosso futebol se encontra. Ninguém confia em ninguém, ninguém respeita ninguém, e esses protagonistas apenas provam, todos os dias, que o futebol português é muito artificial, cheio de manobras de bastidores, perante as quais as direcções de comunicação — na ânsia de provar as suas razões e sempre com o objectivo de desviar as atenções das suas próprias desconformidades e ‘monstruosidades’ — vêm tendo um papel essencial e amplificador.

A Arbitragem e a Disciplina serão sempre os temas de conversa e de discórdia, porque os responsáveis dos clubes sabem que é aí que se podem gerar as influências e as entorses à Verdade Desportiva. O próprio presidente da FPF não estava confortável com Vítor Pereira/Arbitragem e Herculano Lima/Disciplina e decidiu substituí-los, respectivamente, por José Fontelas Gomes e José Manuel Meirim. A contestação continua, porque há sempre uma parte a achar que não controla a outra parte e essa outra parte a achar que nunca controla o suficiente.

Quem decide ou quem representa sectores vitais no futebol tem de ter cuidados acrescidos com o seu comportamento. O exemplo dos políticos é péssimo, sempre foi, porque cultivam a proximidade com a convicção de que ela terá um efeito para eles positivo (ou em votos ou em mordomias) e houve tempos em que bastava olhar para as tribunas presidenciais dos clubes para alcançar o… mapa da mina. Essa proximidade gera um ‘pequenino problema’: dependência. E quem está dependente, não está em condições de decidir.

Foi isso que o presidente da APAF, Luciano Gonçalves, não alcançou ou quis desprezar e caiu na armadilha. Na sua própria armadilha. Estas armadilhas estão sempre atrás da porta, à espreita e à espera de potenciais vítimas. Luciano Gonçalves é presidente da Mesa da Assembleia Geral do Centro Recreativo de Alcanadas (CRA), que tem cerca de 500 associados. Se fosse apenas presidente da AG do CRA, o pedido que enviou para os serviços do Benfica, a solicitar ‘bilhetes baratos’ para a colectividade, talvez se pudesse enquadrar na função social dos clubes desportivos, embora se esta prática se banalizasse teríamos o movimento associativo a pedir ‘borlas’ ou ‘quase borlas’ a todo o momento. Toda a gente gostaria de ter ‘bilhetes baratos’: para o cinema, para o teatro, para os concertos, para a ópera, etc.

Sabe Luciano Gonçalves — e nestas coisas não cabem ingenuidades — que o futebol em Portugal está soterrado em suspeições, práticas desaconselháveis, etc. E há muita gente que se põe a jeito para se deixar capturar. Luciano Gonçalves é o líder da organização nacional da classe dos árbitros. Os Clubes e a Arbitragem são dois ‘mundos’ diferentes. Que não se podem confundir, nunca. Mas que se confundem. E há, historicamente, uma obsessão pela captura e pelo esvaziamento das estruturas que deveriam pautar-se pela independência. Luciano Gonçalves sabe disso e, de resto, a propósito do seu pedido de aquisição de bilhetes, em condições excepcionais, o diálogo travado, internamente, entre Domingos Soares de Oliveira (DSO) e Paulo Gonçalves (PG), é nesse aspecto bastante revelador: é o próprio DSO a recomendar que "o ideal é que o pedido seja feito por outra pessoa lá da aldeia’.

Quer dizer: o administrador do Benfica é o primeiro a perceber que este pedido não deveria ser feito por Luciano Gonçalves (LG). Simplesmente toda a gente percebe a razão pela qual LG decidiu ser ele a fazer o pedido. É que ‘outra pessoa lá da aldeia’ poderia ver mais facilmente o pedido recusado. É aqui que entra Paulo Gonçalves: "o presidente da APAF não é de confiança total e tem feito alguma oposição em algumas situações do nosso interesse, mas que não é bom tê-lo contra nós pois será testemunha a ser ouvida em processo do nosso interesse".

Quer dizer: segundo PG, o presidente da APAF não está ao serviço do clube, mas não é inimigo e, acima de tudo, pode ser útil ‘num processo do nosso interesse’. Quer dizer: a cedência de bilhetes pode ser uma forma de ter Luciano Gonçalves, não como presidente da AG do Centro Recreativo de Alcanadas mas como presidente da APAF, do lado do Benfica.

Luciano Gonçalves, ao não entender este princípio básico e esta incompatibilidade, deu sinal de que não tem perfil para ser presidente da APAF.

NOTA - Começa a ser relevante perceber como é que as direcções de comunicação têm acesso a informação classificada. Crime ou traição?

JARDIM DAS ESTRELAS

Dimensão táctica do dérbi

Hoje há dérbi. A derrota do FC Porto em Braga mudou o cenário do jogo de Alvalade e coloca o Benfica numa posição excelente para gerir o encontro da forma como mais lhe aprouver, se o Sporting o consentir, claro. Rui Vitória tem a responsabilidade de não desaproveitar esse factor e Jesus sabe que tem de arranjar forma de desestabilizar a organização do Benfica, para poder ter uma palavra importante no desfecho do campeonato. A dimensão táctica do dérbi vai ser um dos aspectos mais interessantes de seguir.

O CACTO

In-go-ver-ná-vel!

Não sei se há essa consciência colectiva mas o futebol português, com as denúncias suscitadas pelas direcções de comunicação dos três principais clubes nacionais — os chamados ‘grandes’ — está ingovernável. Conhecendo a estrutura, os condicionalismos e as fragilidades do edifício da ‘justiça desportiva’ associada ao futebol português, com este nível de participações geradas por Benfica, FC Porto e Sporting, não há forma — nestas condições — de proteger a integridade das competições. A Comissão de Instrutores, por exemplo, reúne as condições necessárias para poder estar vigilante e levantar autos por ‘flagrante delito’, com base em imagens das transmissões televisivas relativas às competições profissionais? Quem faz esse trabalho? Quem o coordena? E o Conselho de Disciplina, perante a profusão de declarações produzidas por muitos dos principais protagonistas no espaço público, através da comunicação social, nas redes sociais e nos canais próprios, reúne condições para tratar todos os actores e situações por igual? Impossível. O futebol português chegou a um ponto alto de desgovernação, do qual provavelmente nunca chegou a sair.

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