Quando Bruno Lage ignora o essencial

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çGosto do trabalho e da postura de Bruno Lage como treinador do Benfica, e disso tenho dado conta publicamente. Isso não invalida, contudo, que não se lhe apontem algumas incongruências.

O futebol evolui, hoje há máquinas de optimização das recuperações físicas e clínicas e outros métodos de reavaliação, mas há coisas que não mudam: um jogador que não se treine, por questões de impedimento clínico e um jogador que não entre em competição continuada e, com ela, adquirir ritmo competitivo, não está em igualdade de condições relativamente a jogadores que se treinem e joguem, em ciclos (mais) continuados.

Quer dizer: um Cervi que jogue regularmente não é igual a um Cervi que não jogue habitualmente. O talento pode ser (e é) a base de tudo, mas se valesse só o talento, os treinos poderiam ser dispensados. O futebol profissional não é isto; é o somatório de diversas valências: talento dos jogadores, trabalho dos treinadores e jogadores e as mais-valias que a estrutura pode acrescentar no trabalho diário e na planificação.

Outro ponto: os jogadores hoje estão mais bem preparados (física e mentalmente) para representarem, cedo, as chamadas equipas principais (há todo um trabalho técnico-táctico de suporte nos escalões mais baixos que facilita o acesso à equipa mais representativa), mas não se pode confundir a Liga dos Campeões com o Campeonato Nacional ou com qualquer uma das competições domésticas, designadamente a Taça de Portugal ou a T aça da Liga.

Em tese, os jogadores devem estar preparados para jogar em qualquer prova perante qualquer adversário, mas na prática não é assim, está muito longe de ser assim. E Bruno Lage tem de saber isso, não pode fazer de conta que não é assim.

A Liga dos Campeões é a prova de maior exigência do futebol europeu. Não é um laboratório onde se devam fazer experiências. Um jogador com 17-18 anos pode estar preparado para entrar na primeira equipa, mas a Champions é a Champions. Não há nenhum estudo, nem recente nem mais antigo, que recomende saltos tão grandes e tão diferenciadores, em matéria de exigência.

É que Bruno Lage não se coibiuem apostar numa mistura altamente perigosa: jogadores pouco experientes (Tomás Tavares e Jota, ainda assim em patamares diferentes) com jogadores pouco rodados e que já tinham saído da ‘equação’ do treinador do Benfica (Fejsa e Cervi).

Quer dizer: Bruno Lage poderia ter arriscado apenas um pouco nesta propensão para se atirar para fora de pé; ao invés, arriscou e muito. Fez como aqueles nadadores que ainda não fizeram muitas ‘piscinas’ em ritmo continuado de ida e volta e, de repente, já se sentem habilitados para atravessar ‘oceanos’. Bruno Lage atirou a equipa do Benfica para fora de pé e ela... ‘afogou-se’. Porque a Champions não é a Taça das Feiras e o RB Leipzig não é o Gil Vicente, com todo o respeito pela equipa de Barcelos.

Sabemos todos que Luís Filipe Vieira tem este sonho do Benfica Europeu. Um Benfica Europeu com maioria de jogadores formados no Seixal.Uma coisa é uma estratégia de valorização dos jogadores formados em casa, equilibrada e racional, com os devidos aproveitamentos nas áreas desportiva e financeira; outra coisa é um fundamentalismo que não tem adesão e razoabilidade, quando (e)levada à prática.

Luís Filipe Vieira devia saber isso e Bruno Lage também. Neste caso, junta-se a fome à vontade de comer — e este fundamentalismo é perigoso. O projeto de aproveitamento de jovens jogadores tem validade e sustentação mas se for excessivo, em vez de levar o Benfica a reaproximar-se da Europa, vai afastá-lo ainda mais. A Champions é demasiado importante no plano desportivo e financeiro e, numa competição em que se usa habitualmente o máximo combustível, o Benfica entrou com fé e uma vela acesa. Resultado: queimou-se!

Parece-me claro que Lage não contava com certos jogadores (Fejsa, Zivkovic, Cervi) e, de repente, ‘toma-os lá"… E parece-me que as aquisições não são reforços, explicando-se assim algum desnorte…

O Benfica precisa de procurar o seu ponto de equilíbrio que, neste momento, manifestamente não tem. A dimensão dos treinadores também se revela quando a exigência aperta. O problema é que, na Luz, parecem mesmo convencidos de que é possível ser-se campeão europeu com 11 jogadores fabricados no Seixal. E isso é uma utopia.

* Texto escrito com a antiga ortografia

 

Hambúrgueres

… "especiais"

 

1. Três jogadores do FC Porto +1 para dois lugares, no ataque: Marega, Zé Luis e Soares +1 (Fábio Silva). Soares mostrou que está ‘young boy’ para a luta e Fábio Silva mostra que tem ‘pinta’. Bom para o FCP.

2. Sá Pinto respira de alívio, com uma boa exibição do SC Braga em Wolverhampton. Ricardo Horta em destaque, num bom trabalho coletivo.

3. V. Guimarães deu força à tese de que não basta ‘jogar bem’ para se ganhar.

4. O Sporting poderia ter saído com outro resultado de Eindhoven, mas há muitos handicaps. Depois de tantas decisões adiadas (exemplo: venda, sim ou não?, de Bruno Fernandes, com custos ao nível da redefinição do plantel), o que falta ao Sporting é trabalho (e menos ruído). Fazer a ‘pré-época’ com a temporada a decorrer, com jogadores a sair de lesões e outros com pouco ritmo devido a ausências, não pode deixar de ter custos. Remar contra esta realidade é muito complicado.

5. Bruno Fernandes também rema contra outra realidade: quando há talento, a qualidade sobressai, mesmo em contextos adversos.

6. Coates: penáltis e autogolos. Mais um jogador com capacidades em (auto)destruição?

7. Otávio marca pontos na luta por um lugar no meio-campo do FC Porto.

8. Cristiano Ronaldo quer encontrar pessoas que lhe deram comida na infância. São hambúrgueres muito especiais. Este rapaz sabe o que é a gratidão.

9. Vítor Baía reagiu ao ‘anúncio’ de Villas-Boas. O FC Porto está vivo.

10. Ontem, Bruno Lage não foi muito simpático para com André Almeida. Se a intenção é ter todos os jogadores disponíveis…

11. O Sporting tem um ponta-de-lança nos sub-23 (Pedro Mendes). Inscreve-o na Liga Europa e não o inscreve na Liga?!!!…

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