Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Quando é que Vieira começa a desparasitação?

çSe a matéria denunciada pelo FC Porto relativa ao alegado favorecimento de árbitros ao Benfica e que se consubstancia na troca de emails entre um fraquíssimo ex-árbitro de primeira categoria e um irresponsável funcionário do tetracampeão nacional corresponder a um facto real – não forjado –, não havendo até agora nenhum sinal de que não seja, e sem nunca relativizar a gravidade de um possível crime informático, estamos perante mais um caso que envergonha não apenas os respectivos protagonistas mas também o futebol português.

O ‘esquema’ parece claro: o director de conteúdos da BTV utiliza a sua exposição pública num canal televisivo de uma estação privada – este ‘dois em um’ suscita, desde logo, muitas dúvidas e interrogações – para, de acordo com aquilo que julga serem os interesses do Benfica, promover e despromover árbitros, enaltecer parceiros e outros alinhados que cabem na mesma agenda (há quem lhe chame cartilha) e desqualificar todos aqueles que se atrevem a não rezar a mesma missa, ou porque são rivais, meros adversários ou porque nas funções de cada qual – pessoas genericamente independentes – não tem de haver alinhamentos ou desalinhamentos, como é o caso da pouca imprensa livre que ainda existe.

A serem verdadeiros, repito, o tom e a letra dos emails são inaceitáveis. Exibem uma sedução de controlo que já tínhamos observado e identificado noutras paragens (e de resto alvo de críticas de todos aqueles que se consideraram lesados, nesses tempos, por essas técnicas de controlo) e uma presunção patológica de um ser que se acha guardião do Benfica – porque lhe dão cobertura para isso – mas que não passa de um aproveitador da força social do grande clube ‘encarnado’.

Várias questões que têm de ser esclarecidas:
1. De que forma o director de comunicação do FC Porto chega a emails trocados supostamente no âmbito da correspondência privada? Há crime neste procedimento?
2. O director de conteúdos da BTV é, como parece, um funcionário do SLB? Isto tem de ficar definitivamente claro e é fácil chegar-se a essa conclusão.
3. O director de conteúdos da BTV e, aparentemente, funcionário do SLB é, para a justiça desportiva, um ‘agente desportivo’? Ponto essencial para se entender tudo o resto. Até agora, tem escapado a essa designação.
4. O director de conteúdos da BTV (assim apresentado até agora) faz parte de uma entidade denominada Benfica TV, SA, detida a 100% pela Benfica SAD, o que significa que a Benfica SAD é a empresa-mãe de um conjunto de empresas - Grupo Benfica SAD.
5. Nestes termos, não se percebe muito bem como é que esta figura (aparentemente associado à Benfica SAD) tem ficado sistematicamente fora do âmbito da justiça desportiva.

A certeza de que o Ministério Público e a Justiça Desportiva vão investigar não tem de ser saudado nem celebrado. É uma obrigação. O futebol português não pode estar entregue há anos neste ‘diz-se, diz-se’, sem consequências e têm de ser tomadas medidas drásticas para a culpa não morrer outra vez solteira. Temos de saber se pode haver tráfico de influências. Se pode haver corrupção. Ou se as acusações são infundadas e, como tal, serem objecto de penalizações. Este recreio e este ‘teatro de misérias’ não podem continuar.

Outro lado da questão é a posição do Benfica. É tempo de Luís Filipe Vieira tomar uma posição sobre o papel de alguns arrivistas que estão a conspurcar a imagem do Benfica. Uma posição ambígua só o descredibiliza. Vieira tem de fazer tudo o que está ao seu alcance para não viver debaixo do anátema de que a hegemonia agora conseguida pelo clube a que preside assenta, para além dos maridos associados, nos mesmos princípios da hegemonia construída pelo FC Porto noutros tempos e que foi objecto – por parte do Benfica – de muitas acusações do género. Com efeito, o presidente Vieira não pode continuar a deixar que certos arrivistas se aproveitem do nome do Benfica, sob pena de ele próprio ser achado como responsável nesta pouca-vergonha em que se transformou o futebol português.

Se abrir janelas e utilizar ex-arquivistas para se arquivarem episódios do passado e fazerem-se deles marionetas manipuladoras corresponder apenas a uma estratégia expansionista à custa de procedimentos menos sérios e aceitáveis, então não vale a pena reclamar transparência e Verdade Desportiva. É que, se for assim, ninguém acredita, e isso é mau para a imagem do presidente e do Benfica. É tempo de se começar o processo de desparasitação. Para que não se apague tudo.

JARDIM DAS ESTRELAS

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EX-ÁRBITROS - A FPF tem de arranjar forma de regular a actividade dos ex-árbitros de futebol. O universo de arbitragem, como se sabe, é muito susceptível de ser atraído para práticas no mínimo discutíveis. Começou a tornar-se ‘normal’ ex-árbitros colaborarem com os clubes, supostamente porque os conhecimentos e a carteira de contactos podem ser úteis em determinados momentos. É uma matéria delicada, mas que precisa de intervenção urgente. E nem sequer me refiro a Adão Mendes. Falo de outros ‘Adões’…

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GELSON - Menos de 60M€ é, de facto, pouco dinheiro.

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PAIXÕES - Bruno Paixão foi o 4.º classificado entre os árbitros de primeira categoria. Há paixões que não se entendem…

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AVISO - S. Conceição deixou o aviso: "Não terei problemas em dizer o que penso." O novo treinador do FC Porto sabe muito bem que, para ser campeão e para além das palavras, precisa de jogadores.

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TITULARES - Boa medida da FPF, embora com aplicação só em 2019-20: as SAD têm de identificar os titulares dos respectivas participações sociais. Um contributo que pode fazer luz sobre a natureza de alguns investimentos/investidores e eventuais ligações com… apostas ilegais.

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