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Rui Santos
Rui Santos

Rui Vitória com vida difícil

Todos percebemos que Rui Vitória era um treinador (bem) sinalizado no Benfica, mesmo quando ainda se encontrava em Guimarães. O Benfica precisava de um treinador especial - mas não exactamente um 'special one' - para arrumar a casa. Com Jesus era difícil. Jesus é um obcecado por resultados e sabe o que é preciso - no plano técnico-desportivo - para chegar a esses resultados. Não admite interferências e tem um lado rude que pode inibir qualquer tentativa de diálogo no sentido de se acharem soluções conjuntas no âmbito da implementação, no caso do Benfica, de um renovado projecto desportivo. Neste sentido, há responsabilidades de parte a parte - e foi o Benfica que ficou a perder.

A falta de diálogo (sobre questões sérias e estruturantes) e o envolvimento de 'segundas e terceiras linhas' no processo minaram a confiança entre Vieira e Jesus e entre Jesus e Vieira. E tudo o que se passou nos últimos meses, ainda antes do Benfica se sagrar bicampeão nacional, foi o acumular de um conjunto de dúvidas, suspeições, meias palavras e algumas mímicas que tiveram o resultado que se conhece: Jesus no Sporting. Jesus acha, e bem, que o sucesso desportivo não está dependente nem de idades nem de nacionalidades. Não deu folga a essa ideia e, com os recursos colocados à disposição, colocou o Benfica a ganhar. E provou que o sucesso financeiro (através de imensas vendas) se pode alcançar desde que haja rendimento e sucesso desportivo. O Benfica quis 'estoirar' com o 'poder excessivo' do treinador, sempre por cima da famigerada 'estrutura', e promoveu um novo ciclo.

Se o poder do antigo técnico era considerado excessivo e se era susceptível de crítica e desconforto internos, não fazia sentido contratar um treinador impositivo, com ideias próprias e que fizesse tudo para as impor. Nesta conformidade, Rui Vitória tinha todas as características necessárias: baixo perfil, 'porreirismo' q.b., disponibilidade para usar discurso institucional e abertura suficiente para ser um braço (mecânico) da estrutura e não para ser 'a' estrutura. O 'puzzle' estava montado. Rui Vitória era a peça que faltava. A peça que faltava para ser, no balneário e no campo, na Luz e no Seixal, a extensão da SAD e dos principais conselheiros de Vieira.

Na apresentação de Rui Vitória, o discurso presidencial não poderia ser mais optimista: o Benfica tinha virado uma página (como se essa página só tivesse borrões de tinta da China), o presidente dizia que "Rui Vitória vai ter as condições que outros tiveram" e o objectivo era… "a conquista do tri". Quer dizer: Vieira e o Benfica requalificaram o projecto sem redefinir os objectivos desportivos, prova da existência de convicção que, apesar das mudanças, elas não seriam suficientes para colocar em causa o estatuto de campeão. Agora é o próprio Vieira a falar de "um ano de transição". Uma coisa é certa: a frouxa exibição do Benfica na Madeira (inqualificável primeira parte) e tudo aquilo que a equipa (não) fez ao longo desta época (perda da Supertaça, três derrotas perante o Sporting, uma das quais a valer eliminação da Taça e 9 derrotas, no total, em 4 meses) provam que Rui Vitória não conseguiu lidar com as diversas questões suscitadas com a dimensão e os problemas (técnico-desportivos) do Benfica. É preciso dizer que o eventual fracasso de Rui Vitória, a concretizar-se, será sempre e acima de tudo o fracasso de Vieira. E por melhor que o projecto seja no papel não há treinador que resista se não apresentar resultados. O Benfica fez um grande esforço para interromper o ciclo vitorioso do FC Porto. Não faria sentido, agora, aceitar uma certa 'sportinguização'.

NOTA - O futebol não está bem, tresanda a corrupção por todos os lados, como é possível descortinar através do processo de limpeza que decorre na FIFA, mas, em Portugal, não vejo mais ninguém preocupado com essa mudança a não ser Bruno de Carvalho - e também compreendo porquê: o sistema de organização de futebol, tal e qual como ele existe, e que é uma extensão das contingências (muitas das quais viciadas ou erradas) em que assenta o futebol-negócio, tem sido mais generoso para uns do que para outros. Nesse sentido, para alguns, a mudança não é nem uma necessidade nem uma oportunidade. É uma traição ao situacionismo que muitos vêm defendendo, mesmo que se façam contas aos prejuízos. Percebo, também, que quem questiona, quem aposta em outros caminhos e quem ousa colocar em causa 'direitos adquiridos' não seja exactamente muito benquisto. Contudo, Bruno de Carvalho está um passo mais à frente em relação à classe dirigente dominante, porque o futebol precisa de uma grande transformação e está escudado em 'certezas' que perderam valor há pelo menos 15-20 anos. Como a questão da arbitragem e da introdução da figura do vídeo-árbitro. Quanto mais tempo é preciso fazer mal ao futebol para se iniciar o tempo de refundação?

BOAS FESTAS!

Texto escrito com a antiga ortografia

JARDIM DAS ESTRELAS
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Sp. Braga-Sporting - hino ao futebol
Finalmente, tivemos em Portugal um jogo de encher todas as medidas. Um hino ao futebol. Duas equipas preparadas para fazer um grande jogo, fizeram um grande jogo. Tinha afirmado que só um grande Braga conseguiria vencer o Sporting. E só um grande Sporting poderia eliminar o Braga. Na verdade, pela aplicação, pela qualidade, pela intensidade, as duas equipas fizeram tudo para merecer continuar na prova. O Sp. Braga e Paulo Fonseca merecem um fortíssimo elogio, mas o Sporting também. Foi pena que a arbitragem não tivesse sido 'limpinha'. Mas valha a verdade, em abono do trabalho de um árbitro promissor mas ainda pouco rodado (Fábio Veríssimo), que só um vídeo-árbitro poderia evitar dois erros graves. E, com vídeo-árbitro, o Sporting não teria sido eliminado da Taça de Portugal. 
O CACTO
Liderar e… enrolar
O despedimento (afável) de Mourinho foi o acontecimento da semana e o balneário do Chelsea tinha de estar mesmo num ponto absoluto de ruptura para uma decisão deste tipo. Mourinho com culpas no cartório? Sem dúvida. Ser líder significa muitas vezes 'excessos de liderança'. Foram 'excessos de liderança' que fizeram Mourinho passar momentos difíceis em Madrid e Londres.
Em contraste, 'défice de liderança' é o que se assiste, com Pedro Proença, na Liga. Cada vez mais me convenço que, neste sistema, as pessoas indicadas para a FPF e Liga são aquelas que… não decidem. Enrolam.

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