Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Rui Vitória no pino da confusão

É sempre assim. Todos os treinadores têm os seus ciclos. Uns mais duradouramente vitoriosos e outros menos. Depende de muitos factores.

De que dependem os treinadores? Dependem da capacidade económico-financeira dos clubes para os quais trabalham. Dependem da qualidade dos jogadores. Dependem da natureza da intervenção dos presidentes e dirigentes que os rodeiam e os (não) suportam. Dependem das organizações que os (não) sustentam. E dependem, naturalmente, de si próprios: da capacidade de liderança (ou seja, da perícia de fazer acontecer), das decisões que tomam, da forma como comunicam e daquilo que é a sua apetência para perceberem o mundo global do futebol, independentemente dos seus conhecimentos na área técnico-desportiva.

Rui Vitória atravessa a sua fase mais difícil desde que chegou à Luz – e tudo porque não começou bem a época, sendo neste momento o último dos três ‘grandes’ no campeonato e a protagonizar uma situação impensável no momento do sorteio para a presente edição da Champions, correspondente a zero pontos na fase de grupos, com 5 dos 6 jogos realizados. Impensável, mesmo!

Bem se sabe que Rui Vitória entrou na Luz para corporizar a antítese de Jorge Jesus. Talvez não fosse esse o espírito de Rui Vitória, conhecido por ser um homem de ‘bons fígados’, mas sabe muito bem que muitos apostavam nele para ser uma espécie de treinador profano, assim a modos de um anti-Jesus.

Todavia, estavam na Luz seis anos de dinâmicas, rotinas, metodologias, relações e hábitos. E Rui Vitória, naturalmente, numa primeira fase, teve muitas dificuldades em montar o seu próprio sistema. Não estamos apenas a falar de sistema táctico. Estamos a falar de um ‘padrão Vitória’. De um Benfica ‘à Vitória’. O Benfica foi campeão e bicampeão com ele, mas em nenhum momento ficou indiscutível aos olhos de toda a gente, nem interna nem externamente, a imposição da impressão digital do treinador. Ficou acima de tudo a imagem de um gestor. Um gestor de equilíbrios e sensibilidades e o gestor técnico-desportivo de um projecto que Vieira e a sua Administração queriam impor no Benfica: com a ‘componente Seixal’ a liderar no critério de escolha dos jogadores.

Rui Vitória foi, pois, desde que chegou à Luz, um treinador condicionado. A dimensão da oportunidade sobrepôs-se a todas as condicionantes e Rui Vitória sabia ao que ia e não tinha de se queixar. Aceitou correr os riscos e a verdade é que, neste momento, na óptica pessoal, ninguém pode dizer que se tratou de uma opção errada. Contudo, no começo da sua terceira época na Luz houve coisas que Rui Vitória não soube nem podia controlar, porque fora esse, aliás, o pacto que havia assinado com o presidente e a Administração: não é, no limite, Luís Filipe Vieira que faz a equipa, mas é ele que condiciona as escolhas da equipa, se é que me faço entender. E nunca tinha sido assim, como se sabe, nos últimos 8 anos…

Os dois títulos de campeão nacional conquistados com Rui Vitória adensaram junto do presidente e da Administração a convicção de que a hegemonia do Benfica estava reconquistada e controlada. Sob o comando do presidente e da Administração, num novo modelo em que o treinador era apenas uma peça secundária de todo o modus operandi do Benfica. E foi assim que se cometeram erros inacreditáveis para quem se gaba de ter uma estrutura operativa, competente e superprofissional.

O plantel do Benfica é hoje uma manta de retalhos, a partir da não resolução do problema que constituiu a saída de Ederson, Nélson Semedo, Lindelöf e Mitroglou, fundamentalmente. O Benfica tem andado, esta época, a correr debaixo do peso desse enorme equívoco. E a correr pouco, como se viu em Moscovo. Os jogadores estão sem confiança e é preciso dizer que, em cima do erro colossal da Administração (provavelmente mais preocupada e desconcentrada em função da dimensão que ganhou o ‘caso dos emails’), Rui Vitória tem feito muito para roubar a confiança dos jogadores (a partir do caso dos guarda-redes). Alternância de sistema táctico, um corrupio de jogadores a entrar e a sair, tudo o que – é dos livros – condiciona o rendimento dos jogadores. Ou se tem uma atitude de alguma exigência ou pressão sobre a equipa (e, para isso, ela tem de acreditar naquilo que se faz…), como acontece com Sérgio Conceição no FC Porto e com Jorge Jesus, no Sporting, ou é meio caminho para o desastre.

Não é estranho que não haja um jogador do plantel do Benfica que esteja no top das suas capacidades? Rui Vitória atingiu o pino da confusão e da indefinição. O buraco na Champions é maior e irreparável porque, cá em casa, é como se sabe. Tudo um pouco mais brando. Menos no Dragão. E é no Dragão que o Benfica vai… ‘viver ou morrer’.

* Texto escrito com a antiga ortografia


JARDIM DAS ESTRELAS -- 4 estrelas

Contrariando
o desastre

O treinador Jorge Jesus e a equipa de futebol são a última esperança do Sporting, esta época. Com uma comunicação desenfreada, sem rei nem roque, e agora já sem a ‘protecção’ de Octávio Machado, Jorge Jesus e os jogadores estão cada vez mais entregues a si próprios e à capacidade de blindar o balneário a interferências desestabilizadoras. Não é fácil, mas já se pode dizer, incluindo o desempenho frente ao Olympiakos, que a equipa deu uma excelente resposta na Champions. O ‘milagre’ maior que Jesus tem de fazer é conseguir resultados desportivos com o presidente a marcar tantos golos na própria baliza — um fenómeno desastroso de ‘comunicação’.
Destaque, também, para o Sp. Braga: grande maturidade no jogo com o Hoffenheim (que tudo fez para vencer!) e um belo desempenho na Liga Europa. Chapeau!


O CACTO -- Quem quer a cabeça de Fontelas?

Esta estória em redor da paralisação dos árbitros, das condições que têm ou não têm para arbitrar debaixo deste clima insustentável de suspeição, esconde a questão essencial: todos querem controlar o presidente do Conselho de Arbitragem. Tê-lo na mão. Dirigir as nomeações, nem que seja por mera sugestão. É uma função difícil, porque há muitos interesses em jogo e os clubes — já se viu — têm as suas preferências. Os árbitros estão ‘marcados’. Uns querem tê-los; outros não querem. Começou cedo a tentativa de decapitação, neste caso de Fontelas Gomes. Com os ataques ao VAR. Com a forma como se tem pretendido influenciar os árbitros neste processo de pré-paralisação, até com SMS de ex-árbitros… Foi exactamente por isto que sempre defendi que um ex-árbitro nunca poderia ser presidente da Liga.




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