Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Santos no caminho do microfone?

A Selecção Nacional morreu e ressuscitou três vezes, depois de ter entrado em estado comatoso logo que o Europeu começou, depois de ter propagandeado aos quatro ventos uma saúde extraordinária, e tem hoje 90 ou 120 minutos para provar que aquela passagem pelos ‘cuidados intensivos’ era apenas um teste à capacidade de sofrimento e à heróica resistência dos nossos combatentes.

Acabaram-se os testes, as aventuras, as concessões, os romantismos, a calma, a paciência e a tolerância. E também já chega de ‘brincar aos médicos’. Agora, quem não matar, nem tem direito a ficar ferido, morre mesmo. Depois do mau comportamento da fase de grupos — Portugal havia calhado no grupo reconhecidamente mais acessível da fase final —, chegou a hora ou da afirmação ou da negação.

O seleccionador nacional é quem está, neste momento, mais exposto. Fernando Santos cumpriu irrepreensivelmente bem, como tenho salientado, o seu papel no pós-bentismo. Desfez-se dos vetos anteriores, abriu a Selecção a todos, recuperou alguns jogadores e o ambiente tornou-se respirável. 20 valores por isso.

Santos livrou-se de alguns dogmas e assumiu esta fase da sua carreira com indiscutível desportivismo, até nos seus regulares contactos com a imprensa. Mais afável, mais aberto, mais colaborante, mais solto. Contudo, vem revelando alguma dificuldade em perceber, durante o Europeu, que o seu meio-campo preferido (com Moutinho e André Gomes) não funciona. E está na altura de perceber. Ou fá-lo hoje, ou corre o risco de seguir o mesmo caminho do microfone: ser ‘atirado ao lago’ pela opinião pública portuguesa.

Adrien e Renato Sanches reclamam presença naquele meio-campo. Adrien porque está em condições de realizar aquilo que Moutinho não está apto a fazer, neste momento (correr muito, pressionar, organizar); Renato Sanches porque tem pulmão, músculo e irreverência, tudo o que André Gomes esgotou no jogo de estreia. E é tempo de se dizer que Rafa, pela velocidade, pelo repentismo e por ser um jogador que também defende quando é necessário, merece ser mais utilizado…

Não há margem de manobra. Fernando Santos está em exame. Ser eliminado nos ‘oitavos’, mesmo por uma boa equipa como é a Croácia, equivale a um falhanço. E, perante a hipótese de um falhanço, não há outra alternativa senão escolher os melhores. A pior coisa que pode acontecer numa Selecção Nacional, até em razão de antecedentes, é não se perceber por que razão os melhores (a esse conceito, num final de época, deve estar associada a avaliação física e clínica) não jogam. A Selecção Nacional tem de privilegiar os interesses desportivos. Mas já se percebeu que essa é uma tarefa não apenas difícil, mas imensamente desgastante para quem a queira protagonizar. Aproveitar-se o Europeu para se tentar valorizar certos jogadores em detrimento de outros não faz parte das competências do seleccionador. E Fernando Santos tem de saber defender-se dessa ideia que, pela generalização, se pode tornar perigosa.

Os melhores e os mais bem preparados no ‘onze’ é no mínimo o que se deve exigir. Sem clubismos nem intermediações.

CASO DO MICROFONE

A imprensa tem um papel fundamental e determinante no funcionamento das democracias, mas nem a imprensa deve aceitar ser dominada por todo um conjunto de interesses que a rodeiam, sejam eles políticos, económicos ou outros, nem ultrapassar os limites que a lei lhe confere, transformando o direito de informar em algo que se aproxima mais de um certo voyeurismo pseudo-intelectual, a partir do qual tudo parece legítimo, nessa procura insaciável de ‘estar em cima do acontecimento’, nem que seja no momento em que um bebé esteja a dar, numa situação limite, o seu último suspiro. Não vale tudo, não pode valer tudo, numa sociedade já ela própria dominada, vigiada e perseguida por exércitos de ‘big brothers’. Sempre houve e continuarão a existir choques de interesses, e isso não tem problema algum, mas os poderes, sejam eles quais forem, têm de ser regulados para se evitarem os excessos e os abusos.

Sempre fui contra a tendência de uma ‘certa imprensa’, que é frágil e dependente de outros poderes, designadamente os ‘futebolísticos’, alienando a sua função de contra-poder, mas — sem ser este o caso vertente — preocupam-me os sinais que emanam por aí, quando os ‘critérios editoriais’ são misturados com simpatias ou antipatias pessoais, porque esse é o princípio que acolhe o révanchismo, a persecução e, afinal, um certo camuflado compadrio.

A imprensa só tem um papel nobre se os seus responsáveis tiverem a nobreza de serem fortes: nem permissivos, nem voyeuristas, nem carrascos. Quem não cumpre estes pressupostos não está a defender a existência de uma imprensa livre e responsável.

Nenhum destes princípios gerais, contudo, me afastam da gravidade que encerrou o ‘caso do microfone’: o acto perpetrado pelo ‘capitão’ da Selecção de Portugal serviu para se fazer humor, dando asas à imaginação de muita gente; serviu também para condenar "um certo tipo de jornalismo", mas é preocupante ter sido interpretado como um gesto banal e algo que já deveria ter acontecido há muito tempo.

Da FPF, como se esperava, nem um ai. Uma instituição de utilidade pública, que usa a bandeira de Portugal e beneficia da simpatia regular do poder político, como se volta a ver neste Euro, tem motivos para se preocupar? Claro que não. Siga a banda, porque já nada é achado como anormal. Tudo se consente… em nome dos mais altos interesses da Pátria. Estamos mesmo sob o signo do empate.

Jardim das estrelas - Formato do Euro é para esquecer

Antes do pontapé de saída deste Euro’2016, escrevi no Record que poderíamos ser confrontados com "um dos Europeus mais fracos de sempre". Concluída que está a fase de grupos e no dia do arranque dos ‘oitavos’, a previsão não parece descabida. É evidente que os jogos a eliminar vão ter outra tensão e momentos de tudo ou nada, o que promete aumentar o nível do espectáculo, mas a primeira fase da competição foi dominada por jogos quase todos muito pouco interessantes e não é por acaso que o Euro’2016, nas 36 partidas já efectuadas, é o torneio com a pior média de golos de sempre. Esta realidade deve-se a pouco risco, tácticas conservadoras e ao actual formato (pouco) competitivo do Campeonato da Europa, que é mesmo para esquecer. Dar visibilidade e oportunidade a outros países e selecções tem objectivos claros, mas a perda de qualidade é latente e pode ter, a prazo, um efeito negativo. As fases de qualificação já são desinteressantes (as selecções mais fortes não sentem a necessidade de se empenhar tanto…) e resultam do facto da UEFA querer arranjar uma almofada para que as competições inter-clubes mantenham – aí sim… – maior intensidade; as fases finais arriscam-se a perder muito do seu encanto. Este formato das 24 equipas é para esquecer.

O CACTO - Muito feio

Foi feio, muito feio, aquele final de jogo do Hungria-Portugal. Os jogadores da Hungria a trocar a bola, agarrados ao empate e ao primeiro lugar: os de Portugal a não tentar recuperá-la, agarrados ao empate, à qualificação e ao terceiro lugar. Fernando Santos terá pensado: quem sofre três, sofre quatro (se a Hungria estivesse pelos ajustes) e, portanto, vamos pelo seguro… Mas, sendo isso uma verdade, não deixa de ser redutor ver uma Selecção com a ambição (declarada) de ser campeã da Europa a meter o rabinho entre as pernas…

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