Pressão alta

Rui Santos
Rui Santos

Se não rezas és um alvo a abater

Permitam-me uma nota pessoal e profissional que servirá para enquadrar o artigo desta semana. Completei ontem 42 (!) anos a escrever quase sempre sobre futebol na imprensa desportiva. Até a mim me parece impossível, com memórias tão vivas e tão próximas, mas é mesmo assim: o tempo voa e, na vida, há um momento juvenil em que ela nos parece uma maratona, mas na verdade não passa de um sprint, entre vales e montanhas. Não há motivo para valorização excessiva, mas o facto é que, nestes 42 anos, nunca parei de escrever, apenas curtas pausas, em férias. Poderia tê-lo feito e impor a mim próprio uma paragem, depois de tantos anos sobre o terreno, a conhecer o futebol por dentro e por fora, e os seus protagonistas, muitas vezes em choque com as deformações da bola indígena, através das experiências e das realidades comparativas que ia recolhendo fora de portas, mas nunca o quis fazer, talvez por paixão, talvez por convicção, talvez por me ter habituado desde muito cedo a uma visão crítica e continuada em relação a tudo aquilo que entendia ser prejudicial ao nosso futebol.

Não vale muito a pena olhar para trás, para os quilómetros calcorreados, para as sapatilhas rotas e desgastadas, mas, quando o faço – e a data de ontem proporcionou esse estado momentâneo de alguma introspecção –, reparo que muita coisa mudou. Umas coisas para melhor (o crescimento das infraestruturas desportivas, depois de décadas de subdesenvolvimento, foi brutal); outras coisas para muito pior. E uma coisa que nunca mudou, talvez a mais importante, mesmo com a natural, ainda que pequena, renovação de quadros, foi a mentalidade que grassa no dirigismo desportivo: sempre retrógrada, sempre pequena, sempre intolerante, sempre prepotente, sempre anti-democrática.

Comecei a escrever dois anos depois do ‘25 de Abril’, portanto já em democracia, mas os meus ‘professores’, os meus extraordinários ‘professores’, foram homens que, numa grande parte das suas carreiras, tiveram que saber driblar a ditadura e a censura. E também por isso sempre tiveram o meu profundo respeito, porque não há nada pior e mais aviltante do que a palavra sequestrada nas masmorras da prepotência.

O contacto com os jogadores, os treinadores e mesmo com os dirigentes era feito de uma forma directa, com conflitos, mas com respeito pela tarefa de cada qual; havia um código de conduta entre jornalistas e agentes desportivos, o que era privado ficava na esfera privada, e era assim que se compreendia melhor os pequenos-grandes mundos das pessoas ligadas ao futebol. Neste aspecto, tudo mudou para muito pior e, agora, vive-se o tempo mais abjecto que alguma vez conheci, um tempo de artificialidades e teatralidades, para o que muito contribui a utilização que as pessoas e os clubes fazem da internet e a chegada recente ao futebol destes novos guardiões das realidades construídas e propagandeadas até à exaustão chamados ‘directores de comunicação’. Não tenho nada contra eles, atenção, no sentido do cumprimento das funções naturais que lhes deveriam estar confinadas, mas eles são estimulados a sobrepor-se a toda a gente, a treinadores e até a presidentes (o que só demonstra as suas fragilidades), e também ao mundo externo que os rodeia, tentando CONTROLAR tudo e todos, sobretudo aqueles que ainda têm alguma capacidade decisória (não instrumentalizada). Isto bateu no fundo, o futebol português transformou-se num gigantesco teatro de marionetas e vejo poucos a lutarem contra isto, a não ser se o que estiver em causa é a defesa do torrão, da mordomia, da facção ou de um interesse específico qualquer.

Senti sempre, década após década, uma grande dificuldade em se lidar com a liberdade de pensamento. E, por isso, tive problemas, nas décadas de 80 e 90, e já neste novo milénio, aumentou o poder da sedução pelo pensamento controlado e capturado; os problemas continuaram.

Em Portugal, chegámos a este ponto: ou rezas ou és um alvo a abater. Preocupante e inaceitável. Preocupante e inaceitável, porque não se pode – ao mesmo tempo – fazer a apologia da tolerância democrática, da grandiloquência, do respeito institucional, da crítica sobre práticas do passado, da internacionalização da marca em contraponto com as novelas internas de faca e alguidar e, depois, permitir que gente patrocinada ande no espaço público, nos blogues e nas televisões, em acções concertadas, a semear o ódio, a mentira, numa clara tentativa de calar as vozes mais incómodas. Este não é o caminho. Não podemos deixar fuzilar a liberdade.

NOTA – No ‘caso Janela’, gostei de ver a defesa de Jorge Barbosa e Sérgio Krithinas, aqui no Record, mas – também por isso – espero que os visados não deixem cair o assunto e se mobilizem até às últimas consequências. Só assim sairão ‘limpos’ deste miserável processo.
* Texto escrito com a antiga ortografia


JARDIM DAS ESTRELAS - 3 estrelas

Rui Vitória
não se escondeu

Na véspera da visita a Braga (uma ‘final’ para o Benfica, no sentido de não descolar da luta pelo título), Rui Vitória não se escondeu e respondeu a Sérgio Conceição (SC). Fez bem. Fê-lo ao seu estilo (sem deixar de dizer que "nunca pedi a ninguém para me colocar aqui ou ali", ui!), com equilíbrio e "sem ultrapassar determinados limites", mas não se furtou a uma resposta. No âmbito do despique, toda a gente identificou a mensagem do treinador do FC Porto. Uma mensagem que conteve o excesso do "boneco", no qual a maioria se focou. O excesso de linguagem foi reparado por SC, e bem, mas a mensagem ficou. E a mensagem foi impressiva, no tempo em que o futebol português tem promovido e consagrado as marionetas. E esse é o único debate que verdadeiramente interessa.


O CACTO 

Centeno
e os bilhetes

Esta estória do pedido de bilhetes para ‘ir à bola’ faz parte da mentalidade que sempre existiu no futebol em Portugal. Sempre critiquei a promiscuidade entre futebol e política, a Norte e a Sul, e sempre chamei a atenção para os excessos. Os políticos, de uma maneira geral, olham para o futebol como uma espécie de recreio, de ‘casa das bonecas’, onde gostam de ir para desanuviar e porque acham que é a melhor plataforma para se atingir o estatuto de uma certa popularidade. É feio e é perigoso. Os clubes pelam-se por apanhar os governantes nas suas tribunas presidenciais, porque acham que, assim, estão mais defendidos. No caso de Centeno, as explicações não colhem e o argumento da segurança é ‘curtíssimo’. Veremos o que dão as investigações da PJ em relação ao caso da isenção do IMI.



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