Ser simpático não é ser corrupto

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Ponto prévio: estou em oposição, genericamente, à tendência funcional da máquina jurídico-administrativa que faz parte ou rodeia o futebol, porque é ela e as suas branduras que estão na base dos excessos cometidos por muitos agentes desportivos, a conduzirem o futebol em Portugal a esta visão de ‘paraíso do inferno’, no qual ardem, sem grandes preocupações, as mais variadas formas de pressão e coacção, encapotadas por declarações de ocasião, pouco convincentes, mas em todo o caso ‘protegidas’ pela lei.

É a partir desta tendência que tudo se desenvolve e não se pode achar que ela é despicienda. Em Inglaterra, por exemplo, há uma tendência funcional para se castigar todo o tipo de acções ou comportamentos que coloquem a causa não apenas o valor supremo da Verdade Desportiva mas também a ética desportiva. Os ingleses debateram-se durante anos com problemas sérios de hooliganismo e outro tipo de ‘violências’, mas souberam actuar, numa exemplar concertação entre o poder político e o sistema de organização do futebol, transformando um problema crónico em manifestações pontuais e rapidamente resolvidas. Da mesma forma, treinadores e jogadores sabem que não se podem exceder. Nem em actos nem em palavras. Sabem que, ao fazê-lo, são duramente castigados. E promovem uma corrente positiva em nome do futebol negócio — com clara repercussão nas receitas. Aqui, todos pensam que são auto-suficientes e que não precisam de ninguém. Está tudo errado: o comportamento dos dirigentes, a falta de respeito e diálogo institucionais, a falta de força da FPF e da Liga para impor um regime mais espartano e mais rigoroso perante tantos atropelos e para fazer da nossa competição principal um acontecimento mais interessante e mais participado, o que manifestamente não acontece. Há um ou outro avanço, mas subjaz a tal tendência funcional que age tardiamente ou age parcimoniosamente, com medo dos efeitos de decisões mais corajosas e intrusivas.

No chamado ‘caso dos vouchers’, não obstante o que se discute na arquitectação das peças jurídicas, o que aconteceu, verdadeiramente, em termos acessíveis a todos? Houve, primeiro, uma clara aposta do Benfica e do seu Marketing numa política de inclusão e não de exclusão, depois de se ter chegado à conclusão de que a dinâmica de conflito anteriormente adoptada (sobretudo com o FC Porto) não produzira quaisquer resultados. O ‘kit Eusébio’ começou a ser distribuído na época de 2013-14, a primeira temporada a colocar ponto final no ciclo amplamente vitorioso do FC Porto. Em 2013/14, 2014/15 e 2015/16 o Benfica sagrou-se, sempre, campeão nacional. É possível imputar estes factos a benefícios objectivos resultantes de contrapartidas dadas por delegados da Liga, árbitros, árbitros-assistentes, quartos árbitros e observadores? De outro modo: esses agentes desportivos sentiam-se ‘obrigados’ a corresponder à simpatia do Benfica? No fundo, qual a intenção que o Benfica percepcionou quando, em 2013/14 e 2014/15, decidiu distribuir 602 kits, com um custo total de 17 000€, como consta deste acórdão do TAD?…

Seria muito redutor concluir que o Benfica, foi, todavia, tricampeão nacional por causa dos ‘vouchers’. Seria, aliás, um disparate. Quando, em Outubro de 2015, Bruno de Carvalho fez detonar a ‘bomba’ num estúdio de televisão, o presidente do Sporting sabia que ia gerar ondas de choque, mas não cabiam nos seus raciocínios acusações de corrupção. Aliás, esse argumento é referido no acórdão, uma vez que — em entrevista ao ‘Expresso’, uns dias depois da detonação da ‘bomba’ — foi o próprio Bruno de Carvalho quem excluiu a hipótese de corrupção, afirmando até não achar que aquelas ofertas pudessem condicionar o trabalho dos árbitros. Todavia, no processo, a recorrente Sporting SAD argumenta que "o ilícito previsto no art. 62 do RD [corrupção da equipa de arbitragem] encontra-se assim consumado com a oferta de presentes que, não sendo enquadráveis como meras cortesias, configurem, pela sua natureza e contexto, uma solicitação pelo menos tácita de uma actuação parcial e atentatória do desenvolvimento regular de jogos integrados nas competições desportivas".

Não me parece que isto seja igual àquilo que o presidente do Sporting disse, no espaço público, o que prova uma certa inconsistência e até dúvidas na consubstanciação da tese leonina.

Em síntese: este ‘caso dos vouchers’ inscreve-se no âmbito das estratégias de marketing e comunicação de Sporting e Benfica. Sporting a agarrar-se a tudo o que pudesse para mostrar capacidade de intervenção e destemor em relação aos adversários; Benfica na procura da melhor postura de ‘relacionamento institucional’, sobretudo mas não apenas com o sector da arbitragem. Simpatia não é corrupção — talvez a principal conclusão que se pode tirar deste processo.

* Texto escrito com a antiga ortografia



JARDIM DAS ESTRELAS -- 4 estrelas

As flores do Jardim

Mesmo considerando que o City não tem ponta por onde se lhe pegue (um caso evidente de má gestão de recursos), a figura da semana foi indiscutivelmente Leonardo Jardim. O treinador anti-ruído, o treinador da serenidade, o treinador do trabalho, que assim vai fazendo umas… flores, agora no Monaco. Chapeau!

O CACTO

Uma triste realidade

Em Portugal há uma especial aversão ao cumprimento integral das funções a que cada qual está incumbido. Um exemplo simples e que os leitores - estou certo - compreenderão, relacionado com os deputados (não todos), os presidentes de Câmara (alguns) e titulares de cargos ‘sensíveis’ que apelam, mais do que outros, a uma certa reserva para não perderem a face. Já sabemos todos que o princípio da autonomia do movimento associativo, que protege o futebol da intervenção do Estado, só dá resposta a questões de lana-caprina e às básicas funcionalidades. Há, contudo, um vasto leque de questões associadas a comportamento dos agentes desportivos, algumas das quais fautoras de violências várias, que se esgotam na discussão pública sem produzir um efeito reparador, época após época. A classe política perde, totalmente, a capacidade de intervenção (no limite e só para circunstâncias especiais) porque, no intervalo dos momentos em que deveria intervir, perde a face ou nas idas aos canais televisivos dos respectivos clubes dos quais se confessam apaniguados ou na cumplicidade que estabelecem com as figuras de proa desses clubes, ou porque lhes faz bem ao ego ou por julgarem que essas aproximações têm uma correspondência em número de votos, no momento das eleições. Pobre, muito pobre! O que se pode esperar de um País assim, ainda por cima dominado e aprisionado, durante anos, pelos Donos Disto Tudo?...





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