Rui Santos

Rui Santos
Rui Santos

Só será um sucesso se vencermos a França

Qualquer equipa que consegue o apuramento para disputar a final de um Campeonato da Europa de futebol merece reconhecimento e elogio.

Portugal merece esse reconhecimento e esse elogio. A comitiva que está em França, toda ela mas principalmente os jogadores e o seleccionador, são credores da simpatia dos portugueses. É a primeira vez que, na categoria de seniores, ao mais alto nível, Portugal consegue, fora de portas, a qualificação para a final de um Europeu e a isso corresponde uma marca histórica inapagável.

Não exageremos.

Eu explico. Quando andei, durante cerca de 13 anos da minha carreira profissional, um pouco por todo o lado, atrás das Selecções Nacionais (jogadores com idades compreendidas entre os 15 e os 21 anos), o que me permitiu acompanhar a gestação, o nascimento, o baptismo, a adolescência e, depois, a emancipação da chamada ‘geração de ouro’ do futebol português, cujo ponto alto foi a conquista dos únicos (dois) títulos de campeão do Mundo que o futebol português, a nível de Selecções, tem assinalados no seu currículo, uma das primeiras coisas que escrevi, em jeito de rescaldo, não foi a celebração, a dimensão do entusiasmo ou o elogio pelo elogio, mas a mensagem segundo a qual havia muita coisa para fazer, a nível interno, para o futebol nacional poder competir a prazo com as selecções mais fortes.

Passaram-se 25 anos e muita coisa está diferente. As condições reunidas à volta da Selecção Nacional não poderiam ser melhores. Não há desculpas para nada e, por isso, a exigência não deve ser pequena nem média. Deve ser grande.

Por isso, o fraco começo de Portugal neste Europeu, aliás agora já reconhecido por alguns jogadores, nomeadamente por Cristiano Ronaldo, gerou alguma insatisfação e algumas críticas, algumas das quais excessivas, essas publicadas na imprensa internacional. Indiscutível: naqueles primeiros três jogos, o nível alcançado foi muito baixo, e, perante adversários inferiores, mesmo considerando a ‘gracinha’ da erupção do ‘vulcão’ Islândia, Portugal estava obrigado a um registo futebolístico incomparavelmente maior. Três pontos de três empates chegaram para seguir em frente, mas só chegaram porque o formato da competição assim o consente.

Apesar de estarmos todos irmanados no desejo de ver Portugal sagrar-se campeão da Europa, amanhã, a verdade é que, no plano da análise, não podemos escamotear que a Selecção Nacional beneficiou de uma conjuntura extraordinariamente favorável, quiçá irrepetível: uma fase de grupos com adversários acessíveis (seria impossível escolher melhor); não apanhar até à final nenhuma das mais fortes selecções europeias (Alemanha, Espanha, Itália, França), o que nunca tinha acontecido desde 2000; apanhar nas meias-finais um estreante amputado da sua segunda maior figura (Ramsey, País de Gales), tudo em cima de uma competição alargada e num regime de apuramento facilitado, o que nunca havia acontecido na história da UEFA.

Não consigo ver de outra maneira: este Campeonato da Europa para Portugal começa e acaba amanhã. Até agora, tirando o caso da Croácia, que nos colocou sérios problemas, este Europeu ainda não nos pôs verdadeiramente à prova. Tem sido uma brincadeira, com a ajuda dos astros. A França também beneficiou de uma fase de grupos pouco exigente. Mas apanhou a Alemanha na meia-final. A Espanha cai aos pés da Itália, que por sua vez cede perante a Alemanha. Quer dizer: Portugal viu os ‘tubarões’ darem cabo uns dos outros e assistiu de longe à ‘chacina’. Uma conjuntura, de facto, única.

Resumo da matéria dada:

– França, a principal favorita. Está na final.

– Se Portugal passasse os ‘oitavos’ (com a Croácia), estaria provavelmente na final. Aconteceu.

– Levar ponta-de-lança: ou André Silva (também para libertar Ronaldo) ou ninguém. A prova deu-me razão: Éder praticamente inútil (até hoje).

– Moutinho e André Gomes em baixa de forma. Deviam dar lugar a Adrien e Renato Sanches. Cumpriu-se.

– Renato Sanches titular: Portugal melhorou com a entrada no onze do ex-benfiquista. Indiscutível.

– Meio-campo com base no ‘miolo’ do Sporting + Renato Sanches. Portugal passou a carburar melhor.

– Cristiano Ronaldo integrado no colectivo. Foi quando Portugal se mostrou mais forte.

Vencer a França, em casa, na final do Europeu, é um grande desafio. Mas ganhá-lo é a única forma de podermos afirmar que não passámos ao lado de uma grande oportunidade.

JARDIM DAS ESTRELAS: *****

Ronaldo nas alturas
Aquela primeira parte frente ao País de Gales foi do mais enfadonho que vimos durante o Europeu. Portugal de bata branca, metido no laboratório, concentrado nas suas cirurgias e na descoberta das fórmulas de uma espécie de ‘futebol quântico’. Fechar os espaços, controlar a ‘emoção’ nas transições, risco zero. Não estamos habituados a ver um Portugal carrancudo, com cara de Fernando Santos, incapaz de fazer aquecer o sangue das veias. A verdade é que, na segunda parte, zás, pás, bola parada, Cristiano apanha o elevador do seu mágico poder de elevação e, pumba, bola lá dentro. Que salto, que gesto técnico magnífico, que momento – este, sim, a merecer todos os encómios. Portugal na sala de operações (de bata branca), concentrado, metido em rigores, com total eficácia. Ronaldo nas alturas e os portugueses também.

O CACTO

Fórmula de sucesso?
A UEFA quer convencer-se e convencer-nos de que este Europeu, com 24 equipas, foi um sucesso e já anunciou a repetição da mesma ‘fórmula’ na próxima edição. É mau. Muitos jogos com pouco interesse. Verdade que os estreantes Islândia e País de Gales deram colorido à prova. Os adeptos islandeses foram uma revelação. Tem de se fazer alguma coisa para se exigir mais na fase de grupos. O acesso aos ‘oitavos’ está muito facilitado. É preciso introduzir factores que levem as equipas a procurar mais o golo. A UEFA tem de pensar nisso; caso contrário, os jogos tornar-se-ão enfadonhos e muito tácticos, com pouco risco. Creio que a solução, no futuro, pode passar, mais nas Ligas internas do que nestes campeonatos (por se disputarem em final de época), por uma questão de atractibilidade, por mini-poules finais dos melhores contra os melhores. Para reflectir.

* Texto escrito com a antiga ortografia

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