Sporting vai debater-se… depois das eleições
A campanha eleitoral que colocou frente-a-frente Bruno de Carvalho e Pedro Madeira Rodrigues fez "sair da toca" – para utilizar uma expressão grata a Jorge Jesus – não apenas algumas figuras do universo ‘leonino’ que preferem, por norma, não sair da sombra mas, principalmente, o ambiente de crispação, desunião, fractura e bota-abaixismo que dominou o Sporting nestes últimos dias.
A questão nem sequer tem a ver com a eventual valoração que se possa fazer, em termos de escolha, entre o ‘elitismo’ e o ‘populismo’ sportinguistas. O Sporting anda à procura de uma identidade (com estabilidade) e ainda não a encontrou, muito por força das feridas e dissensões internas. O Sporting quer ganhar e voltar aos títulos, mas não sabe muito bem como lá chegar. Exactamente porque, depois de um ciclo em que a gestão do futebol foi muito maltratada, o Sporting entendeu continuar a debater-se internamente e a estender essa estratégia de combate a todos os adversários externos. O Sporting não tem dado tempo a si próprio para construir a sua própria paz. E, com ela, ficar mais forte para depois, quando estivesse mais estruturado e mais consolidado, poder encetar um programa de ataque às deformações do futebol luso, quer no plano genérico das insuficiências estruturais quer no plano mais particular da política de alianças. Um clube fragilizado e dividido não pode ter a veleidade de ir para a ‘guerra’ praticamente sem munições, à custa de golfadas de voluntarismo, num terreno pejado de minas e dominado por generais com muita estaleca destes teatros.
Hoje saber-se-á se os sócios do Sporting querem continuar a ver Bruno de Carvalho na presidência do clube ou se preferem a alternativa Pedro Madeira Rodrigues. Este jogou deliberadamente ao ataque nos últimos 15 dias, no sentido de passar a mensagem de que não se atemoriza e é capaz de enfrentar algumas figuras poderosas do universo leonino, como foi o caso concreto de José Maria Ricciardi, mas depois do debate, que ganhou, talvez se tenha perdido no ‘pântano’ que Bruno de Carvalho habitou e do qual revela muitas dificuldades em abandonar — o ‘pântano’ de um certo deslumbramento.
Depois de um primeiro ano prometedor, em que Bruno de Carvalho fez quase tudo bem (fechar o desenho da reestruturação financeira, contratação de Leonardo Jardim e aproveitamento dos recursos internos), o presidente do Sporting deslumbrou-se. Achou que era capaz de transformar pó em ouro, através de uma espécie de toque de Midas. E começaram os erros: a gestão da contratação de Marco Silva, as aquisições sem sentido (e proveito), o endurecimento do discurso para dentro e para fora, etc., etc. e a tentativa de afirmação do ‘eu, presidente’ em detrimento da construção de uma estrutura complementar capaz de reforçar as defesas de um clube demasiado exposto.
Já desgastado, Bruno de Carvalho explorou, e bem, o desgaste acumulado por Jorge Jesus no Benfica, e contratou o treinador que mais rápido poderia mexer com o ‘orgulho do leão’; que mais rápido poderia valorizar os jogadores; e que mais rápido poderia incomodar o rival da Luz. Podia dar-lhe jeito, até certo ponto, uma maior exposição do treinador para recuperar do impacto negativo causado pelo ‘caso Marco Silva’. As coisas correram muito bem no primeiro ano de JJ e muito mal neste segundo ano. E, com as coisas a correrem mal no futebol, em pleno biénio de investimento, começaram as críticas, visando os seus pontos mais fracos. Renasceu a oposição, para além de Pedro Madeira Rodrigues. Uma oposição romântica, no início e desenfreada na recta final da campanha. A sensação que se colhe é que Madeira Rodrigues não soube gerir emocionalmente a vitória que protagonizou no debate e também ele mergulhou no ‘pântano’ do deslumbramento. Esses tiques de deslumbramento podem ter representado importante marcha-atrás naqueles que não se revêem totalmente em Bruno de Carvalho. Afinal, a campanha acabou por não estabelecer uma clara mudança metodológica e programática entre Bruno de Carvalho e Madeira Rodrigues.
Serão, pois, surpresas:
— se Madeira Rodrigues ganhar as eleições;
— se a hipotética ‘goleada’ de Bruno de Carvalho for expressiva;
Num quadro mais ou menos lógico de vitória de BdC por números não avassaladores em eleições não muito particularmente concorridas, não se pense que o Sporting fica ‘resolvido’ por mais quatro anos. O Sporting vai continuar a debater-se no pós-eleições. Todos sabem disso e os últimos meses de 2017 vão ser determinantes…
* Texto escrito com a antiga ortografia
O conforto de Vieira
O Sporting debate-se em eleições num momento em que o Benfica afirma a presidência de Luís Filipe Vieira sem oposição. É curioso verificar o percurso de Vieira no clube da Luz. Muitas dificuldades de início, uma clara ineptidão para os assuntos do futebol, dúvidas sobre o estilo de liderança. Muitos erros de palmatória, a ajudar o FC Porto (naquela altura) na sua caminhada triunfal. Curiosamente, foi quando abandonou a sua dinâmica de combate directo (até na relação com a arbitragem, e aí talvez se encontre justificação para os ‘vouchers’…) que Vieira e o Benfica começaram a colher resultados e o FC Porto a afundar-se nas suas contradições e no envelhecimento de Pinto da Costa. A fórmula de sucesso de Vieira começou na anulação das reais ou potenciais franjas de oposição interna. Passou, depois, por estabilizar uma equipa profissional competente liderada por Domingos Soares de Oliveira, que se tornou vital (e viral) nas dinâmicas do Benfica e encontrou em Jorge Mendes o parceiro de quase todos os negócios, a quem se habituou a premiar na captação e agilização de muitas operações e culminou com a ‘expulsão’ (romanceada) do único elemento perturbador à afirmação de uma estratégia técnico-desportiva e financeira que começou a tornar-se emergente — Jorge Jesus. Na comunicação introduziu um dos seus últimos factores correctivos e, hoje, o Benfica tem em várias sedes — do parlamento à comunicação social — um amplo ‘benefício da dúvida’.
Vieira aparece muito mais descontraído nas suas entrevistas, como foi o caso da que concedeu esta semana à CMTV, a qual serviu para desagravar, finalmente, o conflito que mantinha com JJ e para demonstrar como saiu descansado da reunião com o CA. Este conforto de Vieira é uma conquista pessoal na forma como soube anichar-se e pacificar a ‘estrutura do Benfica’ e, sem conflitos internos, consegue ter a serenidade suficiente para — com a roda da engrenagem a girar — olhar para coisas tão sérias como reduzir drasticamente ou anular a dívida financeira e a… Superliga Europeia. Falta explicar a relação com o BES.
