Três tristes treinadores

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Portugal é um país de bons jogadores e bons treinadores, alguns dos quais do melhor que há no Mundo. Para o bem e para o mal, os que trabalham ao serviço dos ‘grandes’ estão mais expostos. Rui Vitória e Jorge Jesus, agora, mais do que nunca, não apenas no rescaldo da última jornada da fase de grupos da Champions, mas também porque vão ser protagonistas do Benfica-Sporting de amanhã, na Luz. E ainda Nuno Espírito Santo, numa montanha-russa de emoções, ora em depressão, ora em exaltação, a tirar a cabeça do cepo no preciso momento em que a lâmina do machado já brilhava nas mãos do(s) carrasco(s). Sem esquecer José Peseiro, que é de facto o treinador do quase, uma vez que fica sempre à bica de qualquer coisa realmente excepcional…

No ‘exame’ a estes quatro treinadores na campanha europeia das respectivas equipas, que acabou para Sporting e Sp. Braga, e continua para Benfica e FC Porto:

RUI VITÓRIA – Um grupo à partida que já se calculava difícil e equilibrado, com Nápoles, Besiktas e Dínamo Kiev. Missão cumprida, isto é, passagem aos ‘oitavos’, embora com a sensação de que foram cometidos muitos erros ao longo de quatro jornadas (jogos com Besiktas e Nápoles). A equipa italiana mostrou claramente ser a melhor e o Benfica só esteve de facto confortável nos jogos com os ucranianos. Repito, por ser o mais relevante: missão cumprida.

NUNO ESPÍRITO SANTO – O FC Porto teve fortuna no sorteio e poderia ter realizado uma campanha mais folgada, uma vez que o último jogo, com as reservas do Leicester, geraram uma ideia um pouco artificial. Para a história fica, na Champions, uma goleada ao campeão inglês, mas não há forma de escamotear – como muitos fizeram – que o Leicester deixou quase todas as suas principais figuras de fora e isso coloca sérias interrogações perante este tipo de confrontos, entre equipas já apuradas e outras por apurar. O Copenhaga não deve ter achado piada nenhuma à ‘escalação’ de Ranieri e, na verdade, há aqui questões subjacentes que parecem ferir a Verdade Desportiva – talvez pudesse existir, nestas ocasiões, uma regra de utilização de um número específico de ‘titulares’, sendo que essa definição de ‘titulares’ teria de ser muito bem estudada…

Em todo o caso, o FC Porto segue em frente, o que significa, também, missão cumprida, não obstante a sensação de que, nos confrontos com o Copenhaga, os portistas ficaram muito aquém do esperado…

JORGE JESUS – O grupo mais difícil que coube às equipas portuguesas em prova, com Real Madrid e Borussia Dortmund. Os resultados com estes dois adversários foram os esperados e ficou a (fraca) consolação das (muito) boas exibições perante espanhóis e alemães. O Sporting tinha, no entanto, a obrigação de conseguir o 3.º lugar no grupo, à frente do Legia, que levou seis, em casa, do Borussia, mas cometeu a proeza de empatar, em Varsóvia, com o Real Madrid (3-3). Mesmo com um ‘score’ de 9-24 (!!!), o Legia conseguiu mais um ponto do que o Sporting, o tal ponto que arrancou perante os milionários do Real. Não conseguir, no mínimo, o apuramento para a Liga Europa, via 3.º lugar, não pode deixar de ser considerado um fracasso. Missão não cumprida.

JOSÉ PESEIRO – O Shakhtar era favorito e confirmou esse favoritismo de uma forma natural… O busílis esteve nos jogos com o Gent, os bracarenses poderiam ter feito melhor, sobretudo em casa. Missão não cumprida.

A despedida da fase de grupos foi um desastre para as equipas portuguesas, excepto para o FC Porto. Nuno Espírito Santo pôde respirar e não entrar no lote semanal de três tristes treinadores: Rui Vitória nunca conseguiu arranjar antídoto para ‘+Nápoles’ e as substituições operadas, como já havia acontecido em Itália (e na Madeira…), também não ajudaram em nada; Jorge Jesus alcançou o clímax da invenção, em Varsóvia. O problema não esteve na utilização de uma espécie-de-terceiro-central (P. Oliveira), esteve na colocação de Bruno César na direita, Gelson mais dentro e Markovic à esquerda. Nunca deu certo. E, como nunca deu certo, Jesus fez de (des)construtor o tempo inteiro. A colocar e a tirar peças, como se estivesse entretido a montar e a desmontar puzzles. Não parecia necessário complicar tanto. Foi uma canseira para o próprio treinador, com zero de eficácia, ainda por cima perante um adversário cheio de fragilidades. A sensação colhida foi a de que o Sporting, no meio de tantos equívocos (ai Markovic!), queria mesmo livrar-se da Liga Europa!…

Quanto a José Peseiro, a mesma tentação de cair no abismo, nunca percebeu muito bem o que estava a acontecer.

A Luz aguarda, então, amanhã, a remissão de Jorge Jesus ou Rui Vitória. Se alguém perder…

O CACTO: Ganância

Somos todos um pouco responsáveis pela crise que se abateu no Mundo, mas no meio dessa crise governam-se os do costume. Podem arranjar os argumentos técnicos que quiserem, cegarem com a veneração dos ídolos e confundir o desempenho e a excepcionalidade com as obrigações a que cada um de nós deveria estar sujeito, sem nenhuma espécie de moralismos, que no final, no meio de tanta permissividade e conluio perante práticas consideradas toleráveis, a factura será sempre passada àqueles que, através do seu trabalho e das respectivas contribuições, serão sempre as vítimas de um sistema que não promove nem justiça nem equidade. Nem no plano social nem no plano fiscal. O problema está a montante, do lado da nascente, e não a jusante. É um problema que afecta a imagem do sistema político e financeiro, mas que afinal os alimenta. E todos nós sabemos isso. O sistema está criado para premiar, contemplar e bonificar todo o tipo de elites. Não parece que o escândalo que se abateu sobre os agenciados por Jorge Mendes possa ter grandes consequências em Portugal. O fisco espanhol está em campo e as investigações sobre Cristiano Ronaldo conhecerão uma conclusão. Messi e Neymar já foram condenados por evasão fiscal e parece prática comum os grandes craques fazerem-no. É um processo cuja complexidade dá muito dinheiro e talvez por isso haja muita gente ou calada ou a defender o indefensável.

Uma coisa são as nossas simpatias e preferências, as relações mais ou menos afectivas; outra coisa é contribuir para o aumento da pobreza em muitos países que, também desta maneira e do dinheiro canalizado para os paraísos fiscais, são impedidos de crescer. Dizem que é uma inevitabilidade ditada pelo ‘monstro’ da sustentação. Não alinho nisto. Chega de tanta ganância. O pior é o medo e a subserviência.

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