Um imbróglio da Silva no 'caso dos emails'
Esta semana, no Porto Canal, o ex-vice presidente do Benfica, Rui Gomes da Silva [RGS], foi envolvido no caso dos emails, alegadamente por ter enviado (em 25 de Março de 2014) correio electrónico para Paulo Gonçalves, assessor jurídico da SAD e João Gabriel (JG), ex-director de comunicação do clube da Luz, a pedir conselhos sobre como lidar com a situação de o ex-árbitro Jorge Coroado, num programa televisivo, ter denunciado que o Benfica acompanhava os árbitros dos jogos europeus a um estabelecimento nocturno muito conhecido, onde teriam umas senhoras à espera. Segundo Francisco Marques, director de comunicação do FC Porto, trata-se de "um cordeirinho a pedir instruções", "um cartilheiro obediente", "o cartilheiro perfeito".
Vamos lá fazer algumas reconstituições para contextualizar o ‘caso dos emails’. Não nos devemos esquecer que, não desconsiderando uma apetência histórica que os protagonistas da bola lusa sempre manifestaram nas suas abordagens ao sector da arbitragem, com queixas, reclamações, pressões, coacções e outros ‘ões’ levados da breca, muito por força da realidade vivida no futebol indígena durante anos e que pariu um rato no ponto mais alto do Apito Dourado, tudo se tornou mais incandescente, mais assanhado, eu diria, até, mais vergonhoso, no sentido do ‘clima de ódio’ caracterizado pelo presidente da FPF, Fernando Gomes, com a saída do treinador Jorge Jesus [JJ] do Benfica para o Sporting.
Havia, na Luz uma claque anti-Jesus e nela anichavam-se, nomeadamente, o ex-vice presidente [RGS] e o ex-director de comunicação [JG]. O plano, a certa altura, e neste particular o presidente Vieira já havia cedido à pressão da estrutura, era prescindir dos serviços de JJ, mas colocá-lo o mais longe possível de Portugal. Como este não acedeu e escolheu o caminho do Sporting, o caldo esquentou ainda mais e entornou-se.
É importante não perder de vista que, na última fase de JJ, na Luz, o único departamento de comunicação (super) activo e já organizado era precisamente o do Benfica; o do Sporting era uma pequena cápsula do ‘torpedeiro’ Bruno de Carvalho - o único rosto da comunicação leonina — e o FC Porto, com Rui Cerqueira, andava aos papéis, mergulhado em demasiadas frentes de desgaste, desde as guerras internas com Antero, passando pelo caso da segurança privada, sem esquecer a perda de hegemonia desportiva e a degradação da situação financeira. O Benfica, com Gabriel, batia em tudo o que mexia e, em dinâmica de vitória, gerava uma ideia de superioridade absoluta — dentro e fora do campo.
O Benfica sentia que havia chegado a uma fase de maturidade do seu crescimento e desenvolvimento e, a ganhar, precisava de cuidar da sua imagem. Abandonar o conflito por tudo e por nada, mesmo percepcionando que o Sporting e o FC Porto estavam a fazer os (im)possíveis para aumentar a sua agressividade comunicacional.
Quando JJ entra em Alvalade, a comunicação do Sporting estava superconcentrada no presidente (‘vices’ sem autorização para falar, por exemplo), mas havia já a convicção de que os leões tinham um importante défice em relação ao Benfica. O Benfica já estava noutra onda — de estabilizar a sua comunicação institucional — e o Sporting fazia tudo para se aproximar das dinâmicas empreendidas por Gabriel, na Luz. Daí a entrada de Luís Bernardo para as fileiras encarnadas e a contratação de Saraiva pelos leões, no sentido de amenizar a excessiva centralização de Bruno de Carvalho. Octávio Machado foi a solução achada por JJ para tentar amenizar aquilo que era o conhecimento de JJ em relação à organização do Benfica e, a certa altura, percebeu-se que havia, no Sporting, duas comunicações.
O Benfica mantinha a estratégia: proteger ao máximo algumas limitações neste campo do seu presidente (Gabriel tinha sido mais do que a voz do presidente) e fazer correr, no espaço público, os seus ‘galgos’ e ‘lebres’. Quando Bernardo — um homem mais hábil na gestão das diferentes sensibilidades, cujos talentos herdou do seu contacto com os actores da política — saiu de Alvalade para entrar na Luz já estava em andamento a ideia de que não era necessária muita actividade oficial porque, oficiosamente, Carlos Janela havia sido achado como o pivô das marionetas falantes — os chamados ‘cartilheiros’.
RGS foi, aliás, o primeiro ‘cartilheiro’ a reconhecer a existência de ‘cartilhas’. Uma vez mais, na sua ânsia de a tudo chegar, como vice e, agora, já como ex-vice (porque exigira ser o número 2 da Direcção e vira-lhe ser negada essa ambição), RGS marcava um golo na própria baliza do Benfica. De resto, só reveses: sai da SAD, sai da Direcção, sempre desprotegido por LFV e, no entanto, para dar corpo agora à sua sanha revanchista, não tem coragem e evita o confronto com Vieira, esperando talvez por uma oportunidade em que o presidente esteja mais desgastado. Por questões de afirmação pessoal, dá jeito a RGS que a crise do Benfica cresça (e por isso mantém o tom crítico), mas faz elogios (envenenados) a Vieira. Entretanto, afastado de (quase) tudo, percebe que é importante estar vivo. E nasce o bloguista. Um imbróglio da Silva. (continua)
* Texto escrito com a antiga ortografia
JARDIM DAS ESTRELAS (4 estrelas)
A ‘Dona Feia’
volta ao ataque
Depois de se ter sagrado campeão europeu, Portugal começou mal a fase de qualificação para o Mundial, num Grupo acessível. Perdeu com a Suíça, uma selecção que vale menos que a portuguesa, obrigando-a cuidados redobrados nas suas visitas a campos ‘secundários’ como o das Ilhas Faroe e Andorra. O apuramento directo acabou por concretizar-se, e através de um jogo muito competente (na ‘final’ com a Suíça) mas outra vez pouco brilhante, exceptuando a jogada do segundo golo. A ‘Dona Feia’ voltou por isso a atacar. Já o havia feito, com êxito, em França e parece não querer abdicar da sua simplicidade e pragmatismo. Não usa meias de vidro nem pompons. Mas foi com um calculismo às vezes excessivo que chegou à Rússia, onde por exemplo Chile e Holanda não chegaram. Com maior ou menor dose de… Ronaldo.
O CACTO
O golo
do Panamá
Quem não chegou à Rússia foi a selecção dos Estados Unidos, que fez uma fase de qualificação muito abaixo do que se esperava. No entanto, quem conseguiu o apuramento, o Panamá, fê-lo através de uma forma irregular: com um golo em que a bola não chegou a entrar na baliza da Costa Rica. O futebol não pode consentir uma coisa destas, mas a verdade é que tem consentido e, no meio dos protestos que já se ouvem fazer sentir da parte dos norte-americanos e das Honduras, não vejo como a FIFA pode fazer agora algo diferente relativamente ao que já havia acontecido na qualificação para o Mundial de 2010, na qual a França conseguiria o golo da igualdade, frente à Rep. Irlanda, através de um lance em que Thierry Henry ajeitou a bola com a mão: homologar a batota. Ainda há alguém que não concorde com a vídeo-arbitragem?…
