Uma desgraça nunca vem só
Chamei-lhe o "túnel da desgraça".
Foi mais uma desgraça para a imagem do futebol em Portugal aquilo que aconteceu no final do Sporting-Arouca, como já havia sido uma desgraça aquilo que acontecera no Estádio da Luz, em 2009, após um Benfica-FC Porto. Em ambos os casos foram as imagens de videovigilância que nos deram a dimensão da desgraça. Outras desgraças entretanto têm acontecido – pelos relatos a que vamos tendo acesso, através dos relatos de protagonistas veiculados pela imprensa – mas dessas não há imagens. E logo aqui coloca-se uma questão sobre a (não) equidade subjacente ao procedimento disciplinar…
Todos se lembram também de episódios reportados no ‘túnel das Antas’. Túneis, túneis, túneis. O futebol português refém dos seus túneis. Desgraçadamente.
Esta semana três presidentes de clubes estiveram em foco: Bruno de Carvalho (Sporting) e Carlos Pinho (Arouca), por causa do que se passou no túnel de Alvalade, cujas incidências já foram dissecadas até ao tutano… do tutano, e Luís Filipe Vieira (Benfica), pelo seu alegado comportamento para com a arbitragem, no único jogo em que os ‘encarnados’, esta época, perderam pontos, no âmbito das competições nacionais - frente ao V. Setúbal, na Luz, à 2.ª jornada.
Defendi publicamente que os três presidentes se puseram a jeito para ser castigados. E todos, na verdade, merecem castigo. Porquê? Vejamos um a um:
CARLOS PINHO – As imagens de videovigilância carecem de som e isso poderia ajudar a explicar muita coisa. Contudo, pelo que se vê, só o presidente do Arouca pode ser acusado de ‘tentativa de agressão’ ou mesmo de ‘agressão’, tendo sido mais gravoso o seu comportamento perante os ‘stewards’ ou ARD (Assistente(s) de Recinto Desportivo). E há uma imagem que pode ser interpretada como ‘incitamento à violência’. O presidente do Arouca dificilmente se livrará de uma pena inferior a 1 ano de suspensão. E há que considerar eventuais reincidências registadas.
BRUNO DE CARVALHO – Não vai ser fácil provar um motivo diferente pelo qual o presidente do Sporting alega encontrar-se naquela zona do túnel em que se cruzou com Carlos Pinho. À espera de alguém – ou de alguma coisa – estava de certeza. Resta apurar se o pai de Bruno, naquele momento, poderia ter acesso àquele local. Em que qualidade – na de ‘pai do presidente’? Apesar da questão, legítima, isso não será suficiente para aplicação de um castigo. Então por que motivo defendo que o presidente do Sporting deve ser castigado? Basicamente, porque – tratando-se de cuspo ou não – aquele comportamento de Bruno de Carvalho configura ‘lesão da honra e reputação’, pelo que, considerando eventuais e prováveis ofensas, o presidente dos leões não conseguirá evitar o castigo, como pretende. Um castigo previsivelmente leve (inferior a 3 meses de suspensão).
LUÍS FILIPE VIEIRA– Noutro enquadramento, uma vez que estamos a falar de algo que também é ‘histórico’ no futebol português – as queixas em relação às arbitragens. No caso vertente, e segundo o acórdão do Conselho de Disciplina da FPF, a utilização de expressões que envolviam a palavra ‘roubado’, e reconhecidas pelo visado João Ferreira, vice-presidente do Conselho de Arbitragem, justificaram o castigo ao presidente do Benfica, que recorreu para o TAD. Só há uma forma de os dirigentes, em Portugal, perceberem aquilo que já é seguido noutras ligas, nomeadamente a inglesa, com sucesso: a aplicação de castigos. Se os agentes desportivos acatam as determinações da FIFA e da UEFA, no sentido de lhes ser imposta contenção nas declarações sobre agentes desportivos, não podem querer excepções na aplicação dessas regras, quando transferidas para os regulamentos nacionais.
Os presidentes dos clubes continuam a ser notícia em Portugal, e muitas vezes pelos piores motivos.
No futebol português, a pirâmide está invertida, e isso é uma realidade histórica: primeiro, os dirigentes, depois os treinadores e por último os jogadores. Enquanto não se inverter esta pirâmide, e isso deveria inclusive suscitar uma intervenção mais enérgica por parte do Sindicato dos Jogadores, o futebol luso continuará a pertencer, fora das quatro linhas, e lamentavelmente, ao Terceiro Mundo. Pobre. O futebol português tem o Cristiano Ronaldo, o José Mourinho, o Jorge Mendes e o Pedro Proença (enquanto árbitro) e tem, igualmente, a pior casta de dirigentes do Mundo. Faz pensar como ninguém a este nível se destaca… pela positiva.
José Manuel Meirim não pode capitular. A ver se isto entra na normalidade.
JARDIM DAS ESTRELAS - Chaves em frente
O Chaves protagonizou a grande surpresa da Taça, ao eliminar o FC Porto, com um desempenho colectivo de muita concentração e empenho competitivo. Está de parabéns Jorge Simão pela forma como organizou a equipa e merecem palavra de destaque o guarda-redes António Lopes, Freire e o ponta-de-lança William. O FC Porto, outra vez pouco intenso, voltou a evidenciar o ‘flop’ que foi a contratação de Depoitre. Jota em baixo e Varela desperdiçou a oportunidade.
Em Alvalade, num jogo em que o grande momento foi o ‘golão’ do Praiense, por Filipe Andrade (Jefferson muito mal…), o Sporting viu André entrar e, em 10 minutos, marcar 2 golos. Castaignos não marcou mas pode crescer. Meli estreou-se, mas 7 minutos em campo não deram para nada. Alan Ruiz mais mexido… Bruno César em grande. É bom a 8, 10 ou a 11 (anteontem, foi 11) e reclama um lugar mais permanente na equipa.
O CACTO - Depois não se queixem
Começam a levantar-se mais vozes sobre o que se está a passar na AF Porto, com o diferendo entre o Canelas e os seus adversários. Estes parecem decididos em maioria a recusar-se a jogar, mas o que mais se lamenta é o facto de as instâncias oficiais não tomarem medida alguma. Deixem a semente medrar e desenvolver-se e depois não se admirem que, debaixo do medo, comecem a surgir equipas desta natureza em escalões superiores. Não actuem, rapidamente, e depois não se queixem. A coação, em Portugal, já deu muitos resultados. É bom não ignorar e evitar que cenas deste jaez se multipliquem. Só falta mesmo entregar uma comenda a Madureira, tão requisitado pela imprensa.
