Vieira deu a cara e não tem recuo

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Ouve-se Luís Filipe Vieira, em longa "entrevista" à BTV e, retirando as partes propagandísticas ajustada a uma plateia composta por ‘alinhados’, a noite de quinta-feira deu para concluir, em função do que ali foi dito, o estado continuadamente calamitoso do futebol português: desde ‘capangas do FC Porto nas Aves’ a reminiscências que comprometem o clube das Antas e do Dragão, passando pelos ataques ao Sporting, ao Conselho de Arbitragem e à Liga. Um Vieira disponível para defender a honra do Benfica, e a sua própria honra, porque tudo aquilo que for possível de ser provado em redor de eventuais práticas ilícitas, abater-se-á, em primeiro lugar, sobre o presidente.

Ficou claro que, se houver uma pedra mais pesada relativamente ao peso presidencial, Vieira ficará debaixo da pedra e enterrado no lodo. Não há nem houve e, agora, parece não haver terreno para marcha-atrás. Ou é a fuga para a frente ou é a projecção da imagem celestial da não culpa. Que o tempo julgará.

Vieira apostou na tese da inocência, recorrendo à radiografia dos seus principais adversários. Mais do que arranjar argumentos para provar a sua isenção de culpa e a do Benfica, passou quase todo o tempo a analisar as vísceras dos seus adversários. Vísceras em estado adiantado de descomposição ou putrefacção. E, no caminho do acerto de contas, despachou quem tinha de despachar: o FC Porto, o Sporting, a Liga, o Conselho e Arbitragem (em forma de aviso/recado), Gomes da Silva e, romanticamente, Nuno Gomes.

Parece que ‘meio mundo’ ficou muito impressionado com a declaração de Luís Filipe Vieira, segundo a qual — e num ponto alto da ‘saga dos emails’ — "não há corrupção no Benfica". Queriam que dissesse o quê? Qualquer coisa do tipo: ‘caro moderador, caros consócios e ‘caseiros’, venho aqui para vos dizer que… há corrupção no Benfica!’. God s(h)ave the queen!

Não relevando, portanto, essa declaração, e percebendo que o contra-ataque ao FC Porto tinha de ser feito em dois planos — a uma certa memória do futebol e à falta de resultados, desportivos e financeiros, do seu principal adversário —, em duas horas e meia de conversa não houve uma única alusão ao conteúdo específico dos emails e, desta vez, nem houve tempo para se dizer ou confirmar a versão de que aqueles emails são falsos, foram forjados ou adulterados.

Depois da forma mais tensa e perturbante como o presidente do Benfica encarou os sócios na última AG, a ‘entrevista’ de Luís Filipe Vieira (LFV) resulta, na prática, na validação de uma estratégia e dos seus promotores. Não ouvimos da parte do líder ‘encarnado’ uma palavra de censura, repúdio ou mesmo de mera observação crítica em relação a nenhuma das intervenções, comportamentos ou procedimentos. Defendeu - para além de Domingos Soares de Oliveira, o gestor do presidente e ‘pai’ do projecto - Paulo Gonçalves, a eminência parda e controlador do sistema interno/externo e o inefável Guerra, cuja apetência para a ‘investigação’ ("tem a mania que é investigador", nas palavras do presidente), atacando Gomes da Silva e ignorando Rui Costa.

Quer dizer: Vieira validou o processo de ‘benfiquização do sistema’, que colocou em marcha através de alguns procedimentos que podem parecer menos éticos aos olhos da opinião pública, mas que não são observados, na Luz, como crime. Ele nem fala disso, porque não houve nem uma palavra para Adão Mendes, Nuno Cabral e para o conteúdo dos emails que, da maneira como têm surgido aos olhos das pessoas, sugerem a ratificação de um impressivo esquema facilitador, envolvendo (ex)árbitros, (ex)delegados e figuras mais ou menos anónimas a… ajudar à missa ou ao ‘governo’ do… ‘primeiro-ministro’.

A técnica da oferta de bilhetes faz parte de um esquema simples de captura. Não há almoços (bilhetes) grátis. É a estória do chouriço e do porco. Todos os clubes já o fizeram? Parece indiscutível. Mas, então, qual a razão para se fazer a distinção entre bilhetes mais ou menos… ‘jeitosos’? O condicionamento faz-se através destas pequenas (grandes) coisas, e o pior é que parece haver no país, entre os influenciadores (das decisões), pouca gente que não se tenha colocado a jeito. Os ‘vouchers’ e as ‘cartilhas’ (nem uma palavra, também), parece claro, foram mecanismos usados para gerar simpatias e capturas. Acredito sinceramente que Vieira nunca olhou para esses mecanismos como fautores de crimes. Apenas como um sinal de "maturidade". Uma esperteza tuga supostamente capaz de dominar o famigerado ‘sistema’. Depois desta entrevista de LFV continua tudo na mesma: os investigadores têm os dados na mão. Não será muito difícil de provar se houve nomeações ou classificações dos árbitros, por exemplo, mudadas por influência abusiva do Benfica (ou de outro clube qualquer).

Recordo que o exercício de ‘abuso de influência’ dá, na forma tentada, perda de 5 a 8 pontos e, na forma consumada, descida de divisão. Não apenas para o Benfica, já se vê, mas para todos os clubes que, em Portugal, se coloquem nessa posição. Não temos tido, afinal, uma justiça desportiva demasiado conservadora e defensiva?!…

JARDIM DAS ESTRELAS - Futebol solidário

Tem-se falado muito, é incontornável, das malfeitorias feitas ao futebol português e da incapacidade de resolver os seus principais problemas, mas o futebol pode ter, como se vê agora, uma força agregadora extraordinária, e é nessa capacidade que os dirigentes desportivos se deviam agarrar para se extrair da modalidade aquilo que ela tem para dar — infinitamente mais do que aquilo que vem dando em Portugal e é amplificado pela voz dos (novos e velhos) protagonistas. Excelente iniciativa da FPF, que conseguiu mobilizar as três televisões para tentar

atenuar o sofrimento e as perdas das famílias afectadas pelos incêndios que consumiram Portugal. Viva o futebol solidário!

O CACTO - Os áudios do VAR

O VAR tem as costas largas e tem servido para tudo. Uma coisa é a estreiteza do protocolo, que deve evoluir para uma videoarbitragem mais ampla, no sentido da protecção da legalidade do jogo e não para — perdoe-se-me a expressão — ‘medir pilinhas’ entre o árbitro de campo e o videoárbitro. Os árbitros têm de se defender fora da sala ou do centro da videoarbitragem, na Cidade do Futebol. Lá dentro têm de defender a verdade do jogo. Acima das cores e das dimensões dos clubes. E a questão da divulgação dos áudios de comunicação entre árbitro e VAR não pode ficar, assim, numa bolha, que se sopra para cima ou para baixo, consoante estados de espírito. É preciso um critério e que toda a gente o entenda. Urgentemente.

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