Vieira ‘finalmente’ disse quase tudo

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Foram necessários 15 meses para Luís Filipe Vieira dizer o essencial sobre Jorge Jesus. Não disse, preto no branco, que quis correr com ele, diplomaticamente, mas nas suas explicações e juntando ‘dois mais dois’ acabou por reconhecer que "a forma de trabalhar de Jesus não servia os interesses do Benfica" e ainda "com Jesus não era possível planear o futuro".

Finalmente! Mais claro não podia ser, mas parece que ainda há quem não tenha percebido.

Intencional ou não intencionalmente, o presidente do Benfica confirmou, na sua mais recente entrevista, aquilo que sempre defendemos sobre esta matéria: que, sem o assumir, o Benfica entendia ter acabado o ciclo de Jorge Jesus na Luz. Houve, então, com a ajuda do seu ‘parceiro estratégico’ (Jorge Mendes), uma tentativa de ‘colocar’ Jesus fora do território nacional, só que a operação falhou porque não apareceu o clube dos sonhos do agora treinador do Sporting e porque o próprio Jesus se apercebeu da manobra.

Como disse agora e finalmente Vieira, não se trata de uma questão de (má) avaliação enquanto treinador e profissional; não se trata de uma questão pessoal. É mais fácil inferir agora aquilo que sempre me pareceu claro desde a primeira hora. Em causa estava uma questão de natureza estratégica, à qual se associava uma questão de poder. Quando Vieira foi buscar Jorge Jesus a Braga, o Benfica precisava de um treinador que, rapidamente, ‘agarrasse’ e dominasse o futebol dos ‘encarnados’. A aposta não podia ser mais certa, porque se há algo que Jesus consegue fazer é conseguir transformar, em pouco tempo, as conjunturas, através de uma intervenção clara e impositiva. Como se está a ver, agora, no Sporting, e foi sempre isso que defendi, em termos de análise.

O Benfica precisava de um treinador de choque e o treinador de choque deu ao Benfica o choque metodológico que o Benfica precisava. Acontece que os resultados foram imediatos e, através deles e da percepção que Jesus era capaz de fazer alguns ‘milagres’, seguiu-se um ciclo de altos e baixos, de maiores e menores tensões. Porque Jesus sempre puxou pelo ‘poder da cabina’ e isso não era bem visto internamente. Não tanto pelo lado de Vieira, que tem um lado macio e compreensivo, mas por todos aqueles que queriam ver reconhecidos os seus méritos e eram secundarizados pelo efeito de eucalipto produzido pelo treinador.

Um treinador que puxa pelo ‘poder da cabina’ desgasta muito. Paralelamente ao crescimento do poder de Jorge Jesus, o Benfica foi construindo as suas infra-estruturas. Físicas (trabalho notável de Vieira) e humanas. Vieira foi encontrando gente capaz de racionalizar a gestão (com Domingos Soares Oliveira em posição de principal destaque) e o Benfica redimensionou-se como grande clube europeu que é.

Jorge Jesus já havia sido muito útil, mas era tempo da estrutura do Benfica e do próprio Luís Filipe Vieira assumirem o regime presidencialista em pleno. E isso só era possível com um treinador menos ‘poderoso’ e mais submisso a um paradigma de gestão que começasse no presidente, passasse (apenas) pelo treinador e fizesse tabela nalgumas peças angulares da estrutura.

Vieira entendeu que era preciso ‘virar a página’. Só que não teve a coragem de o assumir perante aquilo que havia sido o seu treinador. Os raciocínios que produziu, agora, na entrevista tornam tudo mais claro. "A forma de trabalhar de Jorge Jesus não servia os interesses do Benfica". Deixou de servir, digo eu. Palavras ditas por Vieira, claras como água. "Com Jesus não era possível planear o futuro". Vieira fala mesmo de uma mudança de paradigma. Talvez Vieira (e muitos à sua volta) não tenham dado pela contradição em directo: se Jesus não servia os interesses do Benfica e se, com ele, não era possível planear o futuro, não fica finalmente esclarecido que o Benfica já não queria Jorge Jesus?!… E era assim tão difícil de assumi-lo? Colhe-se, pois, a sensação que Vieira tinha medo de Jorge Jesus e um presidente não está em posição de ter medo de um treinador, independentemente dos méritos que lhe reconheça.

Esta entrevista, arejada, que mostrou um Vieira simultaneamente racional e emocional (há coisas que, na lógica de gestão, não deveriam ter sido ditas…), só é possível numa nova lógica de comunicação, muito mais de acordo com as responsabilidades de um clube com a dimensão e as responsabilidades do Benfica.

Bruno de Carvalho não perdeu tempo, numa semana de entrevistas/intervenções presidenciais (Pinto da Costa teve palco, igualmente), e também foi ‘a jogo’ (televisivo), numa sessão mais jornalística, chamemos-lhe assim, e menos construída para o ‘show’ e para as audiências, num tom menos familiar e mais de… parceria. Um Bruno de Carvalho mais calmo, menos popularucho, um pouco mais institucional, até na forma como ‘defendeu’ Jorge Jesus: "Não é treinador para qualquer presidente!" E não é, de facto. Não podemos, contudo, afastar-nos da ideia de que, em Portugal e nos clubes ‘grandes’, não é normal um treinador estar 6 anos na liderança técnico-desportiva. Isto tem que dizer alguma coisa. Acima de tudo que lhe foi reconhecida competência na Luz, aliás como Luís Filipe Vieira se referiu ao seu ex-treinador.

Repito: Vieira precisou de Jesus quando vinha de um período difícil, de um Benfica sem forma e incaracterístico, perdido em muitas escolhas duvidosas e, depois de lhe promover as primeiras vendas, quando o Benfica retomou a sua dimensão, a pouco e pouco, num plano de exigência maior e conseguida, era o momento de contestar a luz de Jesus e o seu poder adquirido.

É uma história de protagonismos, de egos e de estórias incompletas, nada bonitas, da qual ninguém sai incólume.

Vieira e Jesus têm mais coisas em comum do que eles próprios agora reconhecem.

Sport Rafa e Benfica?

Estreia muito boa de Rafa pelo Benfica: até se lesionar e sair, uma hora de futebol repentista, a aproveitar o ‘espaço vazio’ e a dar sinal de que, mais sobre a esquerda, ou pelo meio, o ex-bracarense é um jogador diferente, que empresta outras valências ao ataque do Benfica. Um Benfica diferente, nem sempre equilibrado, com um ataque português (Rafa-Gonçalo Guedes), às vezes desconcertante, mas a superar ausências importantes como Jonas, Mitroglou e Jiménez. Houve Sport Rafa e Benfica, que… promete.

Já chega!

Pinto da Costa, na sua primeira aparição pública após a resignação de Antero Henrique, sobre o ‘caso do momento’ da agenda portista, nem uma palavra. Estamos a falar de um dirigente com 26 anos de história no FC Porto. O presidente dos dragões preferiu retomar o discurso da vitimização, apelar à união ‘do Norte’ e atacar os ‘comentadores’ dos clubes adversários. O líder portista está a descapitalizar, rapidamente, tudo o que fez (e foi muito) no FC Porto e ainda não percebeu que os tempos mudaram. É preciso refrescar a comunicação, mudar alguns procedimentos e técnicas ancestrais e deixar de fazer o papel de ‘patinho feio’ (já chega!) e atacar os problemas, que são muitos. É preciso acordar para a realidade, embora algumas coisas publicadas (‘contra o FC Porto’) sejam de bradar aos céus…

Por fim: faz algum sentido Antero poder ficar como representante do FCP na Liga?!… Mas alguma coisa para reflectir?…

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