Cegueira e paixão
Pedro Adão e Silva escreveu ontem em Record um texto que devia ser um manual para os adeptos de futebol. Fê-lo enquanto benfiquista numa época péssima para o clube, mas a mensagem aplica-se a todos, sobretudo na hora das derrotas. Desde que me lembro de ver futebol que a história repete-se: 'eles' só ganham porque compram árbitros, porque controlam a Liga e a Federação, porque qualquer razão menos a mais natural: porque foram melhores.
Os adeptos adotam este discurso como se fosse seu, mas é uma 'verdade' cada vez mais cultivada pelas impiedosas máquinas de propaganda ao serviço dos vários lóbis do futebol português. A acreditar no que se tem dito pelos derrotados, não houve nenhum campeão justo em Portugal nos últimos 20 anos. O que acaba por ser estranho, tendo em conta que houve quatro clubes diferentes a conquistar o título.
O FC Porto venceu com toda a justiça e tudo o que foi dito sobre os méritos de Sérgio Conceição soa a pouco. Mas há algo que tem sido repetido de forma permanente e talvez injusta: que o grande mérito do treinador foi incutir garra e um espírito guerreiro à equipa. Nisto, Sérgio Conceição é vítima de si próprio: é um excelente treinador, com conhecimentos técnicos e táticos extraordinários, mas a imagem de um homem apaixonado pelo jogo e pelo que faz, juntando-se a alguns excessos, parece sobrepor-se a tudo.
Se o campeonato se ganhasse apenas com muita garra e paixão, até eu conseguiria juntar em Requeixo uma equipa para lutar pelo título.
