Bloco baixo

Sérgio Krithinas
Sérgio Krithinas Diretor Adjunto

O fim das 'gajas boas'

çA FIFA recomendou que as transmissões televisivas no Mundial deixassem de mostrar mulheres bonitas de forma ostensiva e geraram-se ondas de choque. Puritanismo? Censura? Influências dos países muçulmanos, já que o próximo Mundial será no Qatar? A verdade é que a explicação é muito mais simples: dinheiro.

É verdade que estamos em 2018 e andar a mostrar ‘gajas boas’ como se fossem carne num talho, fazendo de um jogo de futebol um espetáculo à medida de homens do século passado, já não faz muito sentido. É isso que, ainda que indiretamente, incomoda quem manda na FIFA, já que a preocupação maior não é a moral e os bons costumes. É precisamente a necessidade de alargar a base de adeptos do desporto mais popular do Mundo, que se joga em praticamente todos os locais onde haja... homens.

A globalização, bem como os próprios movimentos migratórios, levou o futebol a locais onde antes tinha pouca tradição. Nesse aspeto, pouco mais a FIFA pode fazer além do que já faz – contribui para a criação de estrelas globais e tem diversificado organizações de Mundiais e outras provas... O grande desafio é tornar o fenómeno verdadeiramente universal também no género. Apesar da saudável evolução das últimas décadas, o futebol continua a ser um desporto cuja esmagadora maioria dos adeptos (e praticantes) são homens, pelo que há metade da população mundial (as mulheres) a quem o futebol diz pouco. Alargar o estereótipo, juntando um grande jogo a imagens de ‘gajas boas’ nas bancadas, é apenas fazer daquilo que o futebol sempre foi: uma coisa para homens (muitas vezes feios, porcos e maus). E, com isso, mesmo que de forma totalmente inconsciente, afasta-se o interesse da grande maior parte das mulheres.

Ao conseguir fazer de um jogo de futebol algo agradável e confortável para todos, a FIFA irá conseguir também fazer disparar o número de adeptos, chegando facilmente à ‘outra metade’. Com isso aumentará as audiências televisivas, os valores de publicidade e as receitas pelos direitos de TV. Resumindo em duas palavras: mais dinheiro. E isso é tudo o que interessa a uma organização com o cariz capitalista – para o mal e para o bem – como a que manda no futebol em todo o Mundo.

Um dos motivos que tornou o futebol no desporto mais popular do Mundo foi a sua universalidade. Não exige super-humanos, nem gigantes: qualquer um o pode jogar bem, seja alto ou baixo, seja forte ou fraco – e abundam os exemplos disso, mesmo ao mais alto nível. Por isso, não faz muito sentido que essa universalidade não se aplique também aos géneros e que o jogo se mantenha de uma maneira geral limitado a homens, tanto no relvado como nas bancadas.
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