Obrigado por cada nó cego, Chalana

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Esta profissão dá-nos muitas coisas boas. A mim permitiu-me conhecer pessoas extraordinárias, visitar sítios que faziam parte do imaginário da minha infância, assistir ao vivo a momentos que entraram para a memória coletiva de todo o povo. Mas nada se compara aos dias em que joguei futebol com craques que via jogar pela televisão. Algo que acontecia habitualmente nos estágios de pré-temporada: jornalistas contra treinadores e staff dos clubes.

Estive em quatro estágios do Benfica, entre 2002 e 2005, e pude sentir na pele o que era defrontar Koeman, Shéu, Álvaro Magalhães e Chalana, entre outros. Todos com mais 20 ou 25 anos do que eu, todos com um talento e conhecimento do jogo que nem sabia que existia. Que me perdoem todos os outros, mas Chalana era diferente. Um terror quando pegava na bola. Partia da esquerda e driblava. Para a direita, para a esquerda, por cima, por baixo, para a frente, para trás. Pelo meio, se fosse preciso. Parava à nossa frente e já sabíamos o que nos iria acontecer, só não ao sabíamos como nem quando. Pensava meia hora antes de todos nós, executava uma hora antes. Nem o slow motion ajudaria a descodificar o que nos tinha acontecido.

E essa incrível capacidade de tratar a bola como se fosse uma parte inata do seu corpo não era o que mais impressionava em Chalana. O que sempre me fascinou foi o prazer puro que tinha em jogar futebol. Então quase cinquentão, com milhares de treinos e centenas jogos nas pernas, desgastado por uma alta competição que nem sempre tinha sido sua amiga, Chalana mantinha uma paixão pelo jogo, pelo drible, pela finta de corpo, pela ginga, própria de uma criança que acabara de receber a primeira bola em dia de aniversário. É dessa paixão que Chalana era feito. E foi essa paixão que todos sentimos a ver Chalana jogar.

Obrigado por cada nó cego que me deste, Chalana. Vou sentir falta.

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