A opinião de Vítor Baía

Vítor Baía
Vítor Baía Antigo internacional

O meu primeiro clássico: muito acarinhado pelos adeptos

Acho que o mais importante é falar das emoções. Lembro-me, naquele FC Porto-Benfica de 1988/89 (0-0), do ambiente e da confiança que o míster Artur Jorge me transmitiu, e que já era por si só um alívio para um jovem de 19 anos sentir esse carinho por parte do treinador. Além disso, recordo-me da excelente aceitação que tive porque, para todos os efeitos, substituí um monstro das balizas do FC Porto.

Havia feito a estreia à 4.ª jornada, face à lesão do Mlynarczyk. O Zé Beto fez alguns jogos, mas eu consegui conquistar a titularidade de uma forma normal. Entro depois de um empate em Portimão [1-1] e ganho a titularidade com 19 anos. A confiança já existia, até porque já tinha feito um jogo e já estava com a equipa há algum tempo, mas recordo daquele clássico uma grande recetividade dos adeptos.

Os adeptos trataram-me desde o início de uma forma extraordinária e com um carinho contagiante. É aí que se inicia uma relação quase umbilical com o FC Porto e com os seus adeptos. Fui muito acarinhado, o que não era normal. Pela mentalidade, os guarda-redes teriam de crescer com uma idade muito superior. Particularmente comigo, a aceitação foi imediata. Houve uma empatia extraordinária entre todos, o que me levou a vivenciar momentos fantásticos nesse primeiro jogo. Lembro-me de um estádio completamente cheio, com pessoas de pé. Penso que as Antas chegaram aos 80 mil espectadores.

Lembro-me acima de tudo que foi uma descompressão para mim. O guarda-redes jovem, quando está na baliza, gosta que a primeira bola seja frontal, para poder defender, e que não seja muito complexa, para ganhar confiança. Já com aquela idade, o que me dava confiança e que queria que acontecesse era um cruzamento longo e que me permitisse fazer aquilo que eu mais gostava. A minha primeira intervenção foi um cruzamento bem de longe que me permitiu segurar e agarrar a bola. Ainda me lembro da ovação extraordinária dos adeptos, após agarrar a bola no meio dos avançados. Aquilo que tive que fazer, fi-lo tranquilamente, com a ajuda dos meus colegas. Resolvi todos os problemas que fui tendo. São jogos de grande entrega e agressividade. Não dá sequer para respirar, porque a bola tanto está de um lado como do outro. Tivemos uma supremacia em alguns momentos do jogo.

Utilizo a grande máxima de que os clássicos não se jogam: ganham-se. Tal como as grandes finais. Essa máxima foi o que ajudou a fazer a cultura do FC Porto. Em determinados momentos, sabíamos que do outro lado havia mais qualidade, mas depois em entrega, compromisso e no espírito, dávamos sempre goleada. Era nesse princípio que dávamos sequência ao que já existia, que era a famosíssima mística. O Benfica tinha grandes estrelas internacionais, mas nós éramos jovens, na sua grande maioria, que nasceram no clube, com um misto de experiência, com o João Pinto à cabeça, que nos transmitia o que era mais importante naqueles momentos.

O Benfica com aquele empate acabou por ser campeão ali. Era a última oportunidade que tínhamos de chegar perto e retirar alguma confiança ao Benfica. Tivemos oportunidades mas não conseguimos.

As sensações não são diferentes para o José Sá. A abordagem é igual: o querer fazer bem, a motivação de poder jogar e, depois, o privilégio de poder, enquanto jovens, jogar a este nível. É um privilégio para os dois, mas a conjuntura é mais favorável ao José Sá [do que ao Bruno Varela], porque vem de bons resultados e o Benfica de menos bons, à exceção do último jogo. Isso, para um guarda-redes que está no início de carreira e está a tentar cimentar o seu lugar, é mais benéfico jogar com um ambiente positivo do que o contrário. José Sá joga em casa, tem jogado muito bem e tem consolidado o seu lugar também.

Hoje acredito que o FC Porto ganha por 1-0 ou 2-1. Como diz o outro, qualquer ‘meio a zero’ é bom. São jogos de grande intensidade e equilíbrio.

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