Tiago Craveiro
Tiago Craveiro Diretor-geral da FPF

Jogar futebol no campo certo

Há quem veja no modelo de negócio dos desportos populares na América um exemplo. Faço parte desse grupo. O conceito de ligas fechadas atribui certeza de receitas e faz com que a competição decorra com apenas alguns percalços quando há lock downs por falta de acordo entre os donos das licenças e os atletas... normalmente por... dinheiro.

Tem é um contra que me faz olhar para aquilo com menos encanto: abaixo de uma NBA ou uma NFL não há compromisso nenhum. Zero.

Essas empresas (há quem lhes chame clubes) confiam que o desporto escolar e universitário produzam o suficiente para que a cada ano possam pescar sem ter de gastar um tostão na cana de pesca, na traineira, nas redes, ou nos pescadores. Chegam à lota e compram.

Não é preciso academias, deteção de talento ou formação. Nada disso. É show. Continuam a chamar-lhe desporto mas na verdade não é. Por definição não é.

Aqui na Europa o que está a acontecer é um quase lock down de 12 empresas em frente a todas as outras. Empresas que, se esta prova de direitos perpétuos de 15 ricos fosse autorizada, não precisariam mais de academias. Deixariam isso para os ‘pobres’ como a Bélgica, a Holanda, Portugal, Argentina, Brasil ou, melhor dito... todos os países que não os deles ou todos os clubes que não os deles.

Vamos então perceber para que querem mais dinheiro, aliás muito mais dinheiro, estes 12 clubes. A resposta é simples: para gastarem com jogadores...

E isto até podia ser uma boa notícia para a classe dos atletas, não fora o caso de esta nova prova significar o fim de milhares de contratos de outros tantos milhares de futebolistas, simplesmente porque os seus clubes, os outros, seriam torpedeados no acesso a receitas por uma liga nova, fechada e feita de marcas que, pasme-se, até nunca venceram uma Liga dos Campeões.

Quantas provas europeias ganharam o City ou o Tottenham? Quantas vezes teria o Benfica ou o FC Porto sido campeão nesta fórmula? Porque é mesmo isso... estas 12 empresas odeiam o Benfica, o Sporting, o FC Porto, o Ajax, a Atalanta, o Leicester, o Lyon... e todos os que ousem criar tanta competência que muitas vezes não dependem de mais dinheiro para lhes bater o pé.

Quais aristocratas, vendilhões de uma Roma subordinada ao imperador habitual, esse mesmo que quando ganhava troféus atrás de troféus escondeu a espada e se fez de plebeu enquanto construía o seu palácio para ter um reino só seu. Uma espécie de aldeia gaulesa onde só entra quem ele decide.

Com este movimento e sem medo nenhum – acreditem – de que os expulsem de ligas ou que proíbam atletas de irem às seleções, estas empresas estão desvairadas. Isso mesmo. Nenhuma delas quer regras. Nenhuma se perguntou sequer onde colocará a jogar a sua equipa de juniores, de juvenis ou de iniciados se forem expulsos das suas federações. Sabem porquê? Porque não precisam deles... vejam lá atrás no texto... eles comprarão tudo feito.

Curioso é que quase cada parágrafo do anúncio, pela meia-noite de um domingo, hora e dia adequados para anúncios sérios e importantes, fala de dinheiro. Milhões, milhares de milhões.

No primeiro parágrafo dizem o que pensam de si... "clubes mais importantes da Europa". No segundo desfilam os nomes na passerelle e no terceiro mentem como no primeiro... querem falar com a UEFA...

No quarto parágrafo entram numa paródia absoluta até ao fim: o projeto vai servir para distribuir mais recursos à "pirâmide do futebol no seu conjunto". Como se a palavra conjunto fosse algo com que se importem para lá dos muros que construíram.

A partir daqui colocam as cartas na mesa. Atiram números de quanto vão ganhar cada um, numa espécie de "se me deres igual acabo já com isto".
Curiosamente no documento, antes de começarem as declarações do autoproclamado presidente Florentino, não há nem meia palavra sobre a dita distribuição pelo "conjunto". Isso está lá no início apenas para a imprensa ler o texto até ao fim.

O que se segue? Uma batalha em que a UEFA, todas as federações, todas as ligas nacionais e 99,9% dos clubes europeus estarão de um lado e estas empresas estarão do outro.

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