Opinião

Miguel Salema Garção Gestor e antigo dirigente do Sporting

Centralização: oportunidade estratégica ou mera redistribuição de receitas?

Adicione como fonte preferencial no Google

A centralização dos direitos audiovisuais do futebol profissional português é frequentemente apresentada como uma das reformas mais importantes das últimas décadas para o setor. No entanto, a sua implementação levanta uma questão fundamental: estará o mercado perante um verdadeiro mecanismo de criação de valor ou apenas perante uma nova fórmula de repartição das receitas existentes?

A experiência internacional demonstra que a venda coletiva dos direitos televisivos pode constituir uma poderosa alavanca de crescimento. Os principais campeonatos europeus transformaram este modelo numa ferramenta de valorização comercial, aumentando a capacidade negocial das ligas, reforçando a previsibilidade financeira dos clubes e criando produtos mais atrativos para operadores, patrocinadores e investidores.

Em Portugal, porém, o desafio vai muito além da alteração do modelo contratual.

O sucesso da centralização dependerá da capacidade da Liga em aumentar o valor global do produto que coloca no mercado. Sem crescimento efetivo das receitas, a reforma corre o risco de produzir apenas uma redistribuição dos recursos existentes entre os diferentes participantes da competição.

Nesse contexto, os clubes de menor dimensão tendem a ser os principais beneficiários da mudança. Uma repartição mais equilibrada poderá proporcionar maior estabilidade financeira, reduzir a dependência de receitas extraordinárias e melhorar a capacidade de planeamento a médio prazo. Para muitos destes clubes, a previsibilidade das entradas de caixa representa um ativo tão importante quanto o montante recebido.

Já para os maiores emblemas, a equação apresenta maior complexidade. Habituados a negociar individualmente contratos de elevado valor, os clubes com maior capacidade de gerar audiências poderão enfrentar um potencial efeito de diluição das suas receitas relativas, caso o crescimento global do mercado não compense a perda de poder negocial individual.

A questão central reside, por isso, na criação de valor adicional. E é precisamente neste ponto que surgem os maiores desafios.

O futebol português continua a enfrentar limitações estruturais no plano internacional. Apesar da reconhecida capacidade de formação de talento e da competitividade demonstrada por alguns clubes nas competições europeias, a Liga portuguesa permanece distante dos níveis de exposição mediática alcançados pelos principais campeonatos do continente.

A internacionalização dos direitos audiovisuais continua a representar uma oportunidade por concretizar. A concorrência das grandes ligas europeias absorve uma parte significativa da procura global por conteúdos desportivos, dificultando a valorização dos campeonatos de dimensão intermédia. Consequentemente, a margem para aumentar receitas através da venda internacional de direitos permanece condicionada por fatores de mercado que ultrapassam a própria reforma.

Do ponto de vista dos investidores e financiadores, a centralização poderá, ainda assim, produzir efeitos positivos. Uma estrutura de receitas mais previsível tende a reduzir o risco operacional dos clubes, melhorar indicadores de sustentabilidade financeira e aumentar a visibilidade sobre fluxos de caixa futuros. Estas características são particularmente relevantes num setor historicamente marcado pela volatilidade dos resultados desportivos e financeiros.

Contudo, a reforma apenas atingirá o seu potencial máximo se for acompanhada por uma estratégia comercial robusta. A valorização da marca Liga, a modernização dos formatos de transmissão, o reforço da presença digital e a captação de novos parceiros comerciais serão fatores decisivos para transformar a centralização numa verdadeira operação de crescimento.

Mais do que uma alteração administrativa, o processo representa um teste à capacidade do futebol português para se afirmar como um produto de entretenimento competitivo num mercado global cada vez mais disputado. O objetivo não deverá ser apenas repartir melhor as receitas existentes, mas criar condições para aumentar o valor total gerado pela indústria.

A diferença entre sucesso e fracasso poderá resumir-se a uma única questão: a centralização servirá para dividir o mesmo bolo ou para fazer crescer o mercado?

A resposta determinará não apenas o impacto financeiro da reforma, mas também a competitividade futura do futebol português.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade