Opinião

Ricardo Andorinho Ex-internacional andebol e fundador da Sportrack Network

800 mil pagam para que 100 cheguem lá. É hora de o dizer em voz alta

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Aos 12 anos, entrei pela primeira vez num pavilhão para disputar um campeonato nacional de andebol. Não sabia, nessa altura, que estava a entrar também num sistema, um sistema que, décadas depois, do outro lado da secretária, como administrador de sistemas na Federação de Andebol de Portugal, eu veria por dentro, com números à frente dos olhos. Joguei mais de 150 jogos pela Seleção Nacional. Vesti a camisola do Sporting Clube de Portugal. E, ainda assim, digo-o sem qualquer conforto: o modelo que sustenta o desporto português está esgotado há muito tempo. Não porque falte paixão, nem talento. Falta-nos coragem para olhar para os números e admitir o óbvio.

Esta segunda-feira lembrou-nos disso mesmo

Portugal acabou de ser eliminado do Mundial 2026 nos oitavos de final, derrotado pela Espanha com um golo sofrido já em tempo de compensação. É também o último Campeonato do Mundo de Cristiano Ronaldo, que se despede da competição sem o único troféu que lhe faltava. Nos próximos dias, o país inteiro vai falar sobre isto — sobre o que falhou, sobre o que podia ter sido diferente, sobre o legado de uma geração. É justo que assim seja: o futebol é, de longe, a maior montra do desporto português.

Mas há um contraste que vale a pena olhar de frente, precisamente porque quase ninguém o faz. Enquanto a nossa seleção competia, a FIFA consolidava aquele que já é, oficialmente, o ciclo comercial mais lucrativo da sua história: mais de 10,9 mil milhões de dólares em receitas previstas para o Mundial 2026, um crescimento de cerca de 56% face aos 7 mil milhões arrecadados no Qatar em 2022. Só em patrocínios, as estimativas de mercado apontam para valores recorde, entre 1,8 e 2,8 mil milhões de dólares — mais do que a FIFA alguma vez recebeu de marcas em qualquer edição anterior. A isto soma-se ainda um crescimento superior a 200% na receita de bilhética e hospitalidade, turbinado pela realização do torneio nos Estados Unidos, no maior mercado publicitário do mundo.

Não escrevo isto para diminuir o Mundial, nem para fingir que o futebol de seleções não merece este destaque comercial — merece, e há décadas que o conquistou. Escrevo isto porque a distância entre estes números e a realidade dos outros 800 mil atletas federados em Portugal é, ela própria, uma lição sobre o que este artigo tenta dizer: o desporto, enquanto negócio global, nunca esteve tão bem financiado. O desporto, enquanto sistema de desenvolvimento de pessoas — sobretudo fora do futebol, sobretudo antes da fama — continua exatamente onde estava há vinte anos. É essa contradição, entre a fortuna que o desporto de topo movimenta e a pobreza estrutural que sobra para quem ainda está a construir o seu caminho, que me move a escrever este artigo.

Um modelo pensado para 100, pago por 800 mil

Portugal tinha, em 2024, mais de 844 mil atletas federados — o valor mais alto de sempre, segundo o INE. É gente a sério: filhos, mensalidades, treinos ao fim do dia, fins de semana em competições. É a base de tudo o que o desporto português diz orgulhar-se de ser.

Dessa base gigantesca, apenas uma fração residual — pouco mais de 70 a 90 atletas em cada ciclo — chega a integrar o Programa de Preparação Olímpica, o único patamar onde existe, de facto, uma bolsa mensal estruturada por parte do Estado. E mesmo aí, os valores não são o que a maioria das pessoas imagina: entre 800 e 1.750 euros líquidos por mês, num sistema de quatro patamares em que só quem já subiu a um pódio mundial ou olímpico atinge o teto. A generalidade vive no chão da tabela.

Não preciso de inventar nada disto — os números são públicos. O que faço, que poucos se atrevem a fazer, é juntá-los e dizer em voz alta o que eles significam: temos um sistema desportivo nacional que existe, na prática, para servir uma centena de pessoas, financiado indiretamente por 800 mil famílias que pagam, todos os meses, para que os seus filhos joguem à bola, nadem, façam andebol ou ginástica — sem que a esmagadora maioria dessas famílias alguma vez veja um cêntimo de retorno estruturado, seja em bolsa, seja em apoio à carreira.

Sei do que falo porque já estive dos dois lados desta equação. Vivi o sistema como atleta, servi-o como dirigente, e é exatamente por isso que não posso continuar calado.

Porque é que isto não cativa ninguém

Ninguém entra para um clube aos 6 anos a pensar em bolsas de 800 euros. As crianças entram porque querem jogar, e os pais inscrevem-nas porque acreditam que o desporto lhes vai fazer bem — à saúde, à disciplina, à vida em grupo. Mas o que acontece a seguir é previsível: os custos começam a acumular-se — inscrição no clube, inscrição na federação, exame médico obrigatório, equipamento — e, por volta dos 13 anos, mais de metade dos jovens abandona a prática desportiva organizada. Não é coincidência. É a idade em que a distância entre o sonho e a realidade da alta competição se torna gritante, e em que as famílias começam a questionar se vale a pena continuar a pagar por um caminho sem visibilidade nem garantias.

E mesmo para quem persiste, para quem tem o talento e a disciplina para chegar longe, o sistema não lhes oferece nada de concreto até ao dia em que, talvez, entrem para essa centena de eleitos. Entre a inscrição aos 6 anos e a eventual bolsa aos 20, há uma década de investimento privado, silencioso e, na maior parte dos casos, sem qualquer retorno. Isto não é um sistema que desenvolve talento. É um sistema que o deixa sobreviver — e só recompensa quem sobrevive até ao fim.

Um passo internacional na direção certa — mas que ainda não chega

Enquanto escrevia este artigo, o Comité Olímpico Internacional anunciou aquilo que Pau Gasol, presidente da Comissão de Atletas do COI, descreveu como um momento inédito: a partir de Milão-Cortina 2026, todos os atletas Olímpicos — não só os medalhados — vão ter direito a uma bolsa de 10.000 dólares (cerca de 9.300 euros), através do programa "Fit for the Future". É um fundo de 140 milhões de dólares por Olimpíada, para cerca de 14 mil atletas em todo o mundo, com uso livre: pode servir para sustentar a carreira ou para preparar a transição para a reforma desportiva.

Aplaudo esta medida sem reservas. É a primeira vez que uma organização deste peso reconhece, publicamente, que o simples facto de chegar aos Jogos Olímpicos já justifica apoio direto — não só o pódio. É exatamente o princípio que defendo neste artigo, só que aplicado, finalmente, a uma escala global.

Mas — e digo isto com todo o respeito pelo passo dado — mesmo esta bolsa só chega a quem já é Olímpico. Continua a não chegar aos milhões de atletas, em Portugal e no mundo, que nunca vão pisar uma Vila Olímpica, mas que enfrentam os mesmos riscos de uma carreira desportiva mal preparada. E, mais importante ainda: um cheque, por mais bem-vindo que seja, não resolve sozinho aquilo que hoje já sabemos, com dados na mão, ser o verdadeiro problema.

Um inquérito da Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, é claro quanto a isso: 57,9% dos atletas de alta competição descreveram a transição para o pós-carreira como "difícil" ou "muito difícil". 15,3% mantêm um consumo excessivo de álcool, sobretudo depois de terminarem a carreira. 18% já tiveram, ou têm, uma doença mental diagnosticada — e 30% desses nunca chegou a fazer qualquer tratamento. Isto não é uma questão de dinheiro insuficiente. É uma questão de acompanhamento inexistente.

Nenhuma bolsa, por maior que seja, substitui anos de acompanhamento psicológico, financeiro e educativo, construído desde o primeiro dia de carreira e não apenas entregue à saída. É esse o vazio que continua por preencher — em Portugal e no mundo — e é esse o vazio que me levou a construir a Sportrack.

Foi por isto que construí a Sportrack

Não escrevo isto como crítica gratuita. Escrevo porque decidi fazer algo a esse respeito. Depois de ver este problema por dentro — como atleta e como dirigente — construí a Sportrack Network com um princípio muito simples: os fundos angariados para apoiar um atleta têm de chegar a esse atleta, individualmente, de forma verificável.

Na Sportrack, cada contribuição é reportada e paga diretamente no NIF de cada Atleta — não existe uma bolsa comum, opaca, gerida por terceiros, onde ninguém sabe exatamente quanto chegou a quem. Garantimos acessibilidade a qualquer modalidade, não só às que já têm visibilidade mediática ou resultados internacionais. Construímos uma rede de parceiros nacionais, experientes na indústria do desporto, que apoiam programas de inclusão, e de educação desportiva, financeira e de saúde desportiva — porque um atleta não é só o resultado que consegue em competição, é também a pessoa que precisa de perceber como gerir o dinheiro que recebe, como cuidar do corpo a longo prazo, e como preparar aquilo que vem depois da carreira.

Não é caridade, e não é substituir o Estado — é reconhecer que, enquanto o Estado só consegue (e só deveria, dada a natureza pública dos seus recursos) apoiar estruturadamente uma centena de atletas por ciclo, os outros 800 mil e tal continuam à espera de alguém que lhes garanta o mesmo rigor, a mesma transparência e o mesmo profissionalismo — só que à escala de todos, e não apenas dos eleitos.

A coragem que falta

Sei que é desconfortável dizer isto em voz alta. O desporto português vive de histórias bonitas — e há muitas, verdadeiras e merecidas. Mas por trás de cada medalha há centenas de milhares de famílias que pagaram, ano após ano, para que o sistema continuasse de pé, sem nunca lhes ser explicado com clareza para onde vai o resto do dinheiro, nem porque é que o apoio estruturado só chega a quem já não precisa tanto dele.

Não tenho todas as respostas. Mas tenho a certeza de uma coisa: se continuarmos a tratar este assunto como tabu, vamos continuar a perder, todos os anos, milhares de jovens com talento genuíno — não por falta de capacidade, mas por falta de uma estrutura que os acompanhe antes de chegarem ao pódio, e não apenas depois.

Foi por isso que decidi agir. E é por isso que continuo a acreditar, todos os dias, na frase que orienta tudo o que fazemos na Sportrack: vamos fazer a diferença na vida de cada Atleta registado. Juntos.

Ricardo Andorinho é antigo internacional português de andebol, ex-administrador de sistemas na Federação de Andebol de Portugal, e fundador da Sportrack Network. 

Fontes de apoio aos dados citados: Instituto Nacional de Estatística (INE), "Desporto em Números" (2023-2024); Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ); Comité Olímpico de Portugal; jornal Público; Sports Value (projeções de receita FIFA Mundial 2026 vs. Qatar 2022); Jornal de Notícias e SOL (eliminação de Portugal do Mundial 2026); Comité Olímpico Internacional / olympics.com (programa "Fit for the Future Olympian Grant"); Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal e Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (inquérito sobre saúde mental pós-carreira).

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