A aprendizagem de Lopetegui
Numa entrevista recente de Julen Lopetegui ao "El País", um jornalista espanhol fala sobre a revolução que o basco está a implementar no Dragão. Até aqui tudo bem. Com 16 jogadores novos e uma equipa muito jovem, o desafio é grande e a equipa do FC Porto tem tido no tempo, como se está a verificar, o melhor conselheiro para consolidar os seus princípios de jogo.
No entanto, as linhas que se seguem (ditas pelo entrevistador e não por Lopetegui) são completamente descabidas. "Para um clube como o FC Porto, que conquistou a sua última Liga dos Campeões em 2004, dirigido por Mourinho e constituído por jogadores veteranos que cavavam trincheiras e renunciavam à bola, o câmbio de princípios roça o conflito." Esta citação, por si só, revela o total desconhecimento que a maioria dos espanhóis tem do futebol português e das suas principais equipas.
Ao longo das últimas décadas, o FC Porto sempre teve como filosofia um futebol ofensivo, pressionante, com profundidade e baseado na posse de bola. Foi assim que os dragões chegaram às grandes conquistas internacionais e deram a conhecer estrelas como Deco, Hulk, Falcão ou James Rodríguez. Mas aos olhos de um espanhol, a equipa sempre jogou em contra-ataque. Uma análise sem qualquer fundamento. A posse da bola sempre fez parte do ADN do clube e foi certamente um dos critérios de Pinto da Costa na escolha do novo treinador. E quem conhece o trabalho de André Villas-Boas e Vítor Pereira, sabe que as ideias de Lopetegui são um regresso ao passado.
Mais do que a competência ou o conhecimento, porque isso já provou que tem, o grande risco na contratação de Julen Lopetegui estava precisamente em perceber se o seu nível de compreensão do futebol português era mais aprofundado do que, por exemplo, o deste seu compatriota do "El País". E a par do treinador, podem juntar-se também nesta análise os vários jogadores que este ano trouxe do país vizinho.
As especificidades e ambientes dos estádios nacionais, a forma de jogar das equipas lusas e as rivalidades existentes entre estas, o grande conhecimento tático dos treinadores portugueses ou a pressão existente nos clássicos com Benfica e Sporting são variáveis que mexem sempre com o arranque do trabalho de um treinador estrangeiro em Portugal, que podem custar pontos em determinados momentos devido a uma curta avaliação do adversário.
Isso já aconteceu esta época com Lopetegui. Mas o treinador espanhol tem mostrado inteligência e capacidade de reação a estas contrariedades. Nota-se que hoje já tem uma visão mais completa do que é o futebol português e, mais importante do que isso, um conhecimento profundo sobre o que é representar o FC Porto. Está a beber a cultura do clube, ao mesmo tempo que já conhece melhor os seus jovens jogadores e tem a equipa mais entrosada a ganhar jogos nas pernas e experiência. E o discurso mais enérgico do técnico nos últimos tempos também é reflexo desta realidade.
Lopetegui está mais enquadrado com o contexto do futebol que o acolheu. Com essa aprendizagem, supera um teste muito importante. Com o FC Porto a entrar agora num importante ciclo de jogos, a equipa parece preparada para o desafio, motivada com o encurtar da distância para o Benfica na Liga e com a chegada dos oitavos de final da Champions, que podem catapultar a equipa para um nível ainda maior. Em três frentes distintas, todos os jogos serão finais.
O CRAQUE
Fiabilidade garantida
É uma peça essencial na equipa do Benfica. A consistência exibicional de Maxi Pereira faz dele um elemento imprescindível nas escolhas de Jorge Jesus. O lateral uruguaio é daqueles que não vira a cara à luta, nunca desiste e, além de fechar o flanco, sobe no terreno para criar perigo. Criticado por vezes pela excessiva dureza, algo que tem a corrigir, Maxi é daqueles atletas que os treinadores gostam de ter no plantel. O modo como já travou Brahimi e Nani neste campeonato, os dois melhores extremos da Liga, é exemplar da sua importância nas águias.
A JOGADA
No rasto de Danilo
Não admiram as notícias desta semana que apontam Barcelona e Real Madrid como os principais clubes interessados na aquisição do lateral-direito do FC Porto. Aos 23 anos, Danilo já é um dos melhores jogadores da Europa na sua posição. A sua contratação causou espanto, pelos elevados valores que estiveram envolvidos, mas tudo indica que será um investimento com bom retorno e uma aposta ganha pelos dragões. Não deve ser regra, mas por vezes, vale mais uma contratação cara e certeira, do que cinco aquisições baratas que falham. Tudo deve ser feito com critério e boa prospeção.
A DÚVIDA
Um fosso a aumentar
Para o período 2016-2019, os direitos televisivos da liga inglesa foram vendidos por 6,9 mil milhões de euros, um acréscimo de 70% em relação ao triénio anterior. Este contentor de dinheiro promete aumentar ainda mais o fosso financeiro entre os ricos clubes ingleses e restantes clubes europeus. A Premier League está a transformar-se numa espécie de NBA, canalizando para si a maior fatia do investimento no futebol. Face a isto, em Espanha, equipas como o Valencia pretendem que os direitos da liga espanhola sejam também centralizados. Deveria a UEFA intervir nesta matéria? E o que será feito em Portugal?
