A arte de José Mourinho
1 Enquanto os defeitos apontados ao treinador José Mourinho estiverem relacionados, apenas e só, com arrogância e presunção; sempre que a análise aos seus conhecimentos técnicos de hoje estiver condicionada aos tempos já longínquos em que foi tradutor de Bobby Robson; de cada vez que tentarem atingi-lo com a arma do currículo vazio, considerando indiferente, entre outras coisas, o curso superior tirado na Universidade de Barcelona, os adeptos do futebol podem ficar descansados – e aos do FC Porto está autorizada a gargalhada. São sinais que anunciam ignorância e inveja; é a confusão propositada entre o acessório e o essencial; é a frivolidade eternamente condenada a terminar em estupidez, essa praga para a qual a ciência parece já ter cura. Um dia destes, Mourinho ganha SuperLiga, Taça de Portugal e a competição europeia em que está envolvido, modera o discurso e torna-se mais simpático; os inimigos calam-se, engolem em seco e esperam uma vida inteira se for preciso pelo ajuste de contas final – canalhices de que Artur Jorge, Paulo Sousa e mais recentemente Vítor Baía já foram vítimas.
2 A arte de José Mourinho – e essa vem de trás – tem sido manter-se fiel a elementares princípios da função de treinador: gestão de emoções, interesses e sensibilidades no grupo; estímulo máximo aos laços de solidariedade e competição entre os seus elementos; respeito absoluto pela ideologia que orienta e une a instituição. A esse plano acrescentou um projecto futebolístico adequado, uma ideia técnica e táctica global que os jogadores entenderam, assimilaram e diversificaram com a sua própria criatividade. O FC Porto é uma equipa em que os seus componentes têm funções tão claras que a palavra surpresa não faz sentido; uma comunidade em que todos dão a cara, assumem responsabilidades e é expressamente proibido brincar às escondidas; uma autêntica máquina trituradora na qual o jogo combinado, com e sem bola, tem lógica conceptual abrangente, com origem na perfeição funcional de cada sector.
3 Ao contrário de outros técnicos – e a entrevista de Luiz Felipe Scolari à RTP, na passada semana, constitui um dado preocupante –, José Mourinho sabe que o futebol tende a afastar-se dos laboratórios que danificam o instinto, das praças de touros que aumentam a brutalidade ou das igrejas universais do reino de Deus que promovem a estupidez. Ele, felizmente à semelhança de muitos mais, sabe que o futebol caminha sim para as grandes salas de espectáculo, nas quais o treino desempenha o papel do ensaio e o jogo é o culminar de um trabalho colectivo também alimentado pelo objectivo da casa cheia e do conceito estético respeitador da sensibilidade das plateias. Mourinho é ainda a imagem de quem recusa gerir uma equipa contra os jogadores, seus valores e características, pela mesma razão inteligente que um cineasta não pode fazer filmes contra os actores ou um maestro jamais terá sucesso em conflito com a sua orquestra.
4 O FC Porto 2002/03 é a mais brilhante equipa do futebol português desde que as grandes figuras da geração de ouro partiram para o estrangeiro. Nela estão concentrados os alicerces do passado, nas figuras de Vítor Baía, Jorge Costa, Secretário, Paulinho Santos e Capucho (porque ter memória é fundamental) e a segurança das pontes que ligam ao futuro, emoção de que Hélder Postiga, Paulo Ferreira, César Peixoto, Ricardo Carvalho e Ricardo Costa são portadores (porque o sonho comanda a vida); nela são ainda evidentes os apelos à revolta de Maniche, Nuno Valente e Tiago (porque o êxito pode ter a força da vingança) e à paixão pelo jogo que orienta as condutas e o talento de Deco, Costinha, Derlei, Jankauskas, Pedro Emanuel e Alenitchev (porque nada se consegue sem compromisso, sentimento e espírito de aventura). Em suma, porque todos fazem do futebol uma questão de honra, o FC Porto não receia viver segundo os princípios, tantas vezes adulterados e até invertidos, das grandes equipas: máxima liberdade assente no mínimo de ordem indispensável.
