A arte de voar com pés no chão

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1. Por saber que o vedetismo é um passo na direcção da estupidez; por ser uma equipa impermeável à perversidade do êxito (deslumbramento e vaidade) e ao veneno do fracasso (depressão e conflito); por acreditar nas suas capacidades sem subestimar os adversários, o Nacional da Madeira é uma das grandes potências da Liga, ao fim de 12 jornadas da competição. Uma equipa fantástica, orientada por plano de viagem que antecipa a surpresa e permite interpretar todos os factos (bons e maus) que o jogo cria; uma equipa inteligente e confiante, que tem triturado obstáculos com impressionante regularidade - esse factor determinante e que, a este nível, costuma expressar-se em períodos mais curtos. Toda uma obra com origem na visão superior de um homem.

2. Manuel Machado consolidou a ideia e não mudou uma vírgula ao discurso; não renunciou ao estilo nem concedeu um sorriso; limitou-se a manter fidelidade aos fundamentos do trabalho e aos princípios que o orientam como cidadão. Se há treinadores que chocam contra a realidade, ele adapta-se; se outros procuram revolucionar o meio em que vivem, ele avalia, gere e melhora o que lhe oferecem. O resultado foi a formação de um conjunto no qual todos cumprem as obrigações solidárias (correm, marcam, ajudam atrás, aparecem à frente, ocupam espaço e raramente se enganam); mas, porque o talento se consolida na competência e cresce na prosperidade, também criou condições para dar a bola aos jogadores. Um trabalho tão sigiloso que só agora nos apercebemos de que as vitórias também estão cheias de nomes próprios.

3. Atrás, onde faz falta responsabilidade, prudência, concentração e entrosamento, o Nacional apresenta uma defesa que valoriza ordem, equilíbrio e segurança, construída por gente sóbria, segura, racional, motivada e eficaz. Miguelito é o melhor lateral-esquerdo português da actualidade, à volta de quem a equipa versatiliza boa parte do processo ofensivo, sobretudo nas transições (mais influente do que Patacas); Ávalos está no ponto máximo da carreira, como central de qualidade superior (Ricardo Fernandes completa-o na perfeição); Bruno e Chainho são as traves mestras da casa, a dupla que estabiliza e agita, que trava e acelera, que organiza e desequilibra; André Pinto é o goleador de serviço e Benaglio, que começou como terceiro guarda-redes, tem agido, aos 22 anos, com o esplendor de um veterano – um golo sofrido em 8 jogos!

4. Assente numa estrutura de ferro, o Nacional continua a escalada silenciosa, com as ambições moderadas pelo bom senso. Manuel Machado já conquistou uma parcela do Everest, razão pela qual deve usufruir da paisagem deslumbrante e respirar o ar puro da montanha, na esperança de que o tempo seja indolente e prolongue a felicidade o mais possível. Porque não tem a vertigem das alturas e não permite que o sucesso o afecte, inspirar-se-á nestas sensações para prosseguir o caminho; mesmo sabendo que ainda não é desta que vai chegar ao topo do Mundo, a passagem pelo primeiro lugar na Liga representa um feito inesquecível para o clube e seus adeptos. Manuel Machado pode não ter intenções de voto como candidato ao título, mas recolhe unanimidade naquilo que merece: a admiração de todos nós.

Flanco direito

EU DAVA-LHE UMA OPORTUNIDADE. Uma semana depois do grande golo no Dragão, apontado no último minuto de um jogo decidido, Marcel repetiu a graça frente ao Estrela. Só que este foi ainda mais bonito e valeu uma vitória à Académica. O tiro do brasileiro tem força e colocação sem paralelo em Portugal e constitui a grande arma de um avançado com todas as condições, físicas e técnicas, para jogar numa grande equipa. Eu dava-lhe uma oportunidade.

UM GOLO PARA TANTA GENTE. Ao assinar uma das mais extraordinárias prestações individuais em 2005/06 (jogou como um Deus, frente ao V. Guimarães), Carlos Martins não escondeu a ansiedade com que reagiu às preciosidades que gerou, sinal de que vive em permanente intranquilidade. É difícil alguém afirmar-se enredado na convicção de que um golo ao adversário serve, também, para marcar ao treinador, aos adeptos, aos jornalistas, etc. Vamos com calma: será criminoso desperdiçar um craque destes.

COMO LANCE ARMSTRONG. Lucho González tem perdido sucessivas eleições para melhor reforço da Liga 2005/06. Mas, quanto mais joga, maior é a convicção de que estamos perante um dos raros futebolistas de classe mundial que pisam relvados portugueses. A história recupera a tradicional indiferença do grande ciclista para com os sprinters que vencem as primeiras etapas; nessa corrida imaginária, Lucho faz de Lance Armstrong. No fim, será o número 1.

Um jogo com duas arbitragens

O futebol paralisa na teia de aranha das novas tecnologias. A consequência principal dessa loucura que serve, acima de tudo, para alimentar a perversão do erro, é quase dramática. O jogo, sendo um só, é arbitrado duas vezes: em campo, do modo tradicional; na televisão, com a comodidade das repetições, das câmaras às dezenas, dos ângulos inversos e restante panóplia de argumentos. Que o árbitro se engane é legítimo, por muito que custe aceitá-lo; que, depois, os comentadores não se entendam, é a prova de que, afinal, o erro não foi tão grave quanto julgávamos.

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