A arte superior de quem defende
1. Vive debaixo de regras apertadas, inerentes à responsabilidade da missão que desempenha e da margem mínima de erro que lhe é concedida; numa zona em que a precisão dos gestos é fundamental, Ricardo Carvalho começa por antecipar-se ao tempo (primeiro sinal de grande jogador) e adivinhar a quase totalidade dos movimentos ocorridos à sua volta - arma da intuição com a qual evita a dependência excessiva dos argumentos físicos. Porque domina os parâmetros básicos do lugar que ocupa e continua a dar lições de inteligência, segurança e eficácia, já ganhou direito a fazer parte da enciclopédia dos centrais mais completos da actualidade. Se a história do futebol é cruel para com os defesas, porque a memória valoriza a estética e penaliza a grosseria, poucos como ele reúnem consenso tão alargado de opinião.
2. Ricardo Carvalho é poderoso nos despiques directos, seguro a fechar diagonais defensivas e cirúrgico no modo como avalia os tempos de contenção e desarme para travar os mais habilidosos; não perde a marcação em zonas problemáticas, sabe compensar o espaço perdido e é perfeito a posicionar-se seja qual for a circunstância. Sendo um óptimo gestor da vantagem, corrige erros instantaneamente; valendo por si próprio, sabe dividir a acção com o parceiro do lado, cumprindo a sua parte numa daquelas pequenas sociedades que dão forma à comunidade mais vasta que é a equipa. Tem alucinante velocidade de pernas e é quase insuperável no jogo aéreo - posiciona-se bem perante os avançados e actua ainda melhor sobre a bola. No fim, prova que jogar fácil em situações delicadas continua a ser uma arte rara no futebol.
3. Empenhado em reduzir as opções da acção atacante - vai eliminando soluções ao adversário até roubar a bola e ir embora -, não recusa os princípios básicos da tarefa: se o sinal de alarme dispara, sabe utilizar a picardia e recorrer à contundência para manter a ordem e impedir o sucesso das investidas inimigas. O que o distingue é precisar menos de golpes baixos para se impor e mais da correcta leitura de tudo quanto sucede no seu raio de acção. Decifrar sucessivamente, durante três horas, as intenções de Ruud van Nistelrooy, por exemplo, anulando-o com total limpeza de processos, só está ao alcance de uma elite. A vitória no duelo com um dos melhores pontas-de-lança do Mundo identifica-o como superior talento defensivo.
4. Ricardo Carvalho tem agora responsabilidades acrescidas. Dono de qualidades técnicas, tácticas e físicas, que expressa regularmente em todos os palcos, precisa apenas de não desaproveitar as benesses do tempo. É fundamental que interprete a importância da continuidade dos actos para enquadrar a autoconfiança; que o prestígio cada vez maior o estimule a prosseguir o caminho e não funcione como álibi para se desleixar na evolução; que a eficácia crescente seja um meio para cimentar a autoridade, nos bons e maus momentos, e não um sinal de plenitude prematura. Aos 25 anos, Ricardo Carvalho atravessa apenas uma fase exuberante da carreira. Nada de mais para quem pode, a breve trecho, transformar-se em referência mundial na sua posição.
Passe curto
O CAPITAL DE PENA. Pena marcou ao Paços de Ferreira e saiu disparado para as bancadas. Aproveitou o capital e pôs as coisas no lugar, recriminando os adeptos pela falta de apoio. Com razão. A época do Sp. Braga, que consagra a competência de Jesualdo Ferreira, não pode ser avaliada com tanta leveza.
TODOS OS GOSTOS. Numa noite, Jankauskas fez mais golos que em toda a época. Marcou com o pé direito, de cabeça e com o pé esquerdo. Resultado: o FC Porto venceu 3-1 e está na final da Taça . No fim, Mourinho agradeceu. Não fez mais que a sua obrigação.
DE NOVO CARLOS MARTINS. Tomou-lhe o gosto e não quer outra coisa: Carlos Martins marcou em Barcelos (valeu o empate) e lançou o Sporting para a vitória com o Alverca. Depois de renovado o contrato até 2006, o jovem maestro expressa com frequência cada vez maior o potencial escondido nos treinos e na Selecção Sub-21.
JUSTIÇA COM MARCO AURÉLIO. Sofreu um golo esquisito, que ditou a derrota do Belenenses com o Nacional. Talvez seja o momento certo para recordar os pontos que já deu a uma equipa que tem vivido em boa parte à custa da sua qualidade. Marco Aurélio é um dos melhores guarda-redes da SuperLiga e não é por um golo que deixou de o ser.
Os argumentos de Luís Boa Morte
Nunca actuou na SuperLiga; apesar de ter saído para Inglaterra ligado ao Sporting, não tem o suporte emocional da profunda ligação a um grande clube; sobre ele não existem, por tudo isso, referências técnicas tão precisas como em relação a outros que actuam no mesmo lugar. Apesar de tudo, Luís Boa Morte continua a apresentar argumentos que servem para cimentar a candidatura a um lugar no Euro. A época no Fulham tem sido espantosa e até já faz golos de cabeça.
