A aura do profeta Mourinho
No Chelsea restabeleceu harmonia, respeito, admiração e compromisso com uma causa comum. Pode recusar agora o estatuto de candidato ao título, dizendo que nunca lhe exigiram ser campeão; o problema é que, uma vez sem exemplo, ninguém acredita nas suas palavras.
1. Trocou o Special pelo Happy One, anúncio de que se tornou um treinador e, ainda mais relevante, um homem diferente. No regresso a uma casa onde foi feliz, apresentou-se com sorriso apaziguador, discurso consensual e os cabelos brancos que, desde logo, eram (são) a marca de um tempo que passou a correr. José Mourinho abandonou a receita mediática dos anos de ouro mas não correu riscos: no lar de Stamford Bridge é reconhecido como génio absoluto do futebol e não como elemento de arrogância, despudor, capricho, mau feitio, narcisismo e provocação. Ao cabo de seis meses recuperou os célebres jogos psicológicos. Agitou as hostes em vésperas de jogar no Etihad, deu uma lição ao todo-poderoso Man. City, explicou que a palestra tinha sido dada pelo massagista Billy e, dias depois, isolou-se no comando do campeonato.
2. JM restabeleceu no Chelsea harmonia, respeito, admiração e compromisso global com uma causa comum. A família azul assumiu a relação idílica num paraíso inesperado, onde todos remam para o mesmo lado; onde é possível viver acima das expectativas com a segurança de fazê-lo à volta de um mestre que diminuiu protagonismo e se dispôs a cumprir o desígnio de preparar uma equipa para conquistas vindouras. Incrível é tê-lo feito com tanta arte e engenho que, ultrapassados quase todos os obstáculos, mesmo aqueles que, à partida, pareciam intransponíveis, se isolou no topo da tabela à entrada para o último terço da liga. Pode recusar agora o estatuto de candidato ao título, dizendo que nunca lhe exigiram ser campeão; o problema é que, uma vez sem exemplo, ninguém acredita nas suas palavras. A aura de profeta está a atingir proporções gigantescas.
3. Só por presença sentiu empatia popular com o estilo; reconhecimento pela liderança e o entusiasmo dos jogadores por se cruzarem com ele – uns pelo regresso a tempos de glória, outros pela oportunidade de crescerem sob a orientação de um mago. General imponente de um exército feito de jovens com talento ilimitado – Oscar (22 anos), Hazard (23), Schürrle (23), Azpilicueta (24), Willian (25) e Matic (25) –, JM domina todos os elementos relevantes da função para gerir física, emocional e afetivamente as fraquezas de quem já ultrapassou a psicológica barreira dos 30 anos – Lampard (35), Terry (33), Ashley Cole (33), Eto’o (32), Cech (31) e Ivanovic (30).
4. Contra as previsões, tem extraído do novo Chelsea luminosidade acrescida à carreira de ouro que o sustenta. Se fizer evoluir a equipa à medida do talento dos jogadores; se acertar no ataque ao mercado para atenuar os efeitos da veterania de Lampard e Terry; se aumentar o número de títulos e mantiver o clube no topo europeu, consolidará o lugar entre os melhores treinadores da história. Para aumentar a expectativa à volta deste momento de exaltação, tem entre mãos um diamante que, bem lapidado, será dos melhores da história do futebol: Eden Hazard. Quase tão relevante, ficará mais perto de ter no Chelsea a dimensão heroica de que, por exemplo, Alex Ferguson usufrui no Manchester United. Uma história de amor na qual nada se pode excluir. Incluindo uma estátua que o eternize em Stamford Bridge.
Um casamento de conveniência
Fernando tem o valor de exemplar único no plantel portista. Não existe outro elemento que cumpra os mesmos requisitos de eficácia e domínio da função, pelo que a ameaça de rotura nesta fase da época seria um problema gravíssimo para ambas as partes. O clube perderia a sua maior referência no miolo; o jogador corria o risco de ficar parado até junho. Saía a custo zero, ficava milionário mas punha fim ao sonho de jogar o Mundial. O compromisso não foi selado à volta de juras eternas. Foi antes um casamento de conveniência. Também vale.
Um fora-de-série chamado Carlitos
Carlitos é o príncipe da comunidade, um talento sublime que atingiu o ponto mais alto que qualquer jogador pode desejar: ser ídolo para os companheiros, aqueles com quem reparte as emoções do dia-a-dia, do lazer, dos treinos, dos jogos... Vê-lo em ação é uma aventura fascinante, porque tem talento e coragem para testá-lo; porque revela com a bola a relação que só os predestinados conseguem manter; porque faz coisas que, em Portugal, só meia dúzia é capaz. Devia ter ido mais longe, claro que sim. Mas o que faz, aos 31 anos, no Estoril, basta para considerá-lo um fora-de-série.
Rafa chegará onde ele quiser
Rafa iniciou o percurso de uma carreira que chegará onde o destino determinar mas, principalmente, onde ele quiser. Para já teve a sorte de ir parar às mãos de um mestre como Jesualdo Ferreira, um daqueles pedagogos cada vez mais raros, que lhe amorteceu o choque frontal com a nova e exigentíssima realidade. O resto tem ele: futebol da cabeça aos pés, que lhe permite ser decisivo nas alas e no meio; em ações individuais e movimentos combinados; de dentro para fora e de fora para dentro. Se em cima do que joga começa a marcar golos com regularidade, o caso torna-se ainda mais sério.
