A competência tem valor
Por vezes, o futebol é feito de injustiças. O Benfica vulgarizou o atual campeão europeu na final da Liga Europa, mas infelizmente a vitória acabou por sorrir ao Chelsea. Nestas alturas, as vitórias morais de pouco servem. No entanto, a excelente temporada benfiquista merece o reconhecimento de todos. Aconteça o que acontecer, o trabalho de Jorge Jesus e dos seus jogadores foi notável.
No início da época, poucos imaginariam que este Benfica, órfão de peças vitais como Javi García e Axel Witsel, seria capaz de se impor e superiorizar perante uma equipa poderosa (desportiva e financeiramente falando) como o Chelsea. A verdade é que a equipa da Luz foi capaz de contrariar todas as probabilidades. Muito por força da capacidade que demonstrou em se reinventar. E aí, Jesus teve o papel principal, na construção de uma equipa competitiva.
O técnico “inventou” um lateral esquerdo (Melgarejo) capaz de cumprir defensivamente e dar profundidade à equipa, dinamizou a polivalência de André Almeida, potenciou as capacidades de Matic para um nível muito alto e transformou Enzo Pérez, razoável extremo de origem, num médio centro com tarimba internacional. Pelo meio, ainda conseguiu afirmar Lima e Salvio como peças chave do onze e espevitar Gaitán e Ola John para momentos de magia.
O arquiteto desta equipa conseguiu fazer uma saborosa omelete com os poucos ovos que tinha à sua disposição em determinados setores da equipa. Quando muitos apontavam a fragilidade do meio campo do Benfica, a verdade é que Jesus formou e valorizou uma das melhores duplas de médios, Matic e Enzo Pérez, a jogar na Europa.
Estes dois jogadores deram luta aos cinco médios com que o Chelsea povoou o meio campo e, mesmo assim, conseguiram fazer com que fosse o Benfica a comandar o jogo, a controlar a bola e a criar várias oportunidades de perigo. Apenas faltou maior esclarecimento e acutilância na hora de rematar à baliza de Cech.
Por todo este trabalho de valorização de ativos e do nível competitivo do Benfica, assim como pela qualidade do futebol apresentado, a continuidade de Jorge Jesus parece ser a decisão mais lógica. Porém, os discursos contraditórios de presidente e treinador após a final da Liga Europa indicam que ainda há pormenores a limar para que as duas partes cheguem a um entendimento.
Acredito que a maioria dos benfiquistas, entre direção, sócios e adeptos, querem a renovação do seu atual treinador para dar continuidade a um projeto que contribuiu, e muito, para o crescimento do clube nos últimos anos. O equilíbrio de forças com o FC Porto já é uma realidade e o “salto” europeu, tão desejado por Luís Filipe Vieira, está em marcha.
Perante as últimas declarações, falta saber se o treinador tem interesse em continuar. Com o futebol apresentando nesta final da Liga Europa, é certo que Jorge Jesus ganhou maior cotação em termos internacionais e não lhe faltarão pretendentes. Para além de questões salariais, sendo ele um dos treinadores mais bem pagos da Europa, a Jesus interessará saber que equipa terá à sua disposição e que tipo de investimento quer fazer o Benfica nos próximos anos.
Numa altura em que os clubes começam a ter maior contenção financeira, focando-se na redução de despesas, conjugar a ambição do clube e do seu treinador fará toda a diferença. É que no próximo ano a final da Liga dos Campeões realiza-se no Estádio da Luz... Estar nessa final é, obviamente, um sonho para toda a nação benfiquista.
O Craque
O faraó de Vila do Conde
Com a saída de João Tomás para Angola, o Rio Ave decidiu apostar num egípcio de 20 anos. E as boas indicações que o avançado deu no ano anterior ao serviço dos juniores acabaram por se confirmar. Ahmed Hassan tem sido uma das boas surpresas deste campeonato, fazendo esquecer o antecessor. Já apontou 7 golos na liga e afirmou-se como titular da equipa de Nuno Espírito Santo. É um ponta de lança alto (1,90m), que se distingue pela mobilidade e rapidez. É um bom finalizador, que sabe defender quando é preciso. Está em fase de evolução e promete ser ainda melhor.
A Jogada
Competições bipolares
Nos últimos anos, a liga portuguesa tem sido marcada pela supremacia de FC Porto e Benfica em relação às outras equipas. Uma bipolaridade que a diferença de orçamentos ajuda a explicar, mas que não justifica tudo. A gestão desportiva e financeira dos dois clubes, os únicos capazes de fazer vendas milionárias com regularidade, assim como a maturidade competitiva na Europa, explicam o domínio a dois. Uma bipolaridade, aliás, que curiosamente se replica em países como Espanha (Barcelona e Real Madrid), Alemanha (Bayern e Borussia Dortmund) ou Inglaterra (Manchester United e Manchester City).
A Dúvida
O céu e o inferno de Bosingwa
Em apenas um ano, José Bosingwa viu a carreira dar uma cambalhota de 180 graus. Por esta altura, na época anterior, estava prestes a vencer a Liga dos Campeões pelo Chelsea, numa partida em que foi titular. Altamente cotado e em final de contrato, assinou pelo Queens Park Rangers, aliciado por um projeto ambicioso que incluía várias contratações de topo. As coisas correram mal e o clube inglês vai descer de divisão, sendo que Bosingwa foi um dos jogadores mais criticados. Afastado da seleção nacional por Paulo Bento, será que o lateral ainda vai a tempo de reabilitar a carreira?
