A contar golos
É óbvio que a larguíssima maioria dos leitores, que me dá a honra de parar nestas linhas, quer é que o seu clube ganhe, de preferência por muitos golos de diferença. Mas mesmo essa larguíssima maioria terá de convir que, quando começa a ver um jogo dos seus rivais, não tem, nesta fase do futebol português, muitas dúvidas sobre quem vai acabar por ganhar. E desliga.
A ausência de dúvida sobre quem sairá vencedor mata lentamente o futebol. O fosso que separa Benfica e Porto de todos os outros é cada vez mais abissal. Depois, o Sporting, quando engrena, também se aproxima dos seus históricos rivais. Tudo o resto à volta é um deserto competitivo, onde só Braga e Guimarães, em casa, podem gerar alguma dose de incerteza.
Ciente do papel social do futebol, que vai muito para lá da libertação de adrenalina durante hora e meia, sempre defendi que o campeonato nacional devia ter, no mínimo, 16 equipas, alguns troféus houve muito bem disputados por 18 competidores. Mas isso foi noutros tempos. Quando qualquer jogador de um clube pequeno ganhava o suficiente para aguentar o embate de dois ou três meses de atraso salarial, com parte do pecúlio pago sem controlo fiscal, e fortes comunidades locais a apoiar a capacidade competitiva da equipa que levava as cores e o nome da sua terra pelo País.
Agora há equipas sem um único jogador capaz de fazer a diferença. Estamos repletos de atletas honestos mas medíocres, sem o menor afeto com a bola. Os jogos entre grandes e pequenos escorregam para um entediante exercício contabilístico.
É preciso rever os quadros competitivos, restringindo o primeiro escalão a 10 ou 12 eleitos, num campeonato a quatro voltas ou com playoffs finais.
Como um todo, o futebol português está a derrapar para a cauda da Europa. É preciso travar a decadência.
