A coroação do mágico

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1- Primeiro alimentou a paixão pela bola, o mais forte dos amores da infância; depois surgiram os adversários, utilizados para testar as habilidades de sempre e delimitar o território à sua volta; mais tarde veio a aprovação exterior, traduzida no barulho de plateias rendidas a tanta classe. Um dia abriu os olhos e entendeu os segredos do futebol como desporto colectivo; valorizou os companheiros e sentiu que fazia parte de um todo – só nessa altura venceu a última etapa da travessia que o levou ao topo da consideração universal. Deco transformou-se num factor de multiplicação, que estimula o esforço, contagia a criatividade e aumenta a segurança; com ele em campo todos são melhores e sentem-se mais confortáveis.

2- Deco possui facilidade extraordinária em ditar regras, inventar espaços e criar desequilíbrios nos terrenos onde o adversário se julga a salvo de qualquer agressão. Sabe fugir às marcações e, por muita gente que tenha atrás da linha da bola, assume conscientemente o risco do drible, do passe ou do tiro. Esteja onde e como estiver, recorrendo à genialidade dos argumentos individuais ou a acções conjuntas com que reclama o envolvimento de outrem, descobre e explora linhas de progressão que mais ninguém vê e nas quais só ele acredita. É notável o modo como segura, rodopia e dispara para a baliza, seja em tabelas nas zonas interiores ou em movimentos junto às faixas laterais. Poucos o igualam, em brilhantismo e eficácia, no futebol actual.

3- Porque o talento dá asas para voar, há muito que Deco se transformou num jogador do outro Mundo; porque entrou em órbita antes de obter a unanimidade terrena, atingiu desprotegido a galáxia onde habitam os deuses maiores do jogo. A esse lugar divino chegou tímido, silencioso, envergonhado até; perante a grandeza do universo em que passou a movimentar-se encontrou uma resposta sublime: definiu a perfeição como objectivo, sem hipotecar princípios ou alterar concepções estéticas. Hoje, reconhecido pelos pares de destino eterno, reage naturalmente à inevitabilidade de ser apenas mais um entre aqueles que não encontram limites para a expressão artística. Para que seja feita toda a justiça falta atribuir-lhe a coroa que merece: a de melhor jogador do Mundo em 2004.

4- Mesmo que este tipo de eleições revele mais sensibilidade para os representantes de fenómenos colectivos, desvalorizando a produção individual de cada um, Deco não tem motivos para se inquietar: o muito que jogou este ano está sustentado na Liga dos Campeões, no título nacional ao serviço do FC Porto e no estatuto de vice-campeão europeu por Portugal. Para dar ainda mais força à candidatura, vai ouvir a sentença, proferida por treinadores e jornalistas oriundos de todos os cantos do planeta, como referência técnica de uma das equipas que melhor futebol pratica na Europa – o Barcelona. Digerido o escândalo de 2003, quando foi indecentemente ignorado, não há razões para temer o veredicto. Mas se não ganhar o que merece também não perderá o que já conquistou: a admiração de todos nós.

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