A emboscada ao edifício-futebol

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A emboscada ao edifício-futebol
A emboscada ao edifício-futebol

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Foram anos de vícios e abusos. O esvaziamento de Joaquim Oliveira, como consequência de uma decisão histórica de Luís Filipe Vieira, e o aparecimento de Bruno de Carvalho, mais o “tem-te-não-caias” de Pinto da Costa, estão a provocar um tsunami de enormes proporções no futebol em Portugal.

A parte mais visível da incomodidade e da bagunçada em que se transformou a bola indígena atinge, brutalmente, o edifício da “justiça desportiva”, com decisões abstrusas, como foi esta assinada por unanimidade pelo Conselho de Justiça da FPF, que manteve o FC Porto na Taça da Liga por considerar que “o atraso [no jogo com o Marítimo] foi intencional, mas sem intenção de provocar dano a terceiros [Sporting]”. Se não se prova o dolo (o facto de não ter havido a mais pequena preocupação em não se violar o disposto no número 2 do artigo 116 parece ser sintomático), a questão vertida no sentido contrário também faz sentido: como é que se prova que não houve intenção de provocar dano a terceiros quando se conclui que o atraso foi intencional? Para que serve o número 2 do artigo 116? Estamos perante mais uma “decisão política” que se enquadra na “guerra de forças” a que vamos assistindo no futebol português.

A anarquia é total e este último episódio de um conjunto de clubes ter forçado a realização de uma Assembleia Geral, não obstante a recusa de reunir os procedimentos legais para que ela pudesse acontecer, diz bem do entendimento que os responsáveis desses clubes denotam sobre as mais elementares regras do “associativismo democrático”. Quer dizer: 21 clubes passam por cima do entendimento do presidente da AG da Liga, eleito democraticamente, e, contra todas as normas estatutárias, decidem tentar levar avante o propósito de efectivar a reunião, com o intuito de destituir e humilhar o presidente Mário Figueiredo, em fim de mandato. A pressa e o desespero são tão grandes que os “revoltosos” agem com os tiques de uma qualquer “ditadura militar”. Apesar da óbvia desregulação do movimento associativo, a FPF mantém-se em cima das suas tamanquinhas, dando nota de uma cínica “neutralidade”, já para não falar da tutela que, mais uma vez – independentemente de quem se senta ao volante do Governo –, não dá o mais subtil sinal de preocupação, indiferente à acusação de que pode ser cúmplice e até geradora dessa mesma anarquia. Não é, Marques Guedes e Emídio Guerreiro?

A Arbitragem também é vítima deste desregulação, mas tem muitas culpas no cartório, porque não consegue sair deste registo de processo de (boas) intenções. Quer dizer: a Arbitragem quer tudo, mostra-se aberta a ter, inclusive, ajuda tecnológica (mera retórica), mas não dá um passo nesse sentido. Preocupa-se em arranjar mais dinheiro e mordomias para os árbitros, preocupa-se com a gestão das carreiras internacionais, mas depois revela uma enorme capacidade de se anichar nas suas próprias contradições – desde as nomeações às classificações. O profissionalismo foi uma forma encapotada de pagar melhor aos árbitros mas não resolve, nem a 20%, o problema da falta de verdade desportiva que afecta, particularmente, o futebol. E, por isso, submete-se a todo o tipo de pressões. Não são as greves, nem comportamentos sectorizados visando este ou aquele clube, que vão restituir a credibilidade do sector. Os árbitros devem unir-se, mas no propósito de fazerem sentir aos seus responsáveis (e estes junto da UEFA e da FIFA) que o ritmo e a velocidade do futebol de hoje, juntamente com a transformação da modalidade em indústria e, mais do que isso, em “indústria televisiva”, não se compadecem com decisões... por instinto. Os árbitros só têm uma saída: pedirem auxílio. Caso contrário, continuarão, infelizmente, as emboscadas – físicas e psicológicas.

Este clima de emboscada acontece igualmente num momento em que se prepara o regresso do Boavista à I Liga. Sensivelmente dez anos depois dos jogos que suscitaram todas as manobras processuais, com acusações de coacção sobre árbitros – outra vez a coacção... – já ninguém discute nem a morosidade, nem as revogações, nem as prescrições. Viva a bagunçada – e quem nela se apoiar!... Em vez de se despromover a coacção, promove-se a coacção. E porque não há quem meta ordem nisto, continua a desenvolver-se em Portugal a ideia de que, do mesmo modo que a polícia tenta invadir a Assembleia da República, há condições para dizer Basta (!) junto do edifício-sede da FPF, que também não reprime (dentro de casa) os crimes que tinha a obrigação de reprimir. Isto está a ficar perigoso e o temperamento de Bruno de Carvalho, que se incompatibilizou a norte e não quer alianças com a vizinhança, não vai ajudar à pacificação. A este país, cansado de austeridade, só lhe faltava um futebol em “estado de sítio”. E o pior é que não se vê quem possa pôr cobro a isto...

JARDIM DAS ESTRELAS

Bagunça (parte II)

Certa a visão “leonina”: “o sistema implementado é bacoco” e quem dele beneficia não o quer alterar. O que leva, por exemplo, os árbitros e os delegados a não reportar nos respectivos relatórios o que toda a gente (tele)vê e que não é possível não ver ”n loco”, dentro ou à volta dos relvados? O que faz com que árbitros sejam punidos, as suas notas serem afectadas e não haver consequências nas respectivas épocas desportivas? Os árbitros estão revoltados, não porque alguns dos seus pares não relataram o que viram (no V. Guimarães-Benfica), mas porque foram penalizados. Como é que árbitros que se comportam assim podem ser promovidos a internacionais? Viva a bagunça! (parte II)

O CACTO

"Bomba-relógio"

Um jogador que empurra o seu treinador e lhe aponta o dedo, após uma derrota numa final emblemática como é a final da Taça de Portugal, não merece perdão. Mas o Benfica, que tivera algumas oportunidades para o vender, expôs-se a uma situação incómoda, que Jorge Jesus teve de gerir, certamente a contragosto. A lesão do paraguaio fez “explodir” mais rapidamente a dupla Lima-Rodrigo, que tem sido responsável pelo bom jogo colectivo da equipa “encarnada”. Bem podia o Benfica ter evitado expor o seu treinador e expor-se a si próprio e colher ainda a sensação de que, no “banco”, há uma “bomba” pronta a deflagrar a qualquer momento...

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