A equipa-maravilha
PARADIGMA – O ritual repete-se ano após ano: à saturação de futebol que nos assalta no final de cada época segue-se a convicção profunda de que, afinal, a vida não tem a mesma graça sem ele. Por isso, enquanto não chegam as emoções verdadeiras, há sempre uma esperança para alimentar; à falta de referências definitivas, há o recurso à imaginação (para quem a tiver...); se a paciência escasseia na mesma medida em que cresce a ansiedade, a precipitação é uma inevitabilidade perigosa cujas consequências é preciso gerir com todo o cuidado.
TERCEIRO ANEL – Que o adepto comum se comporte assumindo por inteiro a ilusão que lhe foram vendendo ao longo das últimas semanas é compreensível. Mas já é preocupante ouvir o responsável máximo pela construção de um plantel – falo-vos de Luís Filipe Vieira e do Benfica – afirmar antes do tiro de partida, elogiando o seu próprio trabalho, que está ali a equipa-maravilha para cumprir o objectivo de levar o clube ao título nacional. Quando o gestor do futebol opta pelo discurso de um qualquer adepto de bancada os riscos são muitos e nem todos serão bem medidos.
SUPORTE TÉCNICO – A renovação do plantel benfiquista foi feita através de suporte técnico indiscutível e com a legitimidade dada pela pior época de sempre da história. À excepção de Mantorras, Simão e Caneira, reforços aos quais também está associada a ideia de investimento, os restantes foram contratados apenas com a intenção de melhorar no imediato, de tornar a equipa mais forte e devolvê-la ao topo do futebol português. Sendo o rosto da excelente campanha de aquisições, Luís Filipe Vieira não precisa agora de engrossar o coro de quem está a levar a ilusão longe de mais.
EXEMPLOS – Nos últimos anos, assim de repente, há apenas um exemplo vitorioso de equipa toda nova: o Real Madrid de Fabio Capello, em 1996/97, reforçado de uma vez só por Illgner, Panucci, Roberto Carlos, Seedorf, Karembeu, Mijatovic e Suker. Mas as duas melhores equipas do futebol português da década de 90 não foram campeãs: o Benfica de 1992/93 (com Mozer, Schwarz, Paulo Sousa, Paneira, Rui Costa, João Pinto, Isaías, Futre, Rui Águas e Pacheco) e o Sporting de 1993/94 (Valckx, Paulo Sousa, Peixe, Capucho, Figo, Balakov e Juskowiak).
SOLIDARIEDADE – Ao reforçar a pressão sobre o grupo – equipa técnica e jogadores –, Luís Filipe Vieira cometeu, porventura sem maldade e apenas por entusiasmo, um erro de cálculo: esticou o elo da solidariedade. Fez como aquele ponta-de-lança que marca dois golos no primeiro quarto de hora e age depois como se o seu dever estivesse cumprido, independentemente das dificuldades e do resultado final – se a equipa ganhar foi por sua causa, se perder foi porque o guarda-redes e a defesa não estiveram à altura. Coisas da bola: há dois anos também houve alguém que encomendou as faixas antes de tempo e depois foi o que se viu...
