A excelência de Vanessa
Poucas horas depois do desporto português ter sofrido um duro revés devido às tristes notícias relacionadas com o futebol – amplamente divulgadas no exterior – nada melhor que esquecer os problemas do pontapé na bola e centrar atenções noutras modalidades, noutros protagonistas. Vanessa Fernandes, mercê de mais uma espantosa demonstração de qualidade, arrebatou o quinto título europeu consecutivo (!) no triatlo e confirmou que em Pequim é quase impossível não conquistar uma medalha.
Que me perdoem grandes campeões como Carlos Lopes, Rosa Mota ou Fernanda Ribeiro, mas não tenho memória de Portugal alguma vez ter tido um atleta capaz de exercer um domínio tão avassalador a nível europeu e mundial. Vanessa não é só uma praticante de enorme capacidade ou uma potencial medalhável em todas as competições em que participa, mas também uma autêntica “super-mulher” que, ano após ano, parece reforçar o seu poderio, deixando a concorrência cada vez mais longe.
Aos 22 anos, Vanessa enfrenta uma temporada que pode ser de sonho. O título europeu – ainda por cima conquistado em casa – já está no bolso, mas ainda falta atacar o Mundial e os Jogos Olímpicos. É evidente que o desporto não é uma ciência exacta e que tudo se decide muito depressa, mas ignorar ou esconder que a portuguesa pode ganhar as três competições mais importantes é faltar à verdade.
Vanessa sabe bem que tem condições para fazer de 2008 um ano mágico mas, à cautela, fala com serenidade e ponderação. O que não significa que tenha medo de estabelecer metas ambiciosas ou de falhar alguma vez. Apenas não quer desiludir ninguém. Por outras palavras, a atleta não é só exímia em competição.
O contínuo sucesso de Vanessa não é somente um motivo de orgulho para o País. O seu trajecto dourado permitiu que o triatlo passasse a ser conhecido entre nós e abriu as portas a que mais jovens aderissem à modalidade, de tal forma que Portugal não tem, hoje em dia, apenas uma atleta de excelência. Prova disso, por exemplo, o bronze de Anais Moniz na prova de juniores deste Europeu, pouco antes do ouro de Vanessa.
Mas, o esforço, a dedicação e o talento de Vanessa têm servido também para que a cultura desportiva dos portugueses esteja a mudar. Lentamente, é certo, mas comprovadamente. Quem diria, há uns anos, que milhares de cidadãos iriam deslocar-se, numa chuvosa manhã de sábado, à zona do Parque das Nações para assistir a uma prova de triatlo? E, felizmente, este fenómeno é, hoje em dia, extensivo ao judo, à vela ou ao râguebi, modalidades que, num passado recente, eram praticamente desconhecidas do público. Mais vale tarde que nunca...
