A exuberância da serenidade

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1 - Tem um nome curto mas com significado excessivo para as próprias ambições. No Restelo, onde chegou tarde, deram-lhe papel de relevo na transição de um ciclo; aceitou todas as responsabilidades, incluindo a de jogar no meio-campo onde, apesar da fiabilidade nos duelos individuais, apresentava défice de técnica nos espaços reduzidos e de visão para lançar à distância; onde revelava pouca agilidade para sair a jogar e talento moderado para tratar a bola. Pelé era um central que actuava dez metros à frente e não a referência moral da equipa; cumpria os requisitos da eficácia em missões menores mas não satisfazia a elevada exigência dos adeptos belenenses, habituados à grandeza e autoridade de Tuck, um dos mais completos e menos reconhecidos mestres nacionais na função de médio-centro.

2 - Dono de envergadura impressionante, Pelé sabe utilizar o corpo nos despiques directos (implacável no jogo aéreo defensivo) e é inteligente na percepção das distâncias em relação à bola; é seguro na ocupação do espaço e harmonioso nos gestos que conduzem à acção; sendo contundente na chegada é também um óptimo avaliador das situações de perigo iminente, razão pela qual decide sempre bem quando está pressionado. É essa capacidade para adivinhar o drible, o ressalto, o destino do cruzamento e a intenção do passe que relativiza o peso de físico e grosserias no reportório – só viu o amarelo seis vezes em trinta jogos. Pelé assenta numa exuberância serena, que contradiz a primeira imagem de músculo e brutalidade, porque dispõe de todas as armas necessárias para cumprir na íntegra a sua parte no plano azul.

3 - A zona pressionante de Carlos Carvalhal obriga a uma coordenação meticulosa de todos os movimentos colectivos e apela à consciência de cada um para o risco fatal de traições individuais. Se o conceito é inalterável nos princípios básicos, o Belenenses adulterou a sua intenção na Luz. Recuou em excesso, foi passivo e não activou a transição ofensiva. Colocado perante a contingência de limitar a acção à vigilância a Nuno Gomes, Pelé deu resposta cabal, mesmo sem expressar as melhores qualidades. Mas por não ser um defesa cuja dimensão se reduza à simples generosidade; à presença excessiva que leva a prestações heróicas e à demagogia que mascara, pela via do esforço, a intenção exclusiva de destruir, não viveu feliz nesse embate com o Benfica.

4 - À frente de um enorme guarda-redes (Marco Aurélio) e ao lado de um dos maiores talentos defensivos do futebol português dos últimos dez anos (Wilson), Pelé consolidou argumentos que o colocam entre os melhores centrais da SuperLiga. Em articulação com Amaral (que dá profundidade na direita), Sousa (que ajuda em zonas interiores) e Rui Ferreira (que dá equilíbrio à manobra a partir de zonas mais adiantadas), o Belenenses construiu a defesa menos batida da segunda volta, com oito golos sofridos em catorze jogos – nas primeiras 17 jornadas sofreu a exorbitância de 25 tentos. Prova de que estava condenado a desempenhar papel importante no Restelo, Pelé já reuniu condições para entrar na história azul como herdeiro natural de Filgueira.

Pedro Henriques cada vez mais só

Nos momentos das grandes decisões, os árbitros ressuscitam o fantasma da suspeita – e, de uma forma geral, quase nada fazem para a evitar. Entre decisões inqualificáveis em lances com valor golo; tiques autoritários absolutamente insuportáveis e juízes para quem as leis do jogo são uma espécie de tabuada que decoram e aplicam sem enquadramento, tudo acontece em Portugal. Pedro Henriques, cometendo erros, está cada vez mais só no estilo que agita os conservadores, atormenta os medíocres e revolta os incompetentes. Só é pena que não faça escola.

Flanco direito:

O valor da sobriedade

Digerida a fase mais problemática da época, Ricardo tem confirmado com mais regularidade a excelência de guarda-redes acima da média. A julgar pelas últimas prestações, está em curso um processo de racionalização de qualidades e moderação de intenções. Os exemplos mais recentes são os jogos com AZ Alkmaar e Sp. Braga, nos quais garantiu vitórias decisivas com intervenções sóbrias mas absolutamente extraordinárias. Esse é o grande guarda-redes.

Como peixe na água

Num campeonato jogado no limite de entrega e emoção, Petit vive como peixe na água. Cumpre os requisitos em vigor e acrescenta saber por todo o campo. Aguenta o barco e empurra-o; defende e ataca; desarma e vai embora. É decisivo pela caça à bola, pela influência e pelas soluções na aproximação à baliza. Dá o exemplo e, em certos momentos, dá até o estilo à equipa. Toda uma forma que serve para distinguir os jogadores de referência.

As indemnizações do custume

À saída, Jaime Pacheco foi recompensado com elogios, porque os dirigentes não tiveram coragem para resistir à indignidade das inscrições nas paredes do estádio e aos assobios assassinos. Se o problema era o estilo, os adeptos já deviam ter reclamado há mais tempo; se foi pelos resultados recentes, haja bom senso para reconhecer que a equipa viveu muito acima das possibilidades. Pacheco é o expoente máximo como treinador na história do Boavista. É indecente que tenha saído desta forma.

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