A falsa questão
Numa altura em que se fazem as mais diversas análises e previsões sobre as seleções que vão participar no próximo Mundial, Portugal é visto por muitos especialistas nacionais e estrangeiros como uma equipa excessivamente dependente de Cristiano Ronaldo. Até um estudo do banco de investimento Goldman Sachs ousa em dizer que a Seleção Nacional dificilmente passará dos oitavos-de-final da competição. Cabe aos eleitos de Paulo Bento contrariarem todos estes vaticínios.
A ideia comum é de que o sucesso de Portugal dependerá muito do desempenho individual do capitão da Seleção. Verdade seja dita, se Ronaldo estiver na plenitude das suas capacidades físicas, sem acusar o desgaste de uma época extenuante, será sempre uma enorme mais-valia para a equipa nacional, pelos desequilíbrios que cria e pelo receio que gera nos adversários. Mas não me parece justo minimizar as qualidades dos restantes jogadores portugueses, muitos deles atualmente a jogar em grandes equipas europeias.
Sem CR7, o potencial da nossa Seleção seria inferior; porém, não deixaríamos de ter uma equipa extremamente competitiva. O que seria da Argentina sem a magia de Messi? E do Brasil sem os dribles imprevisíveis de Neymar? Ou da Alemanha, cujo selecionador também quis apontar Ronaldo como único perigo português, sem a arte de Özil? Falar da dependência deste ou daquele jogador acaba por ser uma falsa questão, na medida em que as equipas se constroem em função dos recursos que têm. Sem Cristiano Ronaldo, jogaríamos de outra forma e com uma estratégia diferente.
Os portugueses têm a felicidade de ter o melhor jogador do Mundo nas suas fileiras. A sua influência é, por isso, inquestionável. No entanto, para que este possa singrar, necessita de uma estrutura forte, que lhe dê o devido suporte e o possa servir nas devidas condições. Mas também o próprio CR7 serve os companheiros e liberta espaços para estes se destacarem. E jogadores como Fábio Coentrão, Pepe, João Moutinho, Raul Meireles ou Nani, entre outros, fornecem o equilíbrio necessário à equipa e têm qualidade mais do que suficiente para tornar o grupo mais forte e chamar a si a responsabilidade de resolver desafios.
Nas grandes competições, e ao contrário do que dizem estes analistas internacionais, Portugal tem-se destacado pela qualidade do seu jogo coletivo. A união, a motivação e a capacidade de transcendência assumem aqui um papel bem mais relevante. O jogador português supera-se nos grandes momentos. Está-lhes no sangue e é a história que o comprova, com os nossos atletas a serem capazes de, na maioria das vezes, surpreender o mundo do futebol com um rendimento acima do esperado.
Este papel de outsider que é atribuído a Portugal pode jogar a nosso favor. Com os holofotes virados para outros conjuntos favoritos à vitória, Paulo Bento tem aqui um trunfo, podendo preparar a competição sem expectativas exageradas, obtendo o clima propício para uma campanha semelhante à do Euro’2012, em que a equipa foi crescendo de jogo para jogo e ganhando cada vez mais confiança.
Com um grupo experiente, habituado à pressão dos grandes jogos e fortemente moralizado em deixar a sua marca, caberá à equipa nacional contrariar as previsões pessimistas que vêm lá de fora, muito inspiradas pelas exibições abaixo do esperado na fase de qualificação para o Mundial. No Brasil, estou em crer que tudo será diferente. E como dizia João Pinto, “prognósticos só no fim do jogo”.
O CRAQUE
Um patrão na defesa
Parte do sucesso do Rio Ave nesta temporada, onde chegou às finais da Taça de Portugal e da Taça da Liga, deveu-se à qualidade e segurança da sua defesa, uma das menos batidas da Liga e das que menos golos sofreu a jogar fora de casa. O brasileiro Marcelo foi um dos elementos em maior destaque nesse sector. Central seguro e eficaz, que também se adapta às laterais, apresenta um excelente domínio com os pés, o que lhe permite ter confiança para sair com a bola e participar na primeira fase de construção de jogo ofensivo. Um valor seguro dos vila-condenses.
A JOGADA
Corrida à Liga
Júlio Mendes, Rui Alves, Carlos Marta, Rui Rangel, Vítor Ferreira, Fernando Seara, Paulo Teixeira... Sucedem-se os nomes de candidatos à presidência da Liga de Clubes e, como alguém disse, começa a parecer que existem mais candidatos do que clubes associados a esta mesma Liga. Apesar do esvaziamento de poder perdido para a FPF, não faltam interessados em ficar com o lugar. Cada grande parece ter o seu candidato e a luta pelo poder vai intensificar-se nos próximos dias. Pelo menos, que estas eleições sirvam para uma coisa: debater com seriedade os assuntos importantes do futebol português.
A DÚVIDA
Queridos inimigos
Ao longo da época, Bruno de Carvalho “serviu” os interesses do Benfica. Enquanto o presidente dos leões foi fazendo “guerra” ao FC Porto, rival em comum com as águias, o Benfica manteve-se em silêncio, e esta posição discreta trouxe-lhe dividendos, já que se focou nos objetivos desportivos, afastando-se da postura beligerante de outros anos. Este Sporting mais “ruidoso” permitiu uma aliança, embora não assumida, para fazer face ao rival nortenho. Mas a boa época leonina, os casos de arbitragem e as questões financeiras colocaram os clubes de Lisboa numa “guerra fria” de ironias, piadas e insinuações. Surgirá o dia em que os três grandes se vão entender?
