A falta de espaços

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1. Desde que o físico passou a integrar o lote das coisas fundamentais, utilizado em prol de um rigor táctico doentio; a partir da altura em que os treinadores das equipas mais modestas adoptaram a cartilha segundo a qual o segredo para atenuar o desnível passa pela construção de muralhas intransponíveis; em suma, quando a resposta do músculo à inspiração resultou num equilíbrio efectivo e não apenas pontual, o futebol mudou e viu-se colocado perante novos e delicados desafios. Ao despertar o seu instinto mais primário – o de jogo em que todas as armas são boas para não perder –, desvalorizou a componente de espectáculo grandioso. Como é habitual nesta vida, os ladrões andaram à frente dos polícias. Como também é normal, a falta de imaginação estimulou algumas verdades absolutas, com as quais nos andam a enganar há pelo menos três décadas.

2. Uma delas é que deixou de haver espaço, tragédia que afecta grandes e pequenos, cada vez mais uniformizados no domínio de conceitos globais como ordem, organização, unidade, disciplina, rigor, concentração... Mas quando ouvem disparates semelhantes, Deco, Zahovic, Pedro Barbosa e Sanchez, para só falar em quatro exemplos citados de memória tendo a SuperLiga como referência, riem que nem perdidos. Frente ao Marítimo, Deco pegou na bola em zona frontal à grande área; com mais de metade da equipa adversária pela frente, inventou uma tempestade, agitou as águas do alto mar e fez baloiçar o barco violentamente para um lado e para o outro; quando percebeu que mais de metade das pernas tinham desaparecido e o guarda-redes estava tonto de tanto balanço, rematou, fez golo e ganhou o jogo. O espaço estava lá. Foi só uma questão de o procurar.

3. É isso que faz, sistematicamente, o mais fascinante jogador do campeonato (Mauro) e figura central do Paços de Ferreira, a equipa que melhor joga em Portugal. As primeiras impressões não são animadoras, marcadas por excessivos sinais de preguiça e fatalismo. Mais que um problema de ordem estética, o engano faz parte do plano diabólico de quem prefere esconder-se enquanto analisa a melhor forma de decarregar o veneno que transporta. Quando normaliza a relação com o jogo, Mauro faz explodir um "cocktail" arrasador que mistura ritmo (desliza como um patinador no gelo), harmonia (elegância permanente nos gestos), inteligência (dribla, passa e tabela sempre com critério) e sentido de progressão (nos seus movimentos seguros e intencionais não existe o menor sinal de urgência). Aliás, nem precisa de ir muito depressa: basta-lhe seguir o instinto, porque tem a velocidade correcta para cada zona do campo.

4. Nesse capítulo, Ricardo Esteves assinou momento brilhante no lance da vitória do Nacional sobre o Benfica: pegou na bola, acelerou numa zona congestionada, mudou de velocidade (quer dizer, andou ainda mais depressa), levantou a cabeça e despertou os argumentos técnicos que o levaram a executar o passe letal. Impressionante como um simples toque na bola, previsível por escassez de opções, tornou inexistente a barreira compacta de três adversários que o separavam de Serginho, o companheiro que havia de fazer o golo junto ao poste mais distante. Como sempre, o espaço estava lá e nada pode diminuir o mérito de quem o descobriu. Nem a imagem de Argel e João Manuel Pinto no chão, desenquadrados e incapazes de prever o desfecho do movimento, a violar as regras básicas do manual dos bons centrais.

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