A felicidade de um génio
1. O momento exigia sensibilidade estranha àquela fábrica de hábitos mecanizados, orientada segundo os parâmetros do pragmatismo; a grandeza de uma causa individual assumiu inesperadas proporções e entrou em colisão com as regras orientadoras de quem suspeita do talento, desvaloriza o belo e reprime o sorriso.
Quando Rui Costa assinou o primeiro golo na Série A ao serviço do Milan, a efusiva reacção de companheiros e adeptos contrariou a imagem cinzenta de uma equipa em que os melhores não raras vezes são penalizados porque atrapalham as correrias dos outros. O mais sensível dos grandes jogadores mundiais pôde explodir de felicidade ao fim de quatro meses de conflito com o treinador, que já o condenou à tortura máxima: ver do banco o mal que joga a sua equipa.
2. Rui Costa é o distribuidor clássico que alimenta a rotina mas é também o génio dos passes divinos que rompem a lógica; não sendo um recuperador por excelência, assume responsabilidades na ocupação do espaço defensivo, onde apresenta argumentos para, no mínimo, atrasar a progressão do adversário.
Kaká joga dez metros à frente, é temível nos duelos individuais, aproxima-se com perigo da baliza e tem intimidade com o golo - Michel Platini dirá que não é bem um número 10 mas um 9,5. Agora que se completam, é mais fácil medir a perversidade do argumento utilizado por Ancelotti para explicar opções da presente época.
Enquanto isso, Rui Costa recuperou um fantasma antigo: o da incompatibilidade atribuída à convivência com vizinhos dos terrenos que pisa e da função que desempenha.
3. Nesta fase em que o futebolista caminha para a universalidade, confrontado com a imperiosa adaptação às mais variadas exigências técnicas e tácticas do jogo; agora que a necessidade de desdobrar características e diversificar o tipo de participação é determinante, faz cada vez menos sentido sacrificar os mais valiosos com o argumento de que invadem o espaço uns dos outros e se atropelam nas tarefas - Pirlo, Seedorf, Rivaldo, João Pinto, Kaká e Deco são exemplos associados a Rui Costa por esses motivos.
A demagogia confunde-se então com o prazer mal intencionado de criar cenários virtuais, embora dois nomes obriguem a cuidado na apreciação: Pirlo (caso resolvido) e Deco (de cuja resolução poderá depender uma selecção nacional ainda mais forte para o Euro-2004).
4. Luiz Felipe Scolari eliminou à partida a hipótese de jogar com os dois craques ao mesmo tempo mas moderou o discurso. Fez bem. A partir de uma ideia global clara e de um estilo definido, cabe ao treinador articular o talento individual com o processo de jogo colectivo; definir as tarefas e conquistar os jogadores para a causa; fazê-los dividir entre si o excesso de especialidade e alargar o âmbito das suas principais características.
É fundamental a disponibilidade de ambos em se comprometerem com o plano, dado adquirido entre cúmplices que falam a mesma linguagem futebolística, gente bem intencionada que se orienta pelos mesmos princípios éticos e assume objectivos idênticos. E, à distância de pouco mais de quatro meses do início do Europeu, compatibilizar Rui Costa e Deco tornou-se o principal desafio estratégico para Scolari.
A perigosa Inglaterra de Beckham
Se há selecções representadas numa só figura, David Beckham, por "marketing", publicidade mas também pelo futebol sumptuoso, é a imagem da perigosa Inglaterra. Se outro mérito não quisermos atribuir a Carlos Queiroz como treinador do Real Madrid, reconheçamos o trabalho que transformou um jogador perfeito a executar mas de acção restrita numa das maiores figuras do futebol actual. Que rouba, recebe, dribla, sai a jogar, tabela, faz golos e não quer ficar por aqui...
PASSE CURTO
O peso do Sérgio
Sérgio Conceição entrou na equipa e parece que nunca de lá saiu. Mais importante, permitiu a Mourinho recuperar o 4x3x3 com o qual os médios se sentem mais confortáveis. E até Benni McCarthy sai beneficiado: com a ocupação das faixas laterais, marcar golos tornou-se ainda mais simples.
Sem se dar por ele...
Apontou o quarto golo da época e voltou a exibir-se a grande nível. João Pinto tem sido pouco exuberante, o silêncio e o ar distante esmagaram a alegria, mas da aparente tristeza não se ressente o seu futebol. É a SuperLiga que fica em vantagem.
Nomes próprios
O Nacional é um caso na SuperLiga e os 5-1 ao Sp. Braga cimentaram o estatuto. A exibição e os golos de Rossato e Adriano só provaram que as boas equipas também se fazem de nomes próprios.
Já nada o faz sofrer
As notícias não permitem avaliar bem o que está a fazer em Glasgow: Capucho brilha e marca; desilude e sai; fica no banco e entra. Pode ser que me engane mas já nada o faz sofrer. O Celta quis contratá-lo, o treinador do Rangers não o deixou sair. Lá terá as suas razões. Eu também não deixava.
