A força do líder silencioso

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A força do líder silencioso
A força do líder silencioso

Na terceira época em Portugal, e já adaptado aos padrões defensivos de referência do futebol europeu, Otamendi evoluiu ao ponto de ser hoje o que não era quando chegou ao FC Porto: um defesa de nível mundial.

1 - Daniel Passarella expressou a Jorge Valdano a opinião de que os centrais da atualidade lhe parecem cobardes porque só se interessam em bater; respondeu o antigo avançado (campeão do Mundo em 1986), que a consideração tinha graça vinda de alguém que, nos seus tempos áureos de defesa (campeão do Mundo em 1978), escolhia até o osso em que ia acertar. Devolveu então o antigo central argentino, para concluir o diálogo, que havia uma diferença gigantesca entre ele e “os medíocres” com os quais tinha sido comparado: “Eu batia por prazer, agora batem por necessidade.” Nesta antologia de violência, pouco haveria a acrescentar. Apenas a convicção de um expert da matéria, amigo pessoal e estrela no seu tempo, que acrescenta sempre um dado ao bê-á-bá da função: “Não se pode passar um jogo inteiro a dar porrada; mas há porradas que têm de ser dadas.”

2 - Numa função em que responsabilidade e prudência são elementos fundamentais, a experiência atenua os exageros que conduzem à desordem e cura as tendências suicidas dos temperamentais; apetrecha os melhores com sobriedade e modera-lhes a contundência, tantas vezes desmiolada, na chegada à bola e aos adversários. A menos de dois meses de completar 25 anos, Otamendi está cada vez mais perto dos princípios defendidos por Passarella – ainda não atingiu o máximo das potencialidades mas dá sinais muito animadores de que está próximo de consegui-lo. Exercer numa equipa altamente estruturada como o FC Porto, que não costuma ser afetada na sua organização global mesmo quando perde iniciativa, ajuda à consolidação de competências.

3 - Se recuperar a bola depende de estratégia, funcionamento coletivo, orientação tática e posicionamento em campo, para defender bem é preciso agregar o imprescindível contributo individual: a inteligência, a raça, o talento para cumprir as obrigações sem abrir portas atrás e, se possível, criar ameaças automáticas nas saídas para a frente – o segredo está, na maior parte das vezes, em roubar a bola o mais à frente possível. O internacional argentino teve paciência e esperou para se fortalecer com os ensinamentos dos treinadores que o orientaram em Portugal – Villas-Boas e Vítor Pereira. A sua integração foi progressiva e segura. Nesse complexo processo de crescimento, Otamendi pode não emanar a autoridade associada ao capitão de equipa mas revela quase tudo o que precisa para ser referência do coletivo.

4 - É, por isso, um líder silencioso, que se impõe não por sentido de organização ou pelas ordens que dita mas pelo exemplo de entrega e atitude; não por funcionar como denominador comum da manobra defensiva mas pela articulação com quem joga à sua volta e pelo acerto das decisões que toma. Otamendi é forte nos duelos individuais e tem técnica para sair com a bola dominada; refinou o jogo posicional e é fortíssimo pelo ar; avalia cada vez melhor os acontecimentos à sua volta e ainda tira coelhos da cartola, como na Choupana, onde marcou um golo à Hulk, com espetacular tiro de pé esquerdo à entrada da área. Na terceira época no FC Porto, já adaptado aos padrões defensivos de referência do futebol europeu, evoluiu ao ponto de ser hoje o que não era quando chegou: um defesa de nível mundial.

Pedro Proença acedeu à lenda

Nunca Portugal estivera, no mesmo ano, nas finais mais importantes do calendário: a Champions e o Europeu. Numa atividade individualizada, o mérito vai quase todo para quem se submeteu a teste de exigência máxima e o superou com distinção. Ter um compatriota a dirigir os jogos mais importantes do ano foi um orgulho para o próprio país. Pelo reconhecimento internacional e pela resposta que deu nos palcos de exigência máxima que pisou, Pedro Proença acedeu à lenda. Com todo o respeito por outros, conquistou o direito a ser considerado o melhor árbitro português de sempre.

Jesualdo Ferreira prepara terreno

O cenário já não permite outras interpretações: quem contratou Franky Vercauteren, a meio de uma das mais turbulentas viagens da história, já perdeu a esperança de ter acertado na escolha do timoneiro para a nau verde e branca. Confirmados os receios (o vínculo com o belga é só até final da época), emerge na estrutura leonina a figura de Jesualdo Ferreira. Torna-se agora mais evidente que o velho mestre está a apalpar terreno para a próxima época e não apenas a organizar o futebol leonino. Pelo andar da carruagem, nem está livre de ir para o banco mais cedo do que o previsto.

Garay só falha de 3 em 3 anos

O processo de afirmação de um central decorre de uma ação em continuidade e não do impacto imediato de um ou dois jogos perfeitos. Para se definir um grande central é preciso esperar várias épocas e não nos deixarmos enfeitiçar por meia dúzia de resoluções brilhantes, tantas vezes acompanhadas por falhas graves de decisão, tempo e posição. Aos 26 anos, titular da seleção argentina, Garay tem crescido de modo sustentado: é regular, presente, seguro e eficaz. Comete um erro comprometedor de três em três anos. Estranho é que o ataque dos tubarões só tenha acontecido agora.

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