A gata borralheira
As expectativas não eram altas. Uns diziam que a equipa não tinha estrelas capazes de fazer a diferença, outros realçavam a falta de qualidade. Mesmo antes de competir, o fracasso era quase uma certeza. Foi assim que, discretamente, um grupo de jovens futebolistas portugueses partiu para disputar o Campeonato do Mundo de Sub-20 na Colômbia.
Sem pressão mediática sobre os ombros, e apostada em fazer ver aos céticos que estavam enganados, a equipa teve a possibilidade de preparar a competição da melhor maneira. Porém, o empate no jogo inaugural com o Uruguai e a exibição frouxa nessa partida alimentaram ainda mais a desconfiança. Seguiram-se duas vitórias, contra Camarões e Nova Zelândia, o que resultou na qualificação para a fase final. O feito gerou curiosidade. A partir daqui passámos, finalmente, a poder acompanhar pela televisão – será que a RTP pensa que o serviço público só existe quando as nossas equipas ganham? – os jogos da Seleção Nacional de Sub-20.
O sorteio do Mundial ditou que Portugal defrontasse a Guatemala nos oitavos-de-final. A vitória, sofrida, por 1-0, provavelmente frente a uma das equipas mais fracas da competição, fez chover um turbilhão de críticas. Para muitos, a Seleção não iria longe e mais convencidos ficaram quando se soube que o próximo adversário seria a poderosa Argentina. Numa exibição que terá espantado muita gente, os Sub-20 portugueses mostraram as suas virtudes frente aos argentinos. Uma equipa aguerrida e trabalhadora, orientada para o jogo coletivo, funcionando como um bloco que não se intimida com os adversários que apanha pela frente. A passagem às meias-finais decidiu-se nas grandes penalidades, numa reviravolta emocionante de dois golos de desvantagem.
Com a França pelo caminho, nação que tantas vezes nos causa dissabores, os jogadores lusos não se esmoreceram. Um jogo sólido e seguro, cheio de confiança, colocou Portugal na final. E, de repente, o país acordou. As críticas deram lugar aos elogios. A desconfiança desapareceu. Jornais, rádios e televisões partiam a caminho da Colômbia à procura dos novos heróis.
A Seleção de Sub-20 foi uma espécie de pobre Gata Borralheira, que trabalhou e sofreu muito, mas que um dia experimentou o sapatinho de cristal e virou princesa. Ilídio Vale, um amigo cujas capacidades intelectuais e humanas bem conheço (no tempo em que fui treinador do FCP ele era o responsável pelo departamento de formação do clube), montou uma equipa coesa e inteligente, que só por manifesta infelicidade não se sagrou campeã mundial frente ao Brasil. O técnico apelidou a equipa portuguesa, e bem, de geração da coragem.
Estes jovens provaram que têm qualidade e que a união faz a força. A prestação foi notável e não tenho dúvidas que jogadores como Mika (no futuro, a baliza do Benfica será dele), Nuno Reis (defesa-central seguro e um líder em campo), Danilo (o médio recuperador de bolas é um verdadeiro pulmão) e Nélson Oliveira (avançado com força, técnica e golos) poderão vir a ser referências.
Custa a crer como é que estes rapazes, alguns deles já emigrantes, não têm lugar nos clubes nacionais, que oferecem milhões por jogadores estrangeiros da mesma idade. “Acreditem em nós”, pediu o capitão Nuno Reis à chegada a Portugal. E devemos acreditar. Estes jogadores personificam o espírito que todos os jovens portugueses têm de adotar em dias como estes. Já não há lugar para gerações rascas, apenas coragem para enfrentar obstáculos e vencer na vida.
