A grande conquista de Jesus

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A grande conquista de Jesus
A grande conquista de Jesus

Criou esperança, gerou riqueza e agitou espíritos adormecidos; dimensionou a força competitiva de uma grande potência e devolveu-lhe estatuto internacional. É, a uma distância descomunal, o melhor treinador do Benfica dos últimos vinte anos. E um dos melhores de sempre

1 - Diz Johan Cruyff “que só há duas espécies de treinadores: os que treinam e os que ensinam”; acrescenta César Luis Menotti que “um treinador vê-se nos progressos dos seus jogadores”; para Jorge Valdano, “o treinador é um especialista dos jogadores à sua disposição”, e Stefan Kovacs, o romeno que potenciou o Ajax como uma das mais belas orquestras da história do futebol, diz que o grande treinador é “aquele que os seus colegas, em toda a lucidez, reconhecem como tal”. Jorge Jesus cumpre, quase na íntegra, os fundamentos de quatro mestres para a definição do talento dos generais do banco. Vê-lo em euforia nos festejos encarnados, um ano depois de se ter ajoelhado no Dragão, deve merecer uma reflexão.

2 - O título de 2013/14 começa na coragem de Luís Filipe Vieira. Contra forte corrente interna, levou até ao fim a convicção de que o treinador que acabara de perder tudo era o ideal para vencer um ano depois. Mas a história prossegue na confiança de JJ em pôr-se à prova – nem todos estariam dispostos a assumir o céu como objetivo, iniciando percurso tão longo e difícil a partir do inferno. Mais contido, manteve a insolência, expressa por atos e palavras, prova de que se sente apto a fustigar aqueles que, em condições normais, seriam os seus carrascos. Para quem o contesta pela imperfeição e rudeza com que aborda as vitórias, é bom recordar os tempos de elegância e riqueza verbal que outros utilizavam para explicar as derrotas e o atraso que foram cavando, de modo muitas vezes escandaloso, relativamente ao FC Porto.

3 - Na Luz, muitos preferiam ver no comando da nau um oficial e cavalheiro, que recitasse Camões, fosse à ópera, tocasse piano e falasse francês. À volta de JJ é percetível o incómodo entre parte da família encarnada, originado por elementos supérfluos à caracterização de um treinador de futebol: os pontapés na gramática, as pastilhas elásticas ou o perfil indomável, arrogante, egocêntrico, caprichoso e por vezes provocador de um homem cujo pecado é, afinal, atribuir ao futebol a prioridade da vida. JJ entrega-se de alma e coração ao que faz, defende ideias como se fossem mandamentos sagrados e acredita na metodologia do treino como ferramenta para se jogar cada vez melhor. Talvez esteja desfasado deste Mundo em que tudo é espetáculo e imagem. Porque, no essencial, é dos melhores na atualidade à escala mundial.

4 - Dois títulos e três segundos lugares contrariam década e meia, contada a partir da vitória em 1993/94, sob o comando de Toni: desde então, os encarnados foram campeões uma vez (com Trapattoni) e só atingiram o segundo lugar em quatro (!) ocasiões. O balanço recente confirma a ideia de que a águia encurtou distâncias e apetrechou-se melhor para os tempos futuros. E fê-lo em larga medida à custa de um treinador que deu ideologia ao futebol, valorizou a dimensão do clube (homem do povo num clube do povo) e acrescentou-lhe estatística; criou esperança, gerou riqueza e agitou espíritos adormecidos; recuperou a força competitiva de uma grande potência e devolveu-lhe expressão internacional. É, a uma distância descomunal, o melhor treinador do Benfica dos últimos 20 anos. E um dos melhores de sempre.

Luisão e Enzo as pedras base

Qualquer equipa precisa de traves mestras, cuja relevância não depende da magia instantânea

O Benfica 2013/14 confirmou Luisão como símbolo máximo de liderança, fiabilidade e assimilação dos segredos estratégicos e posicionais da equipa. Mas o papel de extensão em campo das ideias do treinador foi fortalecido pela confirmação de um médio feito general que ataca e defende; trava e acelera; pensa e arrisca. Enzo é uma pedra fundamental na estabilidade da equipa e o pêndulo que exerce ainda mais influência no coletivo do que Matic, Fejsa, André Gomes ou André Almeida. Sem Luisão e Enzo, chegar ao título teria sido muito mais problemático.

Quando o génio tem regularidade

É um sério candidato a melhor jogador da Liga e só William Carvalho pode discutir-lhe o trono

Gaitán chega ao fim da época como estrela maior e jogador mais desequilibrante do novo campeão. O argentino soltou o génio e, cumprindo com mais eficácia as obrigações táticas que lhe estão consignadas, somou interpretações superiores e obras de arte um pouco por toda a parte. Nunca foi tão influente até explodir agora numa série interminável de demonstrações superiores de talento, como se fosse normal conciliar génio e regularidade. Não há muitos esquerdinos no futebol europeu com estes argumentos. É provável que tenha chegado a hora de voar para outras paragens.

Porque o jejum tem valor distinto

O golo é o alimento dos avançados, em certa medida mais até do que as próprias vitórias

O jejum de um atacante é doloroso, porque faz perder elos de ligação aos valores mais básicos do jogo. Mas há uns mais dependentes da pontaria do que outros. Se Lima ou Rodrigo, dois obreiros do título, podem passar jogos em branco sem drama, o mesmo não se pode dizer se a infelicidade bater à porta de Cardozo. Uns não se esgotam no último toque porque, mesmo que não assinem a obra, contribuem com esforço e participação. O outro é distinto, porque é inútil fora do seu habitat. Tacuara precisa de golos para ser feliz. É um atacante de tudo ou nada. E quando é nada... é mesmo nada.

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