A grandeza de Luís Figo
1. Quando a expressão lhe acentua as rugas na testa e as sobrancelhas se juntam aos olhos, no mínimo, Figo não está nos seus melhores dias; a voz grave enquadra o tom seco das respostas e confirma a menor disposição para se banalizar em conversas normalmente desinteressantes.
Acompanha-o a facilidade, cada vez maior, de articular palavras e ideias, fruto da espécie de curso superior de comunicação que tirou nas universidades de Barcelona e Madrid. Em Gotemburgo o processo foi em tudo idêntico, mas só até abrir a boca. Estava afinal num dia de grande inspiração e expressou-o de modo grandioso: instinto, criatividade e surpresa (armas de jogador); reflexão, preocupação e disponibilidade (armas de cidadão); estatuto, independência e credibilidade (armas de figura pública).
2. O alerta ultrapassou o impacto das suas próprias declarações: foi um momento de combate à rotina e uma esperança de que os jogadores possam um dia assumir livremente uma intervenção mais ampla. Figo pretendeu, apenas e só, expressar o seu receio pelo futuro. E fez as perguntas que muita gente subscreve: Há ou não um projecto sério para a selecção nacional?
Há ou não critérios de competência na formação de toda a estrutura que vai suportar o trabalho para 2004? Há ou não intenção de valorizar seriamente o espaço mais privilegiado de afirmação de qualquer jogador? Ao contrário de várias interpretações abusivas, não ameaçou sair; apenas admitiu que, perante um cenário de indefinição, seria preferível para todas as partes que o deixassem em paz. Isto é: se querem bagunça não contem com ele (tem mais que fazer); se o querem a ele (e ele quer a selecção) acabem com a bagunça. Tão simples quanto isto.
3. Igualmente significativo, não só do futebol que temos mas do Portugal que ainda somos, foi a reacção absolutamente inacreditável às palavras legítimas, sensatas e bem fundamentadas proferidas na Suécia pelo jogador. O presidente da Liga não esteve com meias medidas e lançou argumentos como resultado de uma visão assente em princípios ideológicos claros.
Na sua primeira resposta estava o fulcro do raciocínio, resumido na ideia do costume e que, pelos vistos, nenhuma revolução conseguirá aniquilar: “Joga e cala-te.” Para mal dos nossos pecados, é o costume. De facto, Figo excedeu-se, mas não agora. Excedeu-se antes, quando rompeu a lógica da mediocridade vigente no País e foi coroado melhor do Mundo. Nessa altura, sim, foi muito para lá daquilo que era legítimo pedirem-lhe, numa terra que não é o melhor do Mundo em coisa alguma.
4. Figo assumiu apenas o seu papel. Utilizou um caminho diferente e mais arrojado, mas relançou o debate sobre onde começa e acaba a consistência dos grandes projectos: os jogadores fazem os treinadores; os treinadores constroem as equipas; as equipas dimensionam as instituições; quanto maior e mais prestigiada for a instituição, mais competência e solidez se exige ao topo de pirâmide. Começa aqui o receio de ver desabar – por inércia, interesses, incompetência pura e jogos de bastidores – o edifício que custou tanto a construir.
Para o manter intacto, e até engrandecê-lo, não é possível recusar a importância da base, muito menos esvaziar o papel da sua força maior. Ou julgam os dirigentes deste País que a vitória da candidatura ao Euro-2004, por exemplo, teria sido possível sem a expressão universal de Eusébio, Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Fernando Couto, João Pinto, Vítor Baía, Sérgio Conceição e outros mais?
