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Alessandra Priante
Co-chair SIGA EUROPE Advisory Board; Partner, EY
13:08

A integridade é o legado

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Em 2030, o Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA será disputado em três países e dois continentes. Portugal, Espanha e Marrocos serão os anfitriões da competição, com as celebrações inaugurais do centenário do torneio a decorrerem no Uruguai, na Argentina e no Paraguai. Será o evento mais complexo alguma vez organizado no futebol e, para os países anfitriões, um dos maiores programas de investimento público da década: estádios, transportes, segurança, infraestruturas digitais e hotelaria. 

Passei grande parte da minha carreira a acompanhar eventos desta dimensão a partir de uma perspetiva diferente. Enquanto Diretora para a Europa da ONU Turismo e, mais tarde, à frente do organismo nacional de turismo de Itália, vi cidades candidatarem-se, vencerem, construírem, celebrarem e, depois, viverem com as consequências. Algumas saíram reforçadas, com novas competências, melhores ligações e uma reputação que continuou a atrair visitantes e investidores durante décadas. Outras ficaram com equipamentos vazios, contratos contestados e cidadãos que ainda hoje associam a palavra «evento» ao desperdício. 

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O que distinguiu, repetidamente, estes dois desfechos foi a qualidade da governação. 

É neste ponto que a integridade no desporto se cruza com a economia dos territórios. Quando falamos de integridade no desporto, pensamos, antes de mais, na manipulação de resultados, no doping, nas apostas ilegais ou nos abusos de poder no seio das federações. Tudo isso é extremamente importante. Mas um megaevento alarga o perímetro da integridade muito para além das quatro linhas. Abrange a contratação pública, o ordenamento do território, as condições laborais, os direitos dos residentes, a gestão da bilhética e da hospitalidade, os fluxos financeiros entre patrocinadores, organizadores e intermediários. Cada uma destas áreas pode reforçar ou comprometer a confiança. E, quando se perde, a confiança deixa marcas duradouras na reputação de um país.

Há três lições que me parecem relevantes muito para além da Península Ibérica e do Norte de África. 

A primeira é que a integridade tem de estar incorporada no projeto desde o início, a partir da própria candidatura. As promessas feitas para conquistar o direito de organizar uma competição transformam-se em compromissos perante os cidadãos. Critérios transparentes, orçamentos públicos, regras claras sobre conflitos de interesses e mecanismos de supervisão independente têm custos reduzidos quando são estabelecidos desde o início, mas a sua ausência pode sair muito cara. O momento de instituir estas salvaguardas é antes da assinatura do primeiro contrato. 

A segunda lição é que a verificação é mais importante do que as declarações de intenção. É fácil redigir códigos de ética. O que gera credibilidade é a disponibilidade para aceitar uma avaliação independente, com base em padrões comuns. É esta a lógica subjacente aos Standards Universais da SIGA e ao seu Sistema de Avaliação e Verificação Independente (SIRVS): tornar a integridade mensurável, comparável e, por isso, passível de melhoria contínua. As empresas de serviços profissionais, incluindo aquela de que faço parte, têm aqui um papel natural a desempenhar, trazendo para o desporto o mesmo rigor em matéria de garantia de conformidade, gestão de risco e transparência que os mercados já exigem às empresas. 

A terceira lição é que o legado é, também ele, uma questão de integridade. Habitualmente, medimos o sucesso de um evento pelo número de bilhetes vendidos, pelas audiências televisivas e pelos visitantes que as cidades anfitriãs recebem durante a competição. Esses indicadores são importantes, mas dizem-nos pouco sobre aquilo que permanece. Um legado digno desse nome traduz-se em infraestruturas que continuam a ser úteis, dinheiros públicos devidamente escrutinados, empresas e comunidades locais que beneficiam, mais jovens a praticar desporto e um país anfitrião cuja reputação sai reforçada depois do apito final, por comparação com o momento anterior ao jogo inaugural. Se queremos resultados diferentes, temos de medir coisas diferentes: o que fica e para quem fica. 

Portugal conhece bem o poder do desporto para moldar a forma como um país é visto no mundo. O Euro 2004 continua a ser recordado como um momento de orgulho nacional. Com 2030 no horizonte, Portugal tem a oportunidade de demonstrar, em conjunto com Espanha e Marrocos, que um Campeonato do Mundo pode tornar-se uma referência não apenas no futebol, mas também em matéria de integridade: transparente nas decisões, rigoroso na prestação de contas e generoso no legado que deixa. 

A responsabilidade é partilhada. Organismos desportivos, governos, cidades anfitriãs, patrocinadores, operadores de televisão, operadores de apostas e consultores detêm, cada um, uma parcela da confiança que confere valor ao desporto. Nenhum deles consegue protegê-la isoladamente. É precisamente por isso que existe uma aliança como a SIGA: para reunir todos estes intervenientes à mesma mesa, em torno dos mesmos padrões de integridade. 

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A confiança é o ativo mais valioso do desporto. Os megaeventos podem multiplicá-la ou consumi-la. A escolha faz-se muito antes do pontapé de saída. 

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