A longa viagem de Gaitán

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A longa viagem de Gaitán
A longa viagem de Gaitán

1 Nada nele, desde a face de cidadão comum até ao físico frágil para atleta de elite, o recomenda como estrela mediática – e todos sabemos, num mundo de aparências, que o talento nem sempre chega para conquistar plateias à primeira vista. Nessa luta contra o supérfluo, Gaitán oscila entre o corpo e o rosto perfeitos para exemplificar o fracasso e as marcas de génio absoluto, assente no toque chaplinesco com que arrebata os adeptos e convence os treinadores da sua utilidade, mesmo quando lhe recusam a liberdade para inventar o que deseja. No Dragão, recusou candidatar-se a herói solitário e a revelar o instinto exibicionista com que os mais habilidosos gostam de adornar o talento único e extravagante. Mesmo assim, foi decisivo na vitória do Benfica.

2 Numa equipa com menos bola, que inibiu a iniciativa, limitou a intuição e apostou na organização coletiva (na disponibilidade para lutar e nos valores concretos de músculo e inteligência tática), Nico assumiu o seu papel e agarrou-se à rotina como âncora ideológica da esmagadora maioria das decisões que tomou. Aquela não era a sua casa, podemos até olhá-lo como dissidente da opção estratégica assumida por Jorge Jesus; mas nunca foi elemento fora do controlo ou descontextualizado do plano. De resto, o que fez com o FC Porto correspondeu a mais um passo na consolidação como jogador de topo mundial, estrela cintilante que satisfaz a estatística e gera sentimentos de afeto; que comove por orgulho e generosidade; que dá resposta às exigências da eficácia mas também das emoções.

3 Sendo um puro-sangue com confiança inabalável nas suas capacidades, funciona hoje como poeta de bairro em palcos de outra dimensão; um artista mais dotado para o extraordinário do que para o senso comum; um rebelde que se realiza no limite do risco e sente dificuldades em se acomodar na peça como simples parafuso da máquina concebida pelo treinador. Correspondendo à filosofia popular argentina, que valoriza a técnica e a magia num tempo de constantes apelos ao sacrifício, Gaitán pertence à reserva espiritual de um futebol que nos vai escapando por entre os dedos. Apto a corresponder a todo o tipo de exigências, como se viu no Dragão, fabuloso é vê-lo como reflexo do espírito da infância e da adolescência, quando jogava só para o aplauso, para ser importante e reconhecido.

4 Gaitán é bandeira da expressão livre, criativa e silvestre do futebol num mundo que tem acentuado tiques opressores de uniformidade e sofisticação; devolve a bola à rua, onde o homem é autêntico, feliz e sonhador, numa sociedade que consagra a mentira, condena ao sacrifício e nos limita à sobrevivência; remete para a eficácia de armas doces, inocentes, genuínas e deslumbrantes, em contraponto com o perfil bélico de um meio intolerante e sem escrúpulos. Porque o futebol distingue os génios, Nico Gaitán faz explodir a teoria de que todos os jogadores são soldados de um gigantesco exército formado por escravos à mercê de senhores da guerra. Aos 26 anos, é um artista incorruptível a viver etapa exuberante da longa viagem iniciada nas ruas de Buenos Aires e que tem o céu como destino final.

Genes de JVP em Tiago Pinto

Tiago Pinto é, hoje em dia, o melhor lateral-esquerdo da Liga; o mais influente na equipa, o que melhor decide em ação ofensiva e tem melhores soluções na chegada à área – e defende cada vez melhor. Com as devidas proporções, só agora é possível detetar-lhe um ou outro gene do pai João no modo como trata a bola. Não é um génio mas está a construir uma carreira interessante e que, por certo, terá pontos ainda mais altos. Para já vai apresentando argumentos técnicos superiores em fases complicadas do jogo. Olha-se para ele e não custa associá-lo à casta JVP.

RQ7 devolveu tudo ao início

Quaresma não foi titular com o Benfica e já ninguém estranhou, muito menos se revoltou, com a opção de Lopetegui. O problema é que a equipa só foi ameaçadora com ele em campo (já perdia por 0-2), o que devolve a discussão ao início. Neste caso de modo mais alargado, porque, mais do que talento e inspiração, ao FC Porto faltou história. Indi, Marcano, Casemiro, Óliver, Tello e Brahimi, todos titulares, acabaram de chegar. São apenas grandes jogadores. Não têm ligações sentimentais ao clube para interpretarem o significado de um momento tão grande. Jogar “à Porto” é outra coisa.

Maxi perfeito sobre Brahimi

Maxi Pereira foi indiferente aos benefícios da defesa à zona e cumpriu a dificílima tarefa à sua maneira. Se a luta era com Brahimi, o maior foco de desestabilização do adversário, e a missão era diminuir os efeitos do seu futebol, o uruguaio não esteve com meias tintas: marcou-o à moda antiga, isto é, com vigilância implacável. De cada vez que o extremo recebia a bola, muitas vezes de costas, o lateral caía-lhe em cima, não o deixava sequer rodar e roubava-lhe a bola. Maxi fez uma das melhores exibições ao serviço do Benfica. E nem precisou de exagerar na contundência e na picardia. Perfeito.

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