A máscara do predador Montero
1 - Costuma dizer-se que o treinador está para o futebol como os realizadores para o cinema: são os principais responsáveis pelo resultado final das obras que concebem mas não são atores dos seus sonhos. No futebol, o treinador define uma estratégia mas tem de imaginar o jogo na cabeça, nos pés, nos gestos e nos movimentos dos jogadores, prova de que numa atividade desenvolvida dentro de campo é estranho que a figura mais importante possa viver do lado de fora. Pensemos, por exemplo, em Leonardo Jardim: quase tudo o que projeta para o Sporting tem Montero como protagonista final, prova de que mesmo num desporto coletivo há ações (defesa, corte, passe e golo) de um homem só.
2 - Uma das suas características é antecipar-se às intenções dos outros (companheiros e adversários) e chegar aos lances centésimos de segundo antes de ocorrerem. Por entender o jogo no seu todo e saber tornear as armadilhas montadas no terreno, Montero vale por qualidades avulsas mas também por entender as circunstâncias que o rodeiam. Não é habilidoso nem tem físico de gladiador; não serve só para o último toque mas também não desequilibra fora do habitat natural e, no entanto, em Braga marcou aos 4 minutos, num cabeceamento na pequena área (coragem e faro de goleador) e, aos 31 minutos, furou entre os centrais ainda longe do destino final (como um rato atómico), maldade que valeu a expulsão de Aderlan Santos, levou à saída de Paulo Vinícius (lesionado) e reabriu o caminho para a vitória.
3 - Sendo um predador insaciável, acumula veneno por todo o espaço ofensivo com o intuito de descarregá-lo no último toque. Na procura de ser invisível e mostrar-se inofensivo, Montero veste a pele de ponta-de-lança esforçado, que não vira a cara à luta e expressa solidariedade com o coletivo; mas apesar do sacrifício e da generosa contribuição no momento em que perde a bola, há nele o deambular, a inteligência e as segundas intenções de quem nunca perde de vista o objetivo final da tarefa que desempenha. Quando se mascara de funcionário está só a fazer horas para o encontro marcado com a bola, que ocorre, normalmente, em momento e local apropriados para o golo. Prova de que, fingindo ser mais um a marchar na parada, está preparado para intervenções fantasmagóricas que lhe dão o eterno protagonismo de salvador.
4 - Montero concentra malandrice, agitação e despudor; potência, resistência e velocidade; talento, tiro e pontaria. É legítimo associá-lo, por estilo e funcionalidade, a Liedson, o Levezinho que é mais baixo um centímetro, pesa menos sete quilos e entrou na lenda verde e branca empurrado por números impressionantes. Se o notável Sporting de Leonardo Jardim cumpre o ideal de qualquer treinador, revelando valor global superior à soma das partes, também o colombiano é superior ao total de cada uma das parcelas utilizadas para o avaliarmos. Carles Rexach, velha glória do Barcelona e cúmplice de Johan Cruyff no banco blaugrana, dizia sobre Eusébio, o médio discreto do Dream Team: “Não dribla, não é muito rápido nem forte, mas a jogar é um fenómeno.” Fredy Montero também. E ainda torna fácil o mais difícil do futebol: o golo.
Nélson Oliveira a ganhar tempo
Mais ainda do que os golos marcados pelo Rennes a grande notícia é mesmo estar a jogar
O tempo está para o avançado-centro como para o guarda-redes. Ambos atuam junto às balizas, onde a responsabilidade é imensa e o erro se afigura mais vulgar entre os jovens. Aos 22 anos, Nélson Oliveira vive etapa habitual porque, fenómenos à parte, o ponta-de-lança só atinge números eloquentes depois de preencher o disco rígido com saber, experiência e maturidade. Cada golo em Rennes está transformado numa farpa cravada em Jorge Jesus. Erradamente. Porque a decisão de voltar a emprestá-lo contempla por certo um plano para integração futura, Nélson está a ganhar tempo.
E se o Paços for à Europa?
Há futebol para lá dos resultados. É só preciso vê-lo, senti-lo, entendê-lo e apreciá-lo
Antes de ganhar na Madeira, o Paços de Ferreira já mostrava indícios de coesão e qualidade no seu jogo. Costinha foi um alvo fácil porque perdeu muitas vezes e estava a jeito pela falta de habilitações para exercer. O grave é que a dimensão da crítica resvalou para o insulto gratuito, logo para a falta de respeito inaceitável. Passado o cabo das tormentas, renasce a esperança de uma época tranquila. Com os jogadores que tem e o clima de união que transparece do comportamento de todos os componentes do grupo, cá para mim ainda vai a tempo de se meter na luta por um lugar europeu.
Fantasma de Mou ataca em Madrid
Sabe-se agora que nem toda a nação merengue ficou aliviada com o adeus do ex-treinador
Até num clube do qual saiu em conflito e sem aura de ganhador o fantasma de José Mourinho agita os adeptos. A imagem que ficou foi a de que o treinador português não deixou saudades no Bernabéu. Sabe-se agora que tal aconteceu apenas entre a elite madridista, o maior alicerce de um clube cavalheiro que se habituou, desde a segunda metade dos anos 50, a vencer sem guerrear. O Real Madrid perdeu em casa o dérbi com o Atlético e, numa série de entrevistas feitas logo a seguir, a sentença popular foi clara na recordação e no apoio a José Mourinho. Quem havia de dizer.
