A peça final de estabilidade
1. Quando um futebolista se confunde com a mensagem e não estabelece ligação à ideia base, a tendência é agir desenquadrado de estratégia, princípios e objectivos previamente definidos. É por essa razão que José Mourinho infunde nos seus jogadores ensinamentos que não suscitam dúvidas; também por isso, Jorge Valdano defende que um treinador deve ensinar a jogar e não a fazer jogadas; que o importante é contextualizar o talento numa cadeia tão ampla quanto possível e apelar à inteligência para dar funcionalidade ao colectivo. Maniche personifica as vantagens dessa intervenção do líder, porque domina os três valores que definem o conhecimento do jogo: espaço (fundamental ocupá-lo na perfeição), tempo (que permite interpretar os benefícios de velocidade e pausa) e engano (potencial factor de desequilíbrio).
2. Sendo difícil construir uma boa equipa só com violinistas, o primeiro passo para ter êxito é comprometê-los com a obra, colocá-los no lugar certo e coordenar-lhes a acção. O que alguns candidatos a maestros fazem é outra coisa: juntam-nos e esperam que eles se entendam. Ora uma equipa de futebol, como qualquer orquestra, precisa de orientação técnica, funções definidas e harmonia no funcionamento. Maniche é um violinista que também toca ferrinhos; que não fica diminuído por estar no bombo e não se intimida quando vai para o piano. Não é o mais brilhante em nenhum instrumento mas pode tornar-se o músico mais importante. E sob a direcção de Mourinho transforma-se em referência absoluta no panorama internacional.
3. Maniche nunca viveu em labirintos de desespero, solicitando o resgate à clausura imposta pela tirania do comando. Longe de ser um prisioneiro ou ferramenta sem cérebro, é um jogador precioso, que passa 90' a tomar decisões importantes para a equipa, com e sem bola, a defender e a atacar. Com uma inteligência táctica extraordinária, realiza-se dando operacionalidade ao plano global, assumindo o desígnio de multiplicar os efeitos do que outros fazem e de ser, ele próprio, uma solução temível. A sua história, que tem adorno social reconhecido e encerrou propósitos de uma vingança já concretizada, está em vias de conhecer novo episódio. Depois de preencher o currículo no FC Porto e do contrato milionário com o Dínamo de Moscovo, prepara-se agora para atingir o céu que é o Chelsea.
4. Se o culto das grandes estrelas, a força da imagem e o peso relativo do discurso constituem argumentos para acentuar os ímpetos de um jogo cada vez mais transformado em negócio, Maniche tem sido uma espécie de corpo estranho em Wall Street, indiferente à moda (veste-se de jogador onde predomina o fato e a gravata) e desenquadrado das implacáveis leis do mercado (não corresponde a qualquer tendência). Quando José Mourinho, disposto a libertá-lo do inferno russo, afirma que seria "a peça final de estabilidade" na mais espectacular máquina do futebol europeu, não está só a emitir uma opinião ousada, está a insistir numa evidência: bem sintonizado com o treinador, Maniche é um dos melhores e mais versáteis médios do Mundo. Difícil é entender por que motivo essas palavras ainda provocam surpresa e até alguma contestação.
Flanco direito
ELES SABIAM O QUE ESTAVAM A FAZER. Peter Crouch, o ponta-de-lança do Liverpool, teria futuro incerto em Portugal: alto, louro e pouco habilidoso, precisaria de eficácia para calar os profetas do instante. Vindo do Southampton, foi alvo de muitas críticas, sobretudo nos meses passados em branco. Nessa fase, Benítez insistiu nele e Eriksson chamou-o à selecção. Ambos sabiam o que estavam a fazer. Mas poucos seriam capazes de esperar tanto para terem razão.
GOLOS SEM REVOLTA. A orientação pedagógica em Manchester permitiu-lhe entender que o êxito não dependia só de jogar ou ser suplente; de ser substituído ou entrar a meio. Foi essa relação de confiança que permitiu a Ronaldo aceitar as contingências da evolução. Depois de ausência prolongada, reapareceu em grande com o Bolton: fez um jogo fabuloso e marcou 2 golos. Nos festejos não expressou sinais de revolta. Estava tudo dentro da normalidade.
MAIS VALIA FICAREM CALADOS. No regresso a Upton Park, onde se formou, o público preparou uma recepção hostil a Frank Lampard: sempre que tocasse na bola, iam assobiá-lo sem clemência. Foram infelizes os adeptos do West Ham: primeiro, porque as aparições do craque foram tão breves e talentosas que, antes do ruído maior, já a bola estava noutros pés; depois, ainda foi ele quem abriu caminho à vitória do Chelsea (3-1). Não sei se concordam comigo, mas perderam uma boa ocasião para estar calados.
A importância do adjunto português
Fora da Europa e a 13 pontos do Chelsea, vai ser difícil ao Man. United manter os seus jogadores em estado de alerta máximo. As polémicas à volta da gestão da equipa parecem uma pescadinha de rabo na boca: começam e acabam na discussão da influência de Carlos Queiroz nas decisões do líder. Nos momentos de esplendor, Ferguson é o génio que não liga a modernices perigosas; nas derrotas, é uma desgraça que vá na conversa do adjunto português, esse alucinado para quem o futebol já tem sistemas para lá do 4x4x2. Dito assim, até dá vontade de rir.
