A pedra preciosa da academia
Aos 19 anos, Eric Dier é uma esponja que absorve tudo quanto aprende. Está a construir os alicerces de um futebolista adulto, maduro e inteligente, passo que o credibiliza como potencial jogador de exceção.
1 - Um dos primeiros choques de Jorge Valdano quando assinou pelo Real Madrid como jogador foi a dificuldade em descobrir o que fazer à alegria das grandes vitórias. Quando procurava companheiros para libertar tensões e repartir felicidade, já todos deviam estar no primeiro sono. Eric Dier ainda não teve esse problema porque, estando num clube de topo, só tem conhecido a outra face da moeda: a derrota, a depressão, a angústia... Se o futebol estimula o desejo de cada um se expressar como é, Dier revela, como bom britânico, a nobreza de caráter, o sentido de responsabilidade, o espírito solidário, o entendimento do futebol como cadeia de acontecimentos que compromete toda a comunidade. Nesta fase de transição de júnior para sénior está muito à frente de todos os companheiros de geração.
2 - É um escândalo que já tenha decifrado quase todos os segredos do futebol. Os jovens são mais vulneráveis aos temores, cujo efeito nocivo pode condicionar a expressão futebolística. O medo nunca é totalmente educado mas a experiência ajuda a ultrapassar a inibição provocada pelos nervos. Eric Dier revela, aos 19 anos, a maturidade, o conhecimento e a responsabilidade de um veterano. Jogar com limitações ou sentir o dever cumprido será sempre uma convicção individual, independente de assobios, aplausos, críticas, elogios ou recriminações vindas de fora. Esse talento para isolar as circunstâncias exteriores não significa necessariamente estarmos perante um grande jogador; mas quem, como Dier, o consegue tão cedo, dá passo de gigante para se consolidar como homem.
3 - A história dá-nos mais exemplos de médios que recuam no terreno e se fixam no eixo da defesa do que o contrário. Mas Dier também não figura no lote mais vasto daqueles que, formados atrás, são defesas que jogam 20 metros à frente, com argumentos limitados nas funções de centro-campistas. Do central tem a envergadura impressionante, potência de salto e bom jogo de cabeça; talento para antecipar movimentos, chegar primeiro e ganhar no choque. No miolo revela agilidade para dar fluidez à ação coletiva; técnica para resolver em espaços curtos; qualidade de passe em zonas de risco para o adversário (ofereceu uma bola de golo a Van Wolfswinkel frente ao FC Porto, por exemplo); critério para dar sentido de orientação aos movimentos e para pensar dois ou três toques à frente de cada vez que intervém.
4 - Eric Dier é uma esponja que absorve tudo quanto aprende, ao mesmo tempo que dá sinais seguros de que nunca dará por concluído o processo de assimilação de conhecimentos. Porque o ensino académico permite ganhar etapas na formação de qualquer futebolista, tem aproveitado o contacto com mestre Jesualdo Ferreira para saber cada vez mais, encontrar respostas para todas as dúvidas e ter soluções para a diversidade de exigências provocadas pelo jogo. Sobre ele já deixámos de perguntar a idade. Está a construir os alicerces de futebolista adulto, maduro e inteligente, razão pela qual, face à aposta sistemática e diversificada nas suas qualidades, atingiu o estatuto de pedra mais preciosa da academia – passo que o credibiliza como potencial jogador de exceção.
Messi marcou golo "à Ruben"
O golo do Beira-Mar foi esplendoroso. Ruben Ribeiro, um daqueles jogadores que tudo quanto faz parece ser apesar de ou contra alguém, resolveu entrar na história da Liga 2012/13. Uma semana depois de bela demonstração de talento frente ao Benfica, marcou um dos golos da época. A impressão causada foi tão forte que, dias volvidos, quando Messi operou o milagre que deu início à espetacular remontada do Barcelona frente ao Milan, o primeiro instinto foi o de pensar que o génio tinha marcado um golo “à Ruben”. Só que em versão canhota.
Uma lição curta mas eloquente
Com um meio-campo talentoso e dinâmico (Salvio, Gaitán e Ola John), que se aproxima do atacante e tem argumentos para alimentar o jogo combinado, a equipa não precisa só de amplitude de movimentos mas também de instinto e precisão nas imediações da baliza. Com a estética preguiçosa que o caracteriza, Cardozo foi sublime na lição curta mas eloquente da qual resultaram duas finalizações de catálogo que o confirmaram como avançado de classe super. Os dois golos em Bordéus e o de Leverkusen constituem o cartão-de-visita recomendável como fantástico marcador de golos.
Dobro dos golos e metade do jogo
No Dragão a diferença foi tremenda – os espanhóis foram triturados por uma grande equipa no topo de talento, ambição, dinâmica e intensidade, à qual faltaram apenas níveis mínimos de eficácia. O adversário provou a sua pequenez internacional e, atordoado, andou hora e meia lutando pela sobrevivência. No Rosaleda nada foi igual, é certo, mas do confronto resulta a ideia de que, para vencer uma eliminatória, nenhuma equipa precisa de ser tão dominadora e brilhante. De resto, é incrível como o Málaga, jogando metade do que fez o FC Porto no Dragão, marcou o dobro dos golos.
