A polivalência

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FARSA – Desde finais dos anos 60 que o prestígio dos conceitos genéricos desfocam muitas verdades do futebol. O excessivo peso da táctica; o uso e abuso do músculo; a farsa do trabalho de manhã, à tarde e à noite, que tantas vezes confunde quantidade com qualidade; o endeusamento de valores como disciplina, organização, concentração e generosidade, tudo serve para desviar as atenções do essencial que continua a ser o talento do jogador.

A realidade é só uma: hoje em dia todos dominam esses valores globais e o que distingue as equipas é a qualidade de quem lhes dá forma. A I Liga é um bom exemplo, porque tem os dois melhores conjuntos (Sporting e Boavista) nos primeiros lugares, outros tantos (FC Porto e Benfica) num patamar imediatamente abaixo, seguidos de um pelotão liderado pelo Belenenses.

BETO – A polivalência está normalmente associada às coisas boas do futebol, como valor sempre elogiado por quem está de fora, aproveitado e muitas vezes estimulado pelos treinadores, que não raras vezes o entendem como bênção, mas do qual resultam, por norma, perigos evidentes para os jogadores.

A começar pela sua estabilidade emocional, beliscada pelo travão à afirmação técnica plena no lugar em que procuram especializar-se e no qual já eram (são) considerados referências.

Quando Bölöni, para organizar o sistema defensivo do Sporting, optou por desviar Beto para a direita da defesa – com resultados positivos para a equipa, é preciso reconhecer, razão pela qual está ilibado de qualquer crime – não custa adivinhar as duas perguntas que o melhor central português da I Liga terá feito a si próprio: porquê eu e por quanto tempo?

MUNDIAL – No caso de Beto, que já tornou público o desejo de voltar ao "habitat" natural, o conceito de polivalência não passa apenas pelo recente desvio lateral. No fim da época passada, António Oliveira aproveitou a ideia de Manuel Fernandes e colocou-o um pouco mais à frente, como médio de cobertura, assumindo a marcação ao segundo avançado.

Em Dublin, num jogo decisivo da qualificação para o Campeonato do Mundo, a sua inclusão no onze teve ainda a explicação da imperiosa necessidade de acrescentar centímetros à equipa – só Fernando Couto e Jorge Costa garantiam presença no jogo de cabeça.

Agora que o Mundial está à porta e há uma lista de 23 jogadores para elaborar, Beto pode relativizar a preocupação: os jogadores que desempenham mais de uma função em campo potenciam o valor.

CANEIRA – Tracemos um ponto de partida imaginário: três guarda-redes, mais dois jogadores por cada um dos restantes dez lugares. Seguindo o raciocínio, ao qual devemos acrescentar algumas pistas dadas pelo seleccionador nacional nas escolhas e nos princípios seguidos, há um elo frágil: a falta de alternativa a Rui Jorge.

Dimas tem jogado pouco, Mário Silva tem estado ausente em demasia, Kenedy, Pedro Henriques e Nuno Valente não têm sido opção para a selecção. Neste caso ganha forma a lógica de premiar a polivalência, incluindo Marco Caneira na lista, ele que tem feito, com excelente aproveitamento, todos os lugares da defesa e mantém-se como figura da I Liga.

A possibilidade de satisfazer as exigências com sete e não oito defesas poderá ser o segredo para ganhar uma unidade na frente, o tal "joker" sempre do agrado de António Oliveira. E se essa for a opção, a carta fora do baralho é bem capaz de ter um rosto inesperado face às actuais circunstâncias: Ricardo Quaresma.

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