A propósito de Bölöni

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1 Quando treinador e dirigentes se unem à volta de um projecto amplo e aceitam defender uma ideia futebolística a pensar no futuro, é legítimo presumir que a solidez do compromisso não está dependente de resultados imediatos; se o treinador acrescenta saber técnico à tarefa e ainda gera vitórias, deve reclamar o reconhecimento pela sua competência mas resistir ao rótulo de ganhador – espero que não fiquem chocados se lhes disser que, no futebol e não só, há muita incompetência bem sucedida. No dia em que festejou o triunfo na Liga espanhola como treinador do Real Madrid (94/95), Jorge Valdano foi para casa enquanto a equipa se juntava aos adeptos na Praça Cibeles. Se o momento era de festa para quase todos os madridistas, para ele era de preocupação: a Quinta do Buitre terminara o prazo de validade; o título aumentava as expectativas dos adeptos; o clube não tinha condições para investir, ou seja, o seu destino como treinador parecia-lhe traçado para a época seguinte. Estava mesmo.

2 Laszlo Bölöni foi escolhido pelo Sporting, não por ser ganhador mas pelo perfil técnico e humano adequado às prioridades definidas pela SAD. Hoje parece claro que os argumentos mais válidos para o salvar da imagem pública do fracasso são aqueles que menos peso tinham à partida: os resultados, traduzidos nas vitórias em todas as provas nacionais de 2001/02. Isto porque o tempo se encarregou de mostrar um homem mais apto a manter as aparências do que a reclamar a perfeição; tão imaginativo a criar alibis para desviar atenções e aliviar responsabilidades nas derrotas, como esperto a aproveitar a boa imagem exterior para se assumir como rosto do grupo nos momentos bons; um homem que, parecendo firme nas convicções, é vulnerável quando põem em causa as suas ideias – perde facilmente as estribeiras com atitudes e palavras que desmascaram o ar angélico, dando--lhe tons de surpreendente falsidade.

3 O seu maior pecado foi utilizar o êxito para legitimar a direcção da equipa em conflito com os jogadores, indiferente ao bom senso e à gestão emocional do grupo; sem respeito pela correlação de forças existente e em certos casos despojado de critério na orientação técnica e táctica do plantel. Bölöni teve, acima de tudo, a felicidade de aproveitar as circunstâncias favoráveis da época passada – e isso é um mérito. Conquistou Liga, Taça, Supertaça e, ao contrário de Valdano, aceitou entregar-se aos exageros dos fenómenos de massas: pintou o cabelo de verde e andou em ombros pela cidade; entrou nas fotos, na história e na festa, mas nunca chegou verdadeiramente a entrar no coração da gente. Quando voltou de férias, para iniciar a época 2002/03, perdera voz, solidez e experiência na defesa (saídas de André Cruz e Babb ); deixara de ter ordem no meio-campo (adeus, Hugo Viana) e, drama dos dramas, arrancava sem o génio de João Pinto e entregue à missão impossível de inventar um substituto para Jardel. Só então achou que a vida ia ser difícil. Foi mesmo.

4 Bölöni tem defeitos, errou, está longe da unanimidade, mas não é um vendedor de banha da cobra, um fala-barato, um charlatão; talvez não deixe saudades, mas conhece a palavra decência, valoriza a cultura do País que o acolheu e atribui ao futebol a sua dimensão como jogo e espectáculo; não é hábil nas relações humanas mas não cometeu, pelo menos que se conheçam, atrocidades insanáveis; treinou, ganhou, perdeu e teve a coragem de lançar Quaresma, Viana e Ronaldo. Agora, o desafio para o Sporting é abordar o último troço da temporada guiado por um treinador a prazo. Se os jogadores são os primeiros a detectar crises de autoridade, os treinadores são os primeiros a sentir os seus efeitos, razão pela qual se justifica decretar o estado de alerta máximo. Claro que o segundo lugar é pouco motivante para quem foi duas vezes campeão em três anos; mas a presença na Liga dos Campeões faz toda a diferença: para os cofres do clube e para a imagem de um homem que, feitas as contas, também não merece sair pela porta dos fundos.

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