A reconstrução de um grande guarda-redes
1 Passou quase toda uma carreira de 17 anos ao serviço de grandes equipas: oito anos no Flamengo, outros tantos no Inter Milão e dez como guarda-costas da reserva espiritual do futebol que é a Seleção do Brasil. Nunca se formatou para descargas contínuas de energia e tensões; aprendeu que, numa potência, não há segundas oportunidades para erros cometidos; e adaptou a vontade juvenil de estar sempre em ação à conveniência de ser discreto e competente. Nos últimos dois anos aceitou jogar numa equipa secundária em Inglaterra (Queens Park Rangers) e, pior ainda, nos modestos canadianos do Toronto FC.
2 Júlio César precisou de seis meses para recuperar alguns dos valores adolescentes que perdeu com o Mundial’2014. Recuperou a paixão pelo jogo e o orgulho de ser futebolista; reencontrou saúde, ambição, coragem, agilidade e reflexos; retomou o espírito conquistador de quem ainda tem objetivos grandes para atingir e não se acomodou com o conforto de uma história dourada. Na Luz, não desfez logo a imagem de degradação física e aparente desmotivação. Da mesma forma como levantou dúvidas automáticas para satisfazer as necessidades do Benfica, devemos agora reconhecer que se reconstruiu como um dos melhores guarda-redes do seu tempo.
3 Exímio a jogar com os pés, é a imagem do guarda-redes moderno, representante de uma função que hoje exige muito mais do que mera disponibilidade física. Hoje, o guardião do templo está obrigado a estimular o sentido tático e apelar à inteligência para tomar decisões com implicações no funcionamento da equipa: aquecer ou arrefecer os ânimos; jogar curto ou longo; depressa ou devagar; com as mãos ou com os pés. O resto é uma questão de estilo e ensinamentos acumulados ao longo de 17 anos ao mais alto nível. É um guarda-redes equilibrado, que adaptou qualidades a cada momento do trajeto – nem estátua debaixo dos postes nem extravagante inconsciente que antecipa problemas; nem múmia que contagia por inércia nem esquizofrénico para dimensionar o perigo.
4 Aos 35 anos, a mesma idade que tinha Michel Preud’homme quando veio para o Benfica, o Imperador já digeriu o veneno da juventude (espírito aventureiro, desejo de evidência e gosto pelo adorno) e passou a portagem para a maturidade. Experiente, frio e responsável, domina todas as regras que orientam o comportamento do guarda-costas de uma grande potência: espetador com olhos de protagonista; felino condenado à paciência; observador que não pode distrair-se. Tem o saber enciclopédico que lhe permite acertar quase todas as decisões, é um exemplo de equilíbrio e a súmula perfeita de argumentos consolidados com os anos. Este Júlio César é o seguimento do prodígio que jogou 87 vezes pelo Brasil e foi campeão europeu pelo Inter Milão. É o melhor guarda-redes do Benfica dos últimos 20 anos.
Dragão segue ordens de Óliver
Óliver é uma estrela pelo talento na gestão do jogo; pela intimidade com a bola e, cada vez mais, pelo jeito de multiplicar a produção da equipa. Não basta a um miúdo de 20 anos gritar em pleno campo de batalha “vamos por ali e fazemos assim”. É fundamental que os outros acreditem nele, no rumo sugerido e na sua capacidade de liderança . A dúvida é legítima e só quando as reservas forem ultrapassadas o funcionamento será perfeito. O FC Porto ainda não atingiu esse patamar. Mas para lá caminha.
Adrien é líder pelo exemplo
Adrien é um líder silencioso, que exerce pelo exemplo, pelo posicionamento em campo e pelo modo perfeito como entende a complexa cadeia de sucessivas etapas de que é feito o jogo. Na ampla zona em que se movimenta serve para tudo: para defender e atacar; ocupar o espaço com inteligência e tomar as decisões corretas; travar as iniciativas do adversário e transformá-las automaticamente em ataques da sua equipa; evitar o pior com desarmes milagrosos e iluminar a estrada para o golo. Aos 25 anos, consolidou um futebol de vistas largas, a caminho do ponto mais alto da carreira.
O destino final de André André
André André foi herói com o Nacional. O capitão vimaranense assinou exibição fantástica, na pele de general tenebroso para o adversário, alma da sua equipa e homem que administrou o jogo segundo as suas regras e ao ritmo do seu talento. Tirando o facto de ter marcado três golos, feito fora do contexto do jogador que é, o médio limitou-se a confirmar a excelência de toda a época. Pode não atingir o nível de pai André, um dos melhores médios portugueses de sempre; mas, aos 25 anos, ainda vai a tempo de chegar a um grande do futebol nacional.
